Marcos Azambuja (1935-2025)

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Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

Homenagem ao embaixador, recém-falecido

Morreu há poucos dias o embaixador Marcos Azambuja, aos 90 anos, pelo que sei de um câncer contra o qual lutava havia anos.

Foi um dos maiores diplomatas da sua geração e superior também à maioria dos diplomatas das gerações mais novas. Ocupou cargos importantes, foi embaixador em Buenos Aires, por exemplo, uma das embaixadas mais importante para nós. Não chegou a ministro de Estado. Mas isso não importa, nada disso importa. Afinal, o que é um ministro das Relações Exteriores ou um embaixador em qualquer lugar? Tudo isso passa e o que fica é a lembrança que deixamos, a descendência física e espiritual.

Como dizia, Nelson Rodrigues, a propósito de Roberto Campos, “um ministro de Estado é pouco mais do que um contínuo de luxo”. A marca que Campos deixava, dizia Nelson, era a sua personalidade, a sua inteligência, não as posições que ocupou.

Assim foi Marcos Azambuja. Tendo sido amigo do meu pai, diplomata da mesma geração, herdei a amizade. Ele era, entre outras coisas, um frasista inigualável – como, creio, nunca houve no Itamaraty.

Por exemplo, depois da minha passagem pelas negociações da dívida externa e da moratória que ajudei a construir, no tempo de Dilson Funaro (injustamente esquecido, diga-se de passagem), Marcos Azambuja me disse, carinhosamente: “Paulinho, o Dilson e você são excelentes, mas pensa bem, imagina que o Brasil é credor da Angola, que não paga. Você tem que cobrar a dívida e o ministro deles é dono de uma fábrica de brinquedos (Funaro era empresário desse ramo). Pergunto: você levaria a sério?”. O que contava era sua maneira de dizer. Sem agredir e elevar o tom, ele soltava as suas piadas e fazia a crítica irônica e severa.

Por esse comentário, nota-se que ele era politicamente conservador e inclinado a menosprezar os africanos e os economistas de esquerda que trabalhavam com Funaro. Mas e daí? Posição política ou racismo definem as qualidades fundamentais de uma pessoa? Wagner, Nietzsche, Schopenhauer, Thomas Mann, para dar alguns poucos exemplos, eram de direita ou politicamente indiferentes; Wagner, antissemita. E há, por outro lado, um sem número de progressistas que pouco ou nada valem.

Marcos Azambuja não escrevia muito. Só artigos em jornais e revistas, que eu saiba. Parece que ele trabalhava em um livro nos anos recentes, que ficou inacabado. Espero que publiquem postumamente. De qualquer modo, ele era inigualável na conversa. Dele se pode dizer, o que Nelson disse de Otto Lara Resende, outro frasista memorável: “O Estado brasileiro deveria pagar um taquígrafo para andar atrás do Otto anotando tudo que ele diz, de forma lapidar, mas nunca coloca no papel!”.

Em certa época, Marcos Azambuja servia em Buenos Aires, o meu pai em Montevideo. Eis que ele telefona para meu pai, com quem ele rivalizava politica e profissionalmente, e disse: “Paulo, o que você está fazendo aí em Niterói? Vem me visitar!”. Uma piada cortante, pois meu pai estava num ponto baixo da sua brilhante carreira, servindo em um posto de menor importância. Mas, de novo, não havia acidez na fala de Marcos Azambuja e ele provocava mais risos do que ressentimento (se bem que não tenho certeza se meu pai levou o telefonema na esportiva).

Em outra ocasião, caminhávamos pela Oscar Freire, em São Paulo, a rua em que (antigamente, pelo menos) as mulheres mais lindas circulavam o dia todo, e ele exclama: “Mas isso aqui é a National Geographic – lugares maravilhosos que nunca visitarei!”

Ficou na minha lembrança também um comentário, igualmente certeiro, que ele fez sobre a minha mãe, Elmira: “Paulo, se eu fosse casado com a Elmira, já seria Presidente da República!” – uma referência ao tino político dela, superior nesse ponto a todos da nossa família e, ao mesmo tempo, mais uma cutucada no meu pai.

Na missa de sétimo dia da minha mãe, no ano passado no Rio, fiz um pequeno discurso em que citava essa frase dele. Todos riram. Ele, presente, veio me dar um abraço emocionado. Eu disse que faria uma visita a ele na minha próxima ida ao Rio, mas não deu tempo. Foi a última vez em que nos vimos.

É a eterna lição – nunca se deve adiar um abraço, uma visita aos amigos queridos.

*Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de Estilhaços (Contracorrente) [https://amzn.to/3ZulvOz]

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