Mobilizações propositivas

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Por Angelita Matos Souza*

A aposta é no poder de convencimento do Sejamos todos sociaisdemocratas, inclusive como caminho para fazer avançar o Sejamos todos feministas na direção liberalidentitária

Ao final de setembro de 2018, em várias cidades do Brasil, manifestantes saíram às ruas atendendo à convocação “Ele Não”. As manifestações organizadas por mulheres, com público maiormente feminino, foram alegres e expressivas, porém sondagens sobre intenções de voto realizadas depois mostraram o crescimento das intenções de voto entre as mulheres no candidato Jair Bolsonaro. Nas redes sociais, alguns apontaram que a “marcha das mulheres” estimulou o avanço do candidato da extrema direita nas eleições.

Não tenho ideia se a correlação é pertinente, todavia suspeito que mobilizações propositivas costumam ser politicamente mais interessantes. Dessa ótica, o caráter negativo e personalizado do #EleNão pode ter sido contraproducente, provavelmente seria mais atraente uma chamada afirmativa, que ao invés de mirar no candidato, agora presidente, focasse na proteção social, evitando pautas controversas.

Mais creches, menos descriminalização do aborto! É provocação, mas a hipótese a ser considerada é a de que talvez estejamos em uma situação tão desvantajosa que seja melhor, para dar um passo à frente, dar dois passos atrás e abraçar proposições feministas sem falar em feminismo, rechaçado pelos movimentos conservadores em ascensão no país, como apontam pesquisas a respeito.

 Antipatia certamente relacionada ao fato de a dimensão social dos estudos feministas vir sendo abafada pelas pautas mais liberais dos movimentos identitários, que ofuscam a relação de complementaridade e de contradição entre as esferas da produção econômica e a da reprodução social. Isto é, boa parte das pesquisas e produção bibliográfica no campo dos estudos feministas denuncia a quantidade de tempo e recursos destinados a produzir pessoas (força de trabalho), por meio de atividades a cargo, principalmente, das mulheres, atividades muitas vezes não remuneradas, associadas ao mundo dos cuidados/afetos, em oposição à esfera da produção econômica, inviável sem a esfera da reprodução social.

Contraditoriamente, condição subordinada à lógica econômica, de produção de bens & acumulação financeira. A injustiça implícita nessa hierarquia torna-se ainda mais dramática em um momento de crise como o que estamos atravessando, que exponencia a necessidade de proteção social. Além de evidenciar, se algum ainda o desconhece, que cabe sobretudo às mulheres cuidar da família, ao mesmo tempo em que muitas têm de conciliar essa responsabilidade com a situação de força de trabalho no mercado, sendo o trabalho feminino dominante na terceirização dos cuidados, no setor privado, mormente doméstico, e nos serviços públicos de assistência social.

Duplicação (ou jornada dupla) que predispõe as mulheres a posições políticas sociais-democratas. A defesa de serviços sociais de qualidade tem potencial para atrair tanto as mulheres da classe trabalhadora dependentes desses serviços como as dos estratos médios, na medida em que propiciaria ganhos na renda se subtraídos gastos com educação e assistência médica. Uma bandeira dos movimentos feministas, mas talvez o melhor seja defender a oferta e qualidade dos serviços públicos, além da renda mínima, sem falar abertamente em feminismo. O objetivo da conquista de votos para o campo progressista justificaria ofuscar pautas caras aos movimentos feministas, como a da autonomia decisória sobre o próprio corpo.

Para concluir, vale indagar sobre as chances de um país periférico e dependente como o Brasil vir a ser uma socialdemocracia avançada? Tudo indica que são escassas, no entanto algumas conquistas são sempre possíveis e a demanda por assistência tem potencial maior de acirramento das contradições em favor do campo progressista. A aposta é no poder de convencimento do Sejamos todos sociaisdemocratas, inclusive como caminho para fazer avançar o Sejamos todos feministas na direção liberalidentitária.

*Angelita Matos Souza é professora do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp.