Não existem fake-news: só mentira em massa

image_pdf

Por TALES AB`SÁBER*

A recente pesquisa que revelou o aumento dos que consideram ruins as políticas e o estado da economia no Brasil, apesar das mesmas serem boas, descortina o poder efetivo da política neofascista no Brasil

A queda de popularidade do governo registrada em pesquisa recente pode ser pensada, entre outras coisas, como sinal, quase evidente, de que a máquina de propaganda e sedução bolso-conspiratória-evangélico-fascista continua funcionando a todo vapor. De fato, ela continua amplamente livre, leve e solta, trabalhando da mesma forma que possibilitou a chegada ao poder do governo do terror e da destruição nacional, em 2018.

Sabemos, e qualquer pessoa minimamente informada sabe, que a economia da vida, depois de um ano de governo de frente ampla de Lula III, vai razoavelmente bem: o PIB 200% maior do que a julgamento original do “mercado” é um número expressivo. A inflação está controlada e houve aumento real do emprego formal. Há estabilidade e previsibilidade, as bolsas sociais foram retomadas e valorizadas, e são anunciados investimentos industriais internacionais no país.

Porém, no mesmo dia em que o governo apresentou um importante acordo para formalizar e garantir direitos para um milhão de trabalhadores uberizados, na semana em que o IPEA anunciou o aumento recorde da renda do trabalho no país, de 11,7%, que não se via há trinta anos, veio a público o choque do poder efetivo da política neofascista no Brasil: uma pesquisa revelou o aumento significativo dos que consideram ruins as políticas e o estado da economia no Brasil, as mesmas que tudo indica serem boas.

A recusa liminar em reconhecer o trabalho do governo se dá principalmente na faixa de brasileiros que ganham entre 2 e 5 salários mínimos… ou seja, dos trabalhadores pobres, e da classe média baixa, faixa onde também se concentra a grande massa de evangélicos do país.

De fato, para o real povo unido bolso-golpista, evangélicos de direita em busca de poder, e todo os demais tipos de bolsonarismos, a economia do Brasil “nunca foi tão mal”, “o país está arruinado” e “empresas fecham a cada segundo”, como circula cotidianamente em suas amplas redes técnicas nacionais de política, sempre sem dados, mas sempre de forma massiva.

Prosseguindo em seu modo privilegiado de produzir poder, pelo show, pelo escândalo e pela impertinência agressiva, mentiras grosseiras e belicosas constelam aquelas massas sob controle, que gozam, como determinam seus senhores, consumindo tal “informação”, e também produzindo-a. O sujeito aí é a mentira hiper ágil, construída com rigor e método, de linguagem e de política de circulação, na internet.

No mundo deste povo, como já devemos saber, não se lê um jornal, não se considera a história, e o dispositivo geral de controle ideológico liberal, a Rede Globo, por exemplo, se tornou proibido, e deve ser descartado, como a ideia de “globolixo” criada por eles explicita, todos os dias. Como se sabe, há muito eles cindiram a cultura política comum, vivem em um “Brasil paralelo” técnico, de seu próprio “mito”. E, como revelou a pesquisa Quest, eles nos impõem de fato seu terror interno, com muita facilidade, uma das caras da barbárie brasileira de hoje.

A situação exige precisão, entendimento e ação política. Não estamos mais de nenhum modo em 2018, quando progressistas de todos os matizes, com seus partidos, de massa ou não, e seus intelectuais, descobriam, em cima da eleição, que Jair Bolsonaro era uma realidade política forte. E quando ainda se duvidava do caráter neofascista do personagem. Quando pouco ou nada se sabia do mundo cão da internet, das práticas de violência e degradação, calúnia, difamação e declarações permanentes de morte nas redes de massa da extrema direita, impulsionadas ilegalmente.

Quando nada se sabia sobre o ódio e a mentira serem políticas fortes. Quando não vimos o primeiro robô vírus dos Bolsonaros na rede, para reproduzir automaticamente suas falsificações, que apareceu em 2011… realidade que nos parecia irrelevante. Quando não vimos o sistema nacional de organização de massas, em 2015 e 2016, em chats de YouTube e redes de WhatsApp, participando com a maior força do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, já pedindo então golpe de Estado aos seus generais…

Eles funcionavam em massa, congregando grupos em todo país, sem nenhuma referência ao capitão Jair Bolsonaro em seu projeto já ativo de ditadura. Não estamos mais no tempo em que um candidato tampão do PT à presidência – partido que acreditava que ganharia a eleição mesmo com Lula preso, e com a guerra nacional total aberta contra ele, porque tinha certeza, até setembro de 2018…, que sua disputa era com Geraldo Alckmin, e com o falecido PSDB… – podia convocar jornalistas há uma semana da eleição, para dizer que descobriu “coisas horríveis sendo ditas contra ele na internet”, em que, na propaganda fascista mais branda, ele era um pedófilo criminoso.

E quando a massa de milhões de cafajestes, que até hoje não sabemos chamar pelo nome político preciso, exultava maníaca e feroz com o símbolo da verdade de sua campanha: não uma vassoura, para varrer a corrupção de seus rachadões e seus torturadores e sicários milicianos, nem uma estrela voando no céu da felicidade universal…, mas uma mamadeira de crianças, com bico em formato de pênis. Isso foi feito no Brasil.

Isso foi feito com base na construção material de uma estrutura concreta, indústria cultural real, de uma rede de propaganda fascista no país, que se desenvolve continuamente há dez anos. E estas verdadeiras estruturas materiais da propaganda fascista – onde ódio, mistificação religiosa e recusa de história e realidade dos fatos, são um único processo de sentido – estão totalmente intocadas.

O governo que conseguiu vencer por um fio este movimento em 2022 acredita que apenas retomar as políticas materiais de 2003 é suficiente para dar conta da paixão alucinatória, fundida às redes do grupo nacional de ódio. Continua não entendendo que essa subjetivação é alimentada permanentemente por uma estrutura material de produção e reprodução de memes, mentiras e violência imaginária totalmente liberada. Propaganda de massas permanente, baseada na força do sadismo, como performance psíquica humana.

Por isso, trata-se de fascismo. Infelizmente, aumentar a bolsa família, aumentar a faixa de exclusão de imposto de renda dos mais pobres, empregar mais pessoas, garantir direitos aos trabalhadores de plataformas, nada significa nas redes do controle psicossocial do bolsonarismo. Ali, para algo que varia entre 20% e 30% dos brasileiros, só o que o núcleo político fascista e evangélico diz e promove de fato é.

É espantosa nossa incapacidade histórica continuada de compreender que toda política da direita se dá nesta outra “esfera pública”, inteiramente controlada, e muitas vezes criminosa ao ser alimentada. Quanto mais tempo levamos para punir o seu movimento golpista de 2022, mais forte se torna a presença social do movimento. Nosso verdadeiro negacionismo a este respeito faz claramente parte da força do fascismo entre nós.

Já está na hora das esquerdas, e da esquerda no governo, compreenderem que o móvel de todo bolsonarismo é a sua lógica da mentira estrutural permanente, que se sustenta em seu sistema de propaganda em rede, permanente. Uma catástrofe política e “cultural” que a esquerda não combateu, e não combate, há mais de dez anos.

Afinal, como todos sabemos muito bem, “o comunismo está tomando o país”, “as eleições de 2022 foram fraudadas” e “a economia do governo Lula é de terra arrasada”.

Estamos brincando com fogo, e pólvora, sem nenhuma desculpa ou justificativa mais.

*Tales Ab´Sáber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros de O soldado antropofágico: escravidão e não-pensamento no Brasil (n-1/ Hedra). [https://amzn.to/4ay2e2g]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES