O adversário de Lula

Foto de Christiana Carvalho

Por RAUL GALHARDI*

Ciro Gomes pretende ocupar o espaço de Bolsonaro em uma disputa com Lula

Recentemente, a possibilidade do presidente Jair Bolsonaro não estar no segundo turno das eleições de 2022 tem circulado em artigos e matérias jornalísticas. Ao mesmo tempo, segundo os mesmos formadores de opinião, Lula já estaria garantido e restaria saber quem será o seu adversário.

Junto a essa ideia, também tem encontrado eco na mídia a noção de que Ciro Gomes pretende ocupar o espaço de Bolsonaro em uma disputa com Lula. Para alcançar esse objetivo, o ex-ministro estaria adotando uma retórica antipetista e se aproximando de partidos de centro-direita, já que não é mais possível que ele conte com o PT, que historicamente o tem preterido em pleitos, apesar do ex-governador do Ceará ter apoiado o partido em várias ocasiões.

Se analisarmos a história recente da democracia brasileira desde a redemocratização, o país sempre tem se divido nas eleições entre dois polos com pouco espaço para outras opções. Antes a divisão se dava entre PT e PSDB e agora estaríamos entre o PT e o Bolsonarismo, essa ideologia reacionária difusa que não se consubstancia em um partido.

Quem mais chegou próximo de romper a polarização, que não é necessariamente entre extremos, pois não se pode comparar o radicalismo de extrema-direita de Bolsonaro com a ideologia de esquerda moderada petista, foi Marina Silva em 2014. No entanto, a artilharia pesada da propaganda petista a tirou da disputa possibilitando o embate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Sendo assim, o que restaria para o ex-ministro é tentar ocupar o espaço do atual presidente no segundo turno atraindo parcelas da direita e esquerda “nem nem” (nem Bolsonaro, nem Lula). Essa aposta é bem arriscada porque depende de um conjunto de fatores.

Para que ela ocorra, o apoio a Bolsonaro precisa diminuir pelo menos um pouco em relação aos seus persistentes 30% que vem mantendo desde o início do governo; os principais partidos de centro-esquerda e centro-direita têm que apoiar Ciro (PSB, PSDB, DEM e PSD), sendo que a fragmentação e a deslealdade nesse campo são a regra, além do fato de que há poucas afinidades programáticas entre o PDT, Ciro e as legendas de direita; e é preciso que o chamado “Centrão” se disperse entre ele, Bolsonaro e Lula, sem pesar demais em nenhuma balança contra o ex-governador.

Além disso, é preciso combinar com os “russos”, ou seja, os eleitores. As eleições passadas mostraram que tempo de TV e rádio já não são mais tão relevantes para impulsionar uma candidatura e mesmo com o apoio de partidos importantes, o que daria a Ciro um bom tempo de propaganda nesses meios, a mensagem que ele passará para a população pode acabar parecendo ambígua, afastando tanto eleitores de direita quanto de esquerda.

Até que ponto ele estará disposto a negociar com a direita seu Projeto Nacional de Desenvolvimento, de cunho antiliberal? De todos os candidatos das eleições presidenciais passada, Ciro era aquele de perfil mais desenvolvimentista. No entanto, se for inflexível em relação a seu programa de governo, pode perder a direita. Se por outro lado flexibilizar suas posições históricas, corre o risco de perder a esquerda.

Um dos possíveis presidenciáveis que negocia com Ciro, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, já assumiu em entrevista a possibilidade de apoiar um projeto baseado no Estado forte, principalmente porque o Estado seria necessário para a reconstrução do país após Bolsonaro, mas será que todos os caciques desse campo possuem o mesmo entendimento?

Tudo indica que, assim como em 2018, a próxima eleição será de ruptura e não de continuidade. Se o antipetismo foi a marca do último pleito, o antibolsonarismo poderá ser a característica do próximo.

Pesquisas de opinião recentes mostram um crescente e gradual desgaste do governo. Porém, será que até 2022 esse desgaste será suficiente para fazer cair o tradicional apoio de cerca de um terço da população em relação à atual gestão?

Configura-se um xadrez intricado para quem deseja ocupar a terceira via.

Raul Galhardi, jornalista, é mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM-SP.