Novelas, espelho mágico da vida

Kirstin Prisk, Exibição de Conversação Moderna, 2021
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Por WELLINGTON FREIRE*

Comentário sobre o livro de Soleni Biscouto Fressato

1.

O livro de Soleni Biscouto Fressato, inscreve-se de forma corajosa e necessária no vasto, mas ainda insuficientemente explorado, campo dos estudos sobre a cultura televisiva e, mais especificamente, sobre a telenovela brasileira – esse fenômeno social, estético e simbólico que atravessa gerações, classes e territórios no Brasil, molda não apenas o imaginário coletivo, mas também as estruturas subjetivas mais íntimas.

Há, na presente obra, um gesto intelectual que não pode ser subestimado: Soleni Biscouto Fressato não se limita à abordagem descritiva ou laudatória do gênero televisivo. Pelo contrário, com o rigor de quem transita pelas grandes tradições do pensamento crítico – da Teoria Crítica frankfurtiana às teorias da sociedade do espetáculo, passando pelas contribuições da psicanálise, da sociologia da comunicação e das ciências humanas, a autora desvela as camadas profundas que sustentam a teledramaturgia como um dos principais mecanismos de mediação simbólica da vida brasileira.

O título, por si só, já anuncia a complexidade do percurso: “espelho mágico da vida” não remete ao mero reflexo passivo da realidade, mas sim à sua transfiguração, à sua duplicação estetizada, dramatizada, espetacularizada.

Este espelho – reminiscente das alegorias barrocas, dos jogos de duplicidade entre o real e o ilusório – não devolve uma imagem neutra; ao contrário, ele reorganiza o visível, embaralha fronteiras, confunde o espectador, conduzindo-o a viver, por meio da ficção, emoções e narrativas que se imiscuem na percepção do cotidiano.

Sob essa lente, Soleni Biscouto Fressato propõe algo mais radical: compreender a telenovela como um dispositivo de produção da realidade. Não se trata, portanto, apenas de um produto cultural ou de entretenimento, mas de uma arquitetura simbólica que participa ativamente da construção de imaginários sociais, afetos, aspirações e, não raro, de subjetividades capturadas pelos códigos melodramáticos e pela sedução narrativa.

A autora demonstra, com erudição e sensibilidade, que o poder das novelas reside justamente em sua capacidade de dissolver as fronteiras entre o espetáculo e a vida. No Brasil – país marcado por desigualdades estruturais, por precariedades institucionais e por uma histórica carência de acesso às narrativas legítimas de si, a telenovela ocupa o papel de mito moderno, de rito coletivo, de simulacro onde a sociedade se vê e, ao mesmo tempo, se reinventa.

Soleni Biscouto Fressato mergulha nos casos paradigmáticos com a precisão de quem compreende tanto a linguagem televisiva quanto os subterrâneos sociais que a alimentam. Ao revisitar tramas como Torre de Babel, Roque Santeiro e Velho Chico, ela expõe as contradições do gênero: de um lado, sua capacidade de tensionar temas sensíveis — violência, sexualidade, conflitos de classe, disputa agrária, crise ambiental; de outro, o frequente recuo conservador, a tendência ao conformismo narrativo, a reiteração dos valores hegemônicos disfarçados sob o véu da emoção e da catarse melodramática.

2.

O mérito do livro reside, ainda, na recusa à dicotomia simplista entre alienação e crítica. Soleni Biscouto Fressato não reduz o público a uma massa passiva, nem idealiza as novelas como trincheiras revolucionárias. Ao contrário, ela reconhece a ambiguidade constitutiva do fenômeno: as novelas, enquanto produtos da indústria cultural, operam simultaneamente como ferramentas de identificação afetiva e como engrenagens ideológicas que naturalizam as assimetrias sociais.

Nesse sentido, a autora dialoga com Guy Debord e a noção de “sociedade do espetáculo”, mas vai além, ao iluminar as especificidades brasileiras desse processo. Num país onde a televisão se constitui como principal mediadora da esfera pública e da experiência cotidiana, compreender a telenovela é desvendar não apenas um gênero narrativo, mas um modo de organização simbólica da vida social.

Importa sublinhar que Soleni Biscouto Fressato, embora ancorada em aparato teórico robusto, não perde de vista a materialidade concreta dos fenômenos que analisa. Sua escrita transita entre a densidade conceitual e a clareza interpretativa, permitindo que o leitor – seja ele acadêmico, pesquisador da cultura, ou espectador atento – acesse as complexas articulações entre dramaturgia, poder simbólico, mercado cultural e subjetividade.

Novelas, espelho mágico da vida é, portanto, mais que um estudo sobre um gênero televisivo: é uma convocação à crítica, um chamado ao pensamento que recusa o senso comum e se arrisca a compreender como, nas tramas melodramáticas que invadem os lares todas as noites, não apenas se conta uma história, mas se negocia a própria percepção do real.

Ao publicar essa obra, Soleni Biscouto Fressato entrega ao leitor um mapa rigoroso e inquietante das articulações entre mídia, espetáculo e vida social, oferecendo uma chave de leitura indispensável para decifrar o enigma da cultura televisiva no Brasil – um enigma no qual, como num espelho mágico, o que se reflete não é apenas o outro, mas nós mesmos, em nossa vulnerabilidade, em nossas ilusões e em nossos desejos de pertencimento e transformação.

Que este livro contribua, assim, para o amadurecimento do olhar crítico, para o refinamento da escuta estética e para a compreensão profunda dos mecanismos, por vezes sutis, por vezes brutais, através dos quais a ficção se infiltra na vida e a vida se deixa capturar pela ficção.

*Wellington Freire é doutor em Literatura e Cultura pela UFBA.

Referência


Soleni Biscouto Fressato. Novelas, espelho mágico da vida. Quando a realidade se confunde com o espetáculo. São Paulo, Editora Perspectiva, 2024, 208 págs. [https://amzn.to/46vY0IH]


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