Nomadland

Willem de Kooning, Untitled from Self-Portrait in a Convex Mirror, 1984
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JOSÉ GERALDO COUTO*

Comentário sobre o filme, vencedor do Oscar, dirigido por Chloé Zhao.

A saga da cinquentona Fern (Frances McDormand), que transforma sua van em residência rodante depois que sua cidade literalmente desaparece do mapa, tem o dom de unir duas coisas: um olhar sobre a América contemporânea, com sua crise social, de emprego e moradia, e uma revisão crítica da mitologia do desbravamento, da busca incessante de uma liberdade sem cercas e sem fronteiras. Aliás, três coisas, porque há também, e principalmente, uma reflexão sobre a passagem do tempo e seus efeitos sobre os indivíduos.

Quem viu os filmes anteriores de Chloé Zhao (As canções que meu irmão me ensinou e Domando o destino) sabe como é cara à diretora de origem chinesa a paisagem do Oeste, com suas pradarias, vales, desertos, horizontes sem fim. Mas é uma contemplação tingida de melancolia e lastreada por uma visão crítica da história que se desenvolveu em torno desses locais.

Num diálogo crucial em que parentes questionam a vida nômade de Fern, a irmã da protagonista tenta dourar um pouco a amarga pílula: “O que ela faz não é diferente do que os pioneiros faziam. Acho que Fern é parte de uma tradição americana”.

Só que os desbravadores de dois séculos atrás estavam em busca de um novo mundo pleno de potencialidades, partiam em caravanas para fundar a terra prometida, e as legiões atuais de nômades em suas vans, trailers e motor-homes já não esperam nem sonham com mais nada, só querem viver um dia depois do outro, perto da natureza e longe das dívidas, violências e opressões da vida urbana. É significativo que esses novos nômades morem em seus carros. Sem emprego, sem casa, sem dinheiro e sem família, o que restou foi o automóvel. É o denominador comum, o ponto zero da América.

Claro que isso é uma generalização defeituosa, mas baseada em grande parte no recorte apresentado pelo filme. A maioria dos indivíduos com quem Fern cruza em seu caminho são idosos ou de meia-idade, em geral desempregados, aposentados ou vivendo de empregos temporários, como ela própria, que trabalha de empacotadora, garçonete, balconista, zeladora de acampamento, etc.

Temas contemporâneos e urgentes, como a precarização do emprego, a ausência de um sistema público de previdência e saúde, as dificuldades de moradia e o poder opressivo dos bancos estão presentes com toda a clareza, mas não parece ser essa a única nem a principal motivação da diretora. Seu foco está nos personagens, em especial na protagonista, claro, de quem a câmera não se distancia nem por um momento.

Lacônica, prática, firme, oscilando entre a dureza e o afeto, Fern carrega em si o peso dos anos de batalha, dos sonhos desfeitos, das pedras e perdas do caminho. Seu rosto é um inventário de dores e, em menor grau, de alegrias. Difícil imaginar uma atriz mais talhada para o papel que Frances McDormand.

Em dois dos raros momentos em que se permite baixar a guarda, a personagem deixa que Shakespeare fale por ela: quando encontra uma menina que foi sua aluna e confere que ela ainda se lembra de uma fala poderosa de Macbeth (“Out, out, brief candle…”) e quando cita de cor o célebre soneto 18 (“Shall I compare thee to a summer’s day?”) para que um rapaz mochileiro o transcreva numa carta à namorada. Em ambos os casos, trata-se de reflexões sobre a brevidade da vida. Todo o esforço da protagonista é para que o que foi vivido não se perca, que seja preservado na memória. “Aquilo que é lembrado vive”, diz ela a certa altura.

Os personagens à sua volta são igualmente ricos dessa densidade de existência vivida, com destaque para a solitária Swankie (Charlene Swankie), que aos 75 anos, com uma doença terminal, recusa-se a ir a um hospital, preferindo seguir na estrada, buscando a cada dia junto à natureza momentos de plenitude como os que viveu num penhasco à beira de um lago, onde centenas de andorinhas faziam seus ninhos. A vida é bela para quem está aqui de passagem – e quem não está?

Há um certo espírito de comunidade hippie revivido por esses veteranos da estrada e reforçado pela presença de um líder, Bob Wells (personagem real fazendo seu próprio papel). Com sua longa barba branca e sua expressão carismática, Wells parece um profeta ou um guru, mas um profeta ou guru de pés no chão, sem promessas de redenção e transcendência que não sejam a fraternidade ativa e a vida de cada dia.

É significativo que, em meio a essas estradas desertas, cidades fantasmas, acampamentos empoeirados e horizontes sem fim, vejamos de repente um gigantesco galpão da Amazon, em que Fern e dezenas de outros anônimos empacotam maquinalmente milhares de produtos por dia. É como um pesadelo kafkiano que resume a alienação e desumanização do capitalismo pós-industrial de nossa época. O consumo remoto corporificado em espaço físico.

Chloé Zhao tem a aguda percepção dos espaços e de seu significado ao mesmo tempo humano e cósmico. A paisagem – seja ela um deserto, uma montanha, um labirinto de rochas calcárias ou uma falésia à beira-mar – nunca é mero pano de fundo, mas parece interagir com o estado de espírito dos personagens, falar com eles, e por tabela conosco também. Um plano sintetiza, de certa forma, a sua forma de encarar a natureza. É aquele em que Fern contempla a paisagem através do buraco de uma pedra que lhe foi dada pelo amigo Dave (David Strathairn): o mundo natural emoldurado pelo gesto humano.

Chega a ser surpreendente que essa moça tenha vindo do outro lado do planeta para redescobrir a América (suas contradições, sua história trágica e bela) e revelá-la aos próprios americanos. Mas foi isso, nem mais, nem menos, que Chloé Zhao aprontou.

*José Geraldo Couto é crítico de cinema. Autor, entre outros livros, de André Breton (Brasiliense).

Publicado originalmente no BLOG DO CINEMA

Referência


Nomadland
Estados Unidos, 2020, 108 minutos.
Direção e roteiro: Chloé Zhao.
Elenco: Frances McDormand, Patricia Grier, Gay DeForest, David Strathairn, Melissa Smith.

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • O agonizante fim do sionismodistante 22/05/2024 Por SAMUEL KILSZTAJN: O judaísmo não pode ser protegido por furiosos militares israelenses, pois tudo o que os militares fazem é semear tristeza e colher ódio
  • O bolsonarismo pode voltar ao poder?Valério Arcary 24/05/2024 Por VALERIO ARCARY: O lulismo, ou lealdade política à experiência dos governos liderados pelo PT, permitiu conquistar o apoio entre os muito pobres. Mas a esquerda, embora mantenha posições, perdeu a hegemonia sobre sua base social de massas original.
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • O legado de uma década perdidaRenato Janine Ribeiro 22/05/2024 Por RENATO JANINE RIBEIRO: A esquerda é inteiramente representativa do senso comum de nossa sociedade – tudo de bom que acontece, e tudo de ruim, é só do Presidente
  • Rio Grande do Sul – o desmantelamento do estadoAmélia Cohn 21/05/2024 Por AMÉLIA COHN: A catástrofe climática no Rio Grande do Sul não configura-se mais como uma tragédia repetida como farsa, pois não é a primeira enchente que devasta o estado e a capital gaúcha
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES