A prática do negacionismo

Carlos Zilio, DIA APÓS DIA, 1970, caneta hidrográfica sobre papel, 50x35

Por MARCELO EDUARDO BIGAL*

Anosognosia é a incapacidade de uma pessoa ter consciência de sua própria doença. O Brasil sofre de anosognosia autoimposta

Anosognosia é a incapacidade de uma pessoa ter consciência de sua própria doença. Não é a negação ou incapacidade psicológica em se aceitar uma situação, um mecanismo de defesa. É a pura falta de constatação de estar doente. Essa condição representa sequela de doença neurológica. O Brasil sofre de anosognosia autoimposta.

Enquanto escrevo ultrapassamos a marca dos 2.1 milhões de casos e 80 mil mortos. Vale a pena refletir sobre a anosognosia nacional.

Negamos o potencial destrutivo do COVID. Os 80 mil mortos, que crescem a cada dia, foram tratados como estatística. A tragédia de Brumadinho ceifou a vida de 254 brasileiros. Hoje, no entanto, quatro brumadinhos acontecem por dia. Dia após dia. Choramos a morte das 2700 pessoas quando da queda das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Duas torres gêmeas desabam por semana no Brasil. Semana após semana. Continuamos negando a doença e buscando a normalidade.

Negamos a necessidade de testagem. Em março eu gravei um vídeo alertando que, enquanto outros países igualmente atingidos pelo covid faziam cerca de 3000 testes por milhões de habitantes, o Brasil fazia 256. Hoje, com 23 mil testes por milhão de habitantes, o Brasil continua miseravelmente aquém do necessário. Estados Unidos, Rússia e Reino Unido tem cerca de 220 mil por milhão. Países como Kuwait (107 mil), Lativia (95 mil) e Cazaquistão (94 mil) escancaram o nauseante descaso vigente. Mas para que testar o que se tenta mostrar trivial? Ao negarmos a epidemia, outras negações tiveram que se suceder.

Negamos a necessidade de se usar os poucos testes com racionalidade. Em primeiro lugar, o teste que realmente interessa para o controle epidemiológico é o PCR. Ele mostra quem está contaminado no momento presente, portanto infectante. Eu defendi desde o início da crise que, enquanto os testes fossem insuficientes, deveriam ser usados para testar os indivíduos de risco, os contactantes de indivíduos sintomáticos e os contactantes de quem testou positivo. O objetivo é identificar os contaminantes, sintomáticos ou não, e colocá-los em quarentena. Epidemia é como incêndio. Ou se remove a fonte do incêndio ou o fogo não acaba. Ou identificamos os contaminantes e os colocamos de quarentena para que não contaminem outros, ou a epidemia não acaba.  O que fez o Brasil? As autoridades federais foram incapazes de normatizar a testagem, indicando quem deveria ser testado. Indivíduos abastados foram e são testados múltiplas vezes, desnecessariamente. Testes que medem os anticorpos (que mostram quem já teve a doença, não quem a tem) foram usados indiscriminadamente. Nós testamos insuficientemente e incorretamente, sem disciplina ou método. O Brasil testa três pessoas para cada contaminado, quando a recomendação internacional são trinta.

Negamos o bom senso ao continuarmos insistindo em cloroquina, ivermectina, vermífugos e afins, que foram repetidamente testados e falharam em demonstrar eficácia. Essa negação é típica do Brasil. Nem nos Estados Unidos isso persistiu. Como escrevi em artigos anteriores, o Brasil acha que descobriu a quadratura da roda, a solução que ninguém mais foi capaz de descobrir. Continuamos a nos comportar como os bobos da corte no cenário internacional. Arrotamos ignorância e o fazemos com orgulho.

Nos recusamos a entender que achatamento da curva é diferente de controle da epidemia. Achatamento indica estabilidade, que pode ser boa (poucos casos) ou ruim (muitos casos). A propósito, no Brasil a estabilidade ainda não foi atingida. Mas mesmo que tivéssemos achatado a curva, esse achatamento se dá com insustentáveis 40 mil casos e 1200 mortes diárias. Negamos ainda o fato de que estamos na primeira onda da epidemia. Não na segunda, como alguns falam. Haverá uma segunda onda da epidemia, no mundo e no Brasil. Nossa negação fará com que a segunda onda se inicie no topo da primeira. Voltando a analogia do incêndio. Em muitos países uma fogueira em cinzas ameaçará pegar fogo novamente, e esforços tentarão apagá-la. Aqui, a gasolina da segunda onda chegará em um incêndio amazônico.

Negamos o custo da imunidade de rebanho ou de barreira. Esse conceito precisa ser bem entendido. Baseia-se no fato de que se ao redor de 70% da população pegar uma determinada doença transmissível (por exemplo, o COVID), a doença diminui até extinguir-se, pelo simples fato que há uma barreira de pessoas com imunidade ao redor de cada novo contaminado. A imunidade de barreira parece ser inalcançável para o COVID, que pode gerar imunidade apenas transitória em muitos. Países muito afetados, como Espanha, não alcançaram mais que 15% de pessoas imunes. Ainda, para se atingir imunidade de barreira temos que conceder que muitas pessoas morrerão. A acreditarmos nas estatísticas oficiais, a mortalidade do COVID no Brasil é de 3.5% e temos, nas áreas mais afetadas, cerca de 10 a 13% de indivíduos com imunidade. O custo da imunidade de barreira no Brasil seria, portanto, ao menos 800 mil mortos e outros tantos com sequelas.

Nos recusamos a entender, tomando emprestadas as palavras de Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, que o novo normal é muito diferente da antiga normalidade. A flexibilização do isolamento social, a nível mundial, se baseia em três critérios: queda sustentada do número de casos, nível de isolamento social alto e taxa de ocupação das UTIs abaixo de 60%. Boa parte dos lugares que estão flexibilizando o isolamento no Brasil não atingiram nenhum dos três, ou atingiram apenas a meta da UTI. Ainda, a flexibilização não significa volta ao normal. O estado aonde resido, a Pensilvânia, evoluiu para permitir a flexibilização. O estado inteiro teve 600 casos nesse domingo. Ribeirão Preto, em SP, teve sozinha cerca de 500 na última sexta! E a flexibilização inclui uso de máscaras, incentivo para o trabalho remoto e outros. Nova York tem mantido ambientes internos de bares e restaurantes fechados. Broadway, museus, continuam fechados. O novo normal é bem diferente do que conhecíamos.

Negamos a possibilidade de que uma vacina efetiva não é garantida. E que poderá demorar anos, não apenas meses, e gerar apenas imunidade transitória, necessitando reforços. Negamos que, para garantir a imunidade, 70% da população tem que ser imunizada (a famosa imunidade de barreira). Isso significa que, a nível mundial, cerca de 5 bilhões de vacinas terão que ser manufaturadas. Ao sabotarmos a Organização Mundial de Saúde, sabotamos os nossos próprios interesses, pois essa organização defende acesso equitativo para as vacinas (países mais afetados recebem primeiro). Realmente acreditamos que um sistema produtivo que não foi capaz de distribuir luvas e máscaras a nível mundial, será capaz de distribuir 5 bilhões de doses de vacinas em um tempo razoável? Claro que não. Países mais fortes receberão primeiro, depois será distribuída para os mais vulneráveis e expostos (idosos, profissionais da saúde). Levará muito tempo para a imunidade de barreira ser atingida com vacina. Nesse ínterim, a imunidade de barreira tem que ser garantida por máscaras, que os bufões insistem em rejeitar.

Negamos a verdadeira causa do óbvio efeito econômico. A restauração de uma mínima normalidade econômica requer a diminuição da intensidade da epidemia. Os países que controlaram a epidemia podem hoje almejar uma quase normalidade econômica. O Brasil persegue situação bizarra. O negacionismo de parte considerável da população força a reabertura do comércio, sabotando algumas iniciativas estaduais bem intencionadas. A reabertura traz poucos consumidores (muitos tem medo), mas aumenta a epidemia (mais lenha na fogueira). Isolamento social tem que ser reimplementado, e os celerados ficam mais violentos e virulentos. Ao invés do “fecha até melhorar, abra-se com prudência e sustentavelmente, e exija-se suporte econômico”, ficaremos em um abre e fecha em que cada vez menos abrem, e cada vez mais fecham de vez, vitimados pela própria negação.

Poderíamos continuar a discutir a anosognosia nacional por muito tempo. Negamos o papel da eficiência e aceitamos que testes demorem semanas porque as autoridades nacionais ordenam um insumo nas não o extrator. Negamos o inferno de termos tido três mudanças ministeriais na área da saúde em plena epidemia. Negamos o ridículo de termos um general da ativa, sem nenhuma credencial para ocupar cargo de relevância na área da saúde, como ministro no momento mais aguda da saúde pública nacional. Negamos o ridículo de termos dois fanáticos religiosos em funções chaves para mitigarmos os efeitos da epidemia, a Educação e Direitos Humanos. Negamos o vexame de termos um Olavista liderando o Itamarati, e sabotando qualquer possibilidade de colaboração.

A anosognosia é uma doença neurológica. No caso do Brasil, foi autoimposta. Elegemos um ser abjeto, a representação maior de tudo o que é ruim, cruel. Da homofobia, do desrespeito, da misoginia, do racismo. E agora negamos a nossa própria responsabilidade nessa tragédia. Devemos acrescentar ao currículo invejável de nosso presidente, o de sociopata, aquele que acorda todos os dias pensando em como aumentar a dor e tragédia alheia. Mas isso é conosco. Ele não mudará. A anosognosia foi auto imposta e teremos que purgá-la. Pois, nas palavras de Saramago: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” (Ensaio sobre a Cegueira).

*Marcelo Eduardo Bigal, é médico neurologista e pesquisador, com doutorado em neurociências pela USP. Possui 320 artigos publicados em revistas científicas internacionais, e publicou cinco livros médicos. É CEO de uma companhia de biotecnologia, com sede em Boston, dedicada ao desenvolvimento médico na área de imunologia.