Žižek contra a neutralidade

Marcelo Guimarães Lima, Espiral, carvão e acrílico sobre papel, 2021.
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Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Não há autonomia possível no mundo comandado pela chamada democracia liberal hegemônica

Do alto de sua autoridade de intelectual de esquerda, de europeu e eslavo, conhecedor por dentro do mundo cultural, histórico e geográfico do qual a Rússia é parte essencial, Slavoj Žižek escreve contra a “neutralidade” em relação à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, contra a invasão da Ucrânia pelas tropas russas que ele define como um ato imperialista de uma nação contra outra em solo europeu.[1]

Citando a posição do presidente Lula que, segundo Slavoj Žižek, responsabiliza os dois lados pelo conflito, o filósofo escreve com veemência contra a “neutralidade” em relação à guerra. A posição unicamente aceitável para Slavoj Žižek é a defesa militar da Ucrânia, o prolongamento da guerra e a derrota militar e política da figura quase mítica do atual dirigente da Rússia, que representa para a sempre esclarecida imprensa europeia e a opinião dita pública no eixo América do Norte-Europa, a última encarnação do mal absoluto. Qualquer outra alternativa que não seja a derrota da Rússia, é inaceitável. Nisto o filósofo parece concordar com a posição dos EUA e dos países europeus ocidentais.

Sua posição é anti-Rússia e anti-Putin, visto como o imperialista da vez: conservador, autoritário, nacionalista ou ultranacionalista russo, homofóbico, em suma, a figura negativa dos ideais ocidentais e progressistas, na medida em que a herança burguesa- iluminista da liberdade individual e da legalidade internacional informa histórica e criticamente o ideário socialista forjado nas lutas populares nos séculos XIX e XX na Europa. Que esta herança esteja sendo solapada pelas próprias classes dirigentes nos países-modelo da chamada tradição democrática ocidental seria neste caso, penso eu, algo a ser devidamente considerado.

Na confusão dos espíritos própria do tempo, a figura de Vladimir Putin condensa num amálgama simbólico atemporal o “despotismo oriental”, desde o Império Russo até a União Soviética, como projeção da ameaça do grande outro bárbaro ao Ocidente civilizado. Restaria saber se a clara posição de Slavoj Žižek contra a Rússia no contexto atual de belicismo e da guerra prolongada é de fato a favor da Ucrânia.

Vinda do Brasil, da África do Sul ou da Índia, a neutralidade é inaceitável, escreve o filósofo europeu, sem se dar ao trabalho de examinar por que razão estes países, com suas realidades políticas diversas, aparentemente tomam uma posição semelhante que destoa do consenso ocidental, das ideias propagadas por uma imprensa mais e mais homogênea na transmissão das perspectivas “corretas” e excludentes sobre as questões de interesse público na Europa e na América do Norte.

Quer me parecer que o interesse objetivo da Europa seria a resolução ágil de conflitos, mesmo os mais graves, e a paz nas suas fronteiras. Mas o que a América Latina conheceu no início do período neoliberal como “consenso de Washington”, a imposição direta ou indireta de diretivas políticas e econômicas indiscutíveis, obrigatórias, aos países ao sul do Rio Grande, parece definir hoje a conjuntura europeia na qual orientações exógenas e interesses alheios aos interesses das maiorias no espaço europeu são abraçados célere e alegremente pelas classes dominantes do chamado velho continente.

Acrescida das crises sanitárias, migratórias, crise da globalização enquanto crise do modelo econômico neoliberal até aqui hegemônico, a guerra agrava o já precário equilíbrio político e econômico mundial e de modo imediato o status quo já instável nos países principais da União Europeia: França, Inglaterra e Alemanha.

O Sul Global adota uma posição mais cautelosa, que não é do agrado do filósofo, sobre o conflito na Ucrânia. Da perspectiva do sul, o conflito local entre a Rússia e a Ucrânia é visto como mais abrangente no espaço e no tempo, sobredeterminado por interesses hegemônicos da principal potência imperialista e seus aliados na atualidade. Os EUA e seus aliados ocidentais fazem na Ucrânia uma espécie de guerra por procuração, guerra por sujeitos interpostos. Buscam derrotar a Rússia à custa das vidas ucranianas, à custa da destruição material, e consequentemente moral, de um país sob pretexto de sua defesa. Como já foi observado, os EUA e a União Europeia juram combater até o último homem, quer dizer, o último ucraniano.

Na posição “campista”, a que separa os “bons” dos “maus” de modo cabal, indiscutível, lembrar das responsabilidades dos que por suas ações prepararam no tempo e hoje insuflam e financiam do outro lado do oceano a guerra ucraniana, é apoiar o imperialista Vladimir Putin. “Imperialista de segundo escalão” podemos dizer, pois não é a Rússia que possui bases militares na Europa ocidental e ao redor do globo.

Sejam quais forem os desígnios subjetivos atribuídos a Vladimir Putin pelos seus críticos e inimigos “ideológicos”, ocupar e anexar a Ucrânia, por exemplo, está além da capacidade bélica e econômica da Rússia, advertem especialistas independentes em questões militares, e, portanto, está além do interesse objetivo do grupo dirigente em Moscou. Aqui temos uma questão de fato, como é igualmente questão de fato para a liderança russa a expansão da OTAN enquanto processo hostil para com o estado russo, para a sua autonomia, suas relações e seu papel no mundo globalizado.

Outra questão de fato dos tempos atuais diz respeito às iniciativas, cada vez mais temerárias, do grupo ou grupos dirigentes, pois se trata de uma elite profundamente dividida, nos EUA para a manutenção do status de potência hegemônica incontestável, quer dizer: prolongar o século XX tardio no século XXI.

Transformar a guerra inter-imperialista europeia em guerra civil, guerra de classe no interior dos estados nacionais contra as classes dominantes, era a divisa, a palavra de ordem dos revolucionários na crise europeia das chamadas guerras mundiais no início do século XX. No caso da Ucrânia no século XXI, é possível dizer que um prolongado processo de guerra civil latente foi transformado, por decisões e intervenções externas planejadas em conjunção com grupos internos, em guerra entre Estados.

Numa recente entrevista, o presidente Lula classificou a invasão da Ucrânia como um erro histórico da Rússia. Face ao fato consumado e a guerra em curso, a questão é lutar pela paz, por uma saída negociada do conflito, por um cessar imediato das hostilidades, algo que, creio eu, beneficiaria de modo imediato a população ucraniana, bem como os combatentes e o povo russo. Neste sentido, a proposta de Lula me parece mais razoável do que a posição de derrotar o inimigo designado a qualquer custo, na qual coincidem, ainda que sob argumentos que podem parecer divergir em alguns aspectos, o filósofo Slavoj Žižek e as potências ocidentais sob comando dos EUA.

A dita “neutralidade” de Lula se revela aqui como um outro engajamento, engajamento nada abstrato ou idealizante pela paz, iniciativa que não tem nada de “neutra” ou indiferente frente a violência dos estados, mas uma posição autônoma que contraria frontalmente as ações, as justificativas, os interesses e a vontade bélica do imperialismo que realmente dá as cartas no mundo de hoje e que tem demonstrado sua capacidade letal de intervenção, sempre em nome da liberdade e da democracia, não apenas na Europa, mas nos quatro cantos do mundo.

Na guerra sangrenta e mortífera contra o Iraque no início do século XXI, por exemplo, justificada com mentiras e a costumeira retórica falaciosa dos “valores” e da “superioridade moral”, o pequeno Bush declarava a impossibilidade de qualquer outra posição que não a aquiescência às determinações da potência “única e indispensável”. Quem não subscreve a posição dos EUA, se alinha ao inimigo. Não há outra alternativa. Neste particular pouco ou nada mudou.

Não há autonomia possível no mundo comandado pela chamada democracia liberal hegemônica. Neste mundo sui generis, que é o nosso, é possível entender então que longe de se oporem, a democracia liberal paradigmática e seus aliados, a democracia realmente existente, a democracia ideológica e militarmente impositiva, e o fascismo, a negação ideológica radical da democracia representativa, são complementares de vários modos. Proposição que pode nos ajudara a entender alguns aspectos centrais da recente experiência neofascista de Jair Bolsonaro no Brasil e seus atuais e futuros prolongamentos.

A busca pela autonomia num mundo em que a hegemonia estabelecida passa por uma crise evidente com seus riscos mais que evidentes, é algo que se pode compreender com um mínimo de percepção e boa vontade.

Para a opinião consolidada do chamado primeiro mundo, incluindo alguns de seus intelectuais, a posição do presidente Lula pode parecer como um disparate vindo da periferia do sistema mundial, uma insensatez de quem não tem o poderio militar dos países centrais na ordem internacional, uma despropositada ousadia, algo como uma espécie de crime de lesa-majestade.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

Nota


[1] Slavoj Žižek. “O lado sombrio da neutralidade”. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/o-lado-sombrio-da-neutralidade/


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