Convicção religiosa – libertação ou domesticação?

Imagem: Rodolfo Clix
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Por GERALDO OLIVEIRA*

A instrumentalização da espiritualidade para interesses políticos e econômicos

Em múltiplos estudos sobre o homem e suas crenças religiosas, os estudiosos desse fenômeno são unânimes em afirmar que essa busca do sagrado é inerente ao ser humano. Ainda que deveras na sociedade atual há uma negação ou busca de outros subterfúgios, ainda assim, o homem nesses elementos referenciados – a busca do sagrado –, procura encontrar, mais do que um Deus onde possa depositar e entregar toda sua existência, também se direciona a um sentido radical para a sua existência, principalmente, diante de situações inesperadas, como infortúnios, ou fenômenos onde a razão e nem a ciência não encontram resposta plausível ou que ao menos o acalenta, como a questão do sofrimento e da morte.

Sem a presença da religião, como fator de justificação de sentido, a vida para muitos pode parecer um trilhar na existência terrena, como se fosse um direcionamento inexorável e descabido para um fim trágico, aterrorizante e catastrófico.

A respeito do fenômeno do religioso, o antropólogo Roberto DaMatta (1999) ressalta que a religião se alia a vida humana em todos os instantes, e inclusive, marca e define periodicidade, carregado de significação, desde antes do seu nascimento, como no decorrer da sua existência, com suas festas e rememorações, e até no último suspiro da vida. Para isso, sabiamente, ele a conceitua a partir de sua origem latina, como um laço, pacto, contrato ou relação que norteia os elos entre os homens e seus deuses, e também dos homens entre si. E ainda acrescenta, que a religião é uma forma de ordenar o mundo, particularmente pela ideia de tempo e eternidade.

Do mesmo modo, em Formas elementares da vida religiosa, Émile Durkheim (1989) – obra na qual parte das crenças mais simples, como as tribais e as mais complexas, principalmente essas afinadas com a racionalidade, e que sofreram mutações no decorrer do tempo –, busca encontrar algo comum, geral e fundamental na mentalidade religiosa do homem. Sem o intento de discorrer sobre a crença, conforme o estudo do autor supracitado, é interessante fazer duas ponderações interessantes. Segundo ele, não existe religião falsa. Apesar de serem diferentes, nas suas formas rituais e nos seus diferentes elementos que as agregam, todas indistintamente, intencionam responder as necessidades da existência humana.

O segundo aspecto, é o seu caráter eminentemente social, por que elas provêm da sociedade, e por esse lastro social exprime a representação coletiva. E quanto a seus ritos, ele destaca, que seu significado seria de garantir o acesso ao sagrado e de reproduzir seus valores. Na base do culto e das crenças, o autor aponta que existe um sistema de atitudes e rituais, que são elementos que constituem o que há de humano e de eterno na religião.

Ademais, ponderamos que para além das religiões institucionalizadas, criadas ou produzidas socialmente, existe o indivíduo que diante das intemperes da vida ou até de uma resposta mais aguda e radical para a sua existência, se posiciona e busca conectar com o absoluto. Diríamos, portanto, que a crença em algo absoluto, não se remete exclusivamente aos objetos exteriores como ritos, objetos, danças, indumentárias e nem em doutrinas e discursos filosóficos bem elaborados – apesar de servir de mediação – mas da decisão pessoal do indivíduo, que diante das forças contrarias ou opostas, que marca a sua existência, ainda afirma: apesar dos pesares, eu creio.

Em suas reflexões, a teóloga Maria Clara Bingemer (2013) ressalta que crer é a certeza de que mesmo diante dos infortúnios e das adversidades, ou que algo possa acontecer, não afundaremos num poço sem fundo, porque temos a confiança que somos protegidos e sustentado. E ainda pontua, que o ato de crer é contar com uma certeza não demonstrável, de que o mundo e a vida possuem um sentido e uma finalidade, ainda que pareça complicado.

No entanto, ainda que o discurso tenha a sua relevância, porque necessitamos de razões para o que cremos, parece que o cansaço e o extremismo da razão no campo da religião, levou o homem não somente a não indagar sobre tais questões, como transformar a religião em pontes para soluções fáceis e infantilizadas para os problemas da vida, especialmente entre alguns grupos e certas instituições religiosas. Melhor dizendo, o homem embaralhou a busca do sentido último da vida, com o ímpeto do discurso da prosperidade, da confiança num Deus milagreiro ou de uma espécie de panaceia para a solução dos todos os males, tanto físicos, sociais e políticos.

A despeito disso, num diálogo informal, com um estudioso do fenômeno religioso, ele pontuou, que se no passado o homem procurava entender Deus na sua história, como o povo hebreu, ou então os gregos que procuravam saber quem é deus, ao refletir sobre a sua essência. Hoje a preocupação, é o que ele pode fazer por mim, por minha igreja ou pelo meu grupo. Deus tornou-se aquele ser que serve para atender os meus apelos e interesses múltiplos.

“(…) no período anterior ao nosso, buscou- se compreender o que Deus age – sua ação em favor de seu povo: escolha de um povo e envolvimento com esse povo. Sob influência grega, procurou- se saber “quem” é Deus. Ele é o pantocrator (todo poderoso), Logos Universal, Sumo Bem, Fundamento, transcendente, Incognoscível (teologia negativa medieval […] em certa medida, tornou-se aquele que deve atender às minhas expectativas, aos meus interesses. Só assim ele é Deus de fato. Uma reflexão histórico-crítica sobre Deus não me interessa. Só vale o Deus que atende aos meus interesses imediatos. (Zé Antônio, ex-padre)

Algumas crenças de tradição cristã, ou que nelas mesclam elementos provenientes do cristianismo, desviaram o foco do núcleo central da pregação, quando arrefeceram o discurso, deixando de enfatizar o ponto fulcral da doutrina – amor incondicional ao outro, agapé; ou então, quanto não insiste no combate as injustiças, a fome, a crítica social, e sobretudo o sistema capitalista selvagem, onde se jogam as pessoas nas condições sub-humanas e as transformam em meios de acumulação de bens.

O mais crucial, é a minimização do discurso, tão próprio e enfático do cristianismo, que coloca o homem como ser portador de sacralidade, e que sua existência, direciona para um Deus fonte e centro de todas as virtualidades, para se orientar-se num discurso em que ressalta que Deus é um ser que deve estar aberto para atender os meus interesses, os mais inconsequentes e pueril, sendo que muitos deles, dependem mais da ação humana, e das lutas políticas.

Numa outra perspectiva, seria muito mais louvável, a partir da concepção da sacralidade do homem, pudesse impulsionar todas as energias para o empoderamento do homem, desconstruindo os múltiplos preconceitos como o racismo, o respeito aos movimentos LGBTQIA+, as lutas contra o feminicídio, as desigualdades sociais, a insegurança alimentar que afeta mais da metade da população brasileira, e as lutas sem trégua por uma moradia adequada e digna, e de uma educação que seja propiciadora de valores e que abra horizontes para um mundo melhor e mais humano.

E não um discurso religioso, que enfatiza um Deus individual e menos comunitário, que se busca na base da permuta, na rivalidade com as forças demoníacas, num discurso contra ciência e na crença que os infortúnios que atormenta o homem – males físicos, psíquicos e sociais –, supondo acreditar que advém muito mais da inexistência da fé, do que de uma questão política, como apregoa os defensores da teologia da prosperidade.

A consequência desses discursos, é que apesar de projetar um Deus em que a sua existência se resume em atender ou executar os meus desejos mais prementes, demonstra de modo quase que factível o desconhecimento dos fatores geradores das mazelas sociais, como a pobreza, miséria, fome e outros, e que hoje são destacados e colocados à luz do dia diante de inúmeras pesquisas e de estudos no campo das ciências, principalmente as sociais.

Contrariando a ciência, esses profissionais da fé, se assim podemos classificá-los, procuram incutir nas mentes e nos corações dos seus seguidores – maioria, pobres, pretos e de baixa escolaridade – de que os infortúnios que os massacram principalmente no campo social, não derivam de ausência de políticas públicas, e sim de vida pecaminosa, da ausência de uma conversão verdadeira, e o que é mais cruel, é fazê-los acreditar que isso seja única e última verdade.

Além disso, sem querer imiscui-se nessa ceara do discurso religioso, a compreensão do mundo dividido em duas forças antagônicas – bem e o mal, ou Deus e as forças demoníacas –, além de deixar o homem atormentado, inseguro, tal como no período medieval; limita- o, e o torna incapaz de desfrutar das belezas e das gratuidades da vida; e ainda como decorrência, impossibilita de abrir as novas explicações e interpretações do mundo.

O mais atroz nessa percepção, é que parece que o sujeito envolvido nesse discurso único e totalizante, se veste de uma armadura, e se outro não sintoniza com o seu ponto de vista, e não partilha da mesma visão de mundo, logo é considerado mundano, anátema, e infelizmente rechaçado, lógico com as devidas proporções. Talvez segundo alguns estudiosos do assunto, estaria aí a explicação para as dificuldades de convivências com a diversidade – não única explicação –, com as crenças e as tradições africanas, as liturgias e as formas históricas e aculturadas do catolicismo e suas manifestações populares, e as caraterísticas peculiares do outro de ver e referenciar o mundo.

Nessas reflexões duas ideias suscitam: desconhecimento dos valores de suas crenças, ou então, a inexistência de um estudo sério acurado, daquilo que pregam ou ensinam. Se for a segunda alternativa ou ambas, incorre-se numa desarticulação com as exigências e demandas do mundo moderno. Se o mundo do trabalho e empresarial cada vez mais se impõe a exigência da competência, da formação continua, abertura ao diálogo, convivência com a pluralidade, antenar com as novidades e demandas de uma sociedade em constante modificação, por que não os anunciadores das crenças?

Ademais, se esses grupos religiosos tivessem uma formação critica acurada, tanto do que ensinam como dos problemas sociais, e se tivessem o conhecimento das soluções despertadas pelas ciências, talvez não embarcariam num projeto político de morte, tal qual defendido pelo governo passado. Dentre as propostas desse governo de triste memória, estava a defesa do capitalismo na sua versão neoliberal, que tem entre seus princípios, a diminuição do Estado, oposição as políticas públicas, o estimulo a meritocracia e outros.

Segundo alguns teóricos do cristianismo, aqui ressalto a pessoa de Frei Betto (1986), é que há de fato um antagonismo entre capitalismo e cristianismo. O primeiro para tornar-se suscetível implica em aflorar do seu DNA elementos completamente antagônicos as propostas do cristianismo, que é o estimulo a competição, a exploração do homem sobre o homem, concentração de renda, individualismo exacerbado etc.

Afora isso, os profissionais do sagrado, que lidam com a espiritualidade humana que segundo ressalta Ladislau Dowbor (2022) não se restringe as crenças, aliás as transcendem, não podem instrumentalizar a espiritualidade para interesses políticos e econômicos, como a famigerada frase dos candidatos a ditadores, “Deus, pátria e família” ou para justificar interesses pessoais e de grupos, ou ainda para se arvorar como representantes das divindades, por que assim, esvazia o que ela traz de mais genuíno, que é o ideal de pertencimento, de criação de identidade, de formação de laços e de coesão.

Pelo exposto, o futuro no que tange aos direitos do homem e a superação das diferentes formas de discriminação e arbitrariedades, só se tornará viável se interligar com a educação, e com as múltiplas crenças que permeiam a realidade social do país. Por que as crenças? Porque conforme dito, elas além de buscar respostas para os mistérios da vida que tangem ao homem, também busca sintonizá-lo com o grande mistério, ou como dizemos o totalmente outro.

Sendo assim, em lugar de estar a serviço de poder ou de instrumentalizar o homem para atender interesses pessoais e de grupos, ou de pregar soluções baratas, como enriquecimento fácil, ou negação da ciência, colocar-se-á a sua tradição, conhecimentos e valores a serviço do homem, visando o seu crescimento integral, na liberdade e sem a ditadura do pensamento. Quiçá poderá se aproximar da compreensão e da percepção do sagrado.

*Geraldo Oliveira é mestre em ciências sociais pela PUC-Minas.

Referências


BETTO, Frei. Cristianismo e marxismo. Petrópolis: Vozes, 1986.

BINGEMER, Maria Clara. O mistério e o mundo: paixão por Deus em tempos de descrença. Rio de Janeiro. Rocco. 2013.

DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil?  Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

DOWBOR, Ladislau. “O mundo das crenças: há espaço para todos”. In: A Terra é Redonda. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/o-mundo-das-crencas-ha-espaco-para-todos/

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo, Martins Fontes, 1996.


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