Por VICENTE LOEBLEIN HEINEN*
O pleno emprego é uma ilusão estatística que esconde a verdadeira ferramenta do capital: um vasto exército de reserva que mantém os salários baixos e o poder de barganha dos trabalhadores sob controle
A taxa de desemprego de 5,6%, divulgada pelo IBGE na última terça-feira (30/09), representou um recorde histórico para o Brasil. Esse índice foi o menor da série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012, e não era observado no país desde o final da década de 1980.[1] A notícia repercutiu com destaque na imprensa e levantou novamente o debate sobre se o país estaria ou não em uma situação de pleno emprego.
À Folha de S. Paulo, um economista do mercado financeiro, Sergio Vale, sustentou que o Brasil estaria em pleno emprego, pois a taxa de desocupação estaria abaixo da “NAIRU”, estimada por ele em 8%. Esse resultado indicaria um “mercado de trabalho aquecido, com reflexos na inflação devido a fatores como escassez de mão de obra e aumento de salários”.[2]
O termo NAIRU é usado para referir-se à “Taxa de desemprego que não acelera a inflação” (do inglês Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment). O conceito, hegemônico na macroeconomia contemporânea, parte de uma releitura da “taxa natural de desemprego” proposta por Milton Friedman e Edmund Phelps no fim dos anos 1960. Segundo essa teoria, haveria um nível de desemprego inevitável, determinado por fatores estruturais do mercado de trabalho, abaixo do qual qualquer expansão da demanda resultaria apenas em inflação.
Esse nível seria compatível com uma situação em que o desemprego é essencialmente friccional ou voluntário: todos aqueles que estão desempregados o fazem pois estão mudando de ocupação ou porque preferem usar seu tempo livre para lazer do que assumir um emprego que lhe pague um salário compatível com a sua produtividade.
Além da inflação, a suposta “escassez de mão de obra” também é apontada como um fator de risco ao crescimento econômico, ameaçando “travar bilhões em investimentos”[3]. Segundo levantamento da CNI, no 2º trimestre de 2025, “23,3% da Indústria apontou a falta ou alto custo dos trabalhadores qualificados como um dos principais problemas para o avanço da produção, percentual que era de 18,6% um ano antes”.[4]
Há escassez de mão de obra?
A fonte oficial para a taxa de desemprego no Brasil é a PNAD Contínua, realizada pelo IBGE. Nessa pesquisa, é considerada desempregada a pessoa que: (i) não trabalhou sequer por uma hora na semana; (ii) tomou providências para conseguir trabalho no último mês; e (iii) estaria disponível para assumir uma vaga, caso encontrasse.
Há pelo menos quatro fatores que tornam esse indicador uma medida bastante parcial para mensurar a quantidade de mão de obra efetivamente disponível para as empresas: (i) Busca ativa por trabalho: nem todos os trabalhadores que poderiam ser empregados estão efetivamente pedindo emprego ou se candidatando a vagas todos os meses. Geralmente esse período de busca ativa, em condição de não-trabalho, tende a ser curto, seja pelos custos envolvidos, pelo descrédito em encontrar alguma vaga ou pela necessidade de trabalhar por conta própria para obter renda.
(ii) Subocupação: a medida oficial de desemprego não incorpora o grau em que os trabalhadores estão efetivamente disponíveis. São considerados ocupados tanto um empregado em escala 6×1, que não teria como trabalhar mais, quanto alguém que estava procurando emprego, mas conseguiu um bico de duas horas na última semana, por exemplo; (iii) não-ocupação: o IBGE não possui uma categoria que indique se as pessoas que trabalham em atividades não-empresariais aceitariam ser empregados, ou mesmo se segue procurando outro trabalho.
(iv) Aptidão ao assalariamento: como a PNADC é autodeclaratória, é possível que determinado grupo de pessoas responda estar apta a trabalhar, porém, na prática, não reúna as condições mínimas necessárias para executar regularmente as tarefas de um posto de trabalho elementar.
Pois bem, e como mensurar a escassez de força de trabalho para as empresas? Para responder a essa questão, o primeiro passo é precisar o objeto no qual estamos interessados, isto é, a relação entre desemprego e produção capitalista.
Um dos primeiros autores a sistematizar essa questão foi Karl Marx, precisamente fazendo uma crítica à noção de que o mercado tenderia a “equilibrar” a oferta e a demanda por trabalho. Na sua perspectiva, o mercado da força de trabalho se forma a partir de uma desigualdade fundamental: a posse dos meios de produção.
Ao monopolizá-los, o capital controla tanto a oferta, quanto a demanda por trabalho, garantindo que sempre haja uma massa de trabalhadores excedentes às necessidades da acumulação, muitos dos quais jamais serão diretamente empregados em atividades produtivas. Essa massa de trabalhadores excedentes consiste no que Marx chamou de “exército industrial de reserva” ou “superpopulação relativa”.[5]
A concepção do exército de reserva diverge radicalmente do conceito tradicional desemprego, uma vez que um trabalhador pode estar apto a ser empregado por uma empresa capitalista mesmo que não esteja ativamente buscando trabalho; que esteja ocupado em alguma atividade de subsistência (como a produção agrícola não-mercantil, serviços prestados diretamente ao consumidor ou empregos intermitentes); ou que ainda não possua algum tipo de treinamento específico.
Em prazos mais ou menos curtos, o capital possui plenas condições de acessar esses trabalhadores, que, por não terem alternativas melhores, se colocarão à sua disposição assim que o assalariamento se tornar uma possibilidade.
A força de trabalho disponível para as empresas
Embora o conceito de desemprego utilizado pela PNAD Contínua não seja uma boa medida para a oferta excedente de trabalho, seus dados são uma fonte riquíssima para mensurá-la. A partir deles, é possível reunir variáveis que sintetizam o tipo de inserção no mercado de trabalho, o grau de autonomia em relação ao trabalho assalariado e a disponibilidade para assumir um emprego em condições normais, de modo a obter uma proxy para o tamanho do exército de reserva no Brasil.[6]
Os indicadores obtidos dessa maneira sugerem que o exército de reserva brasileiro seja atualmente composto por quase 44 milhões de pessoas, o que corresponde a aproximadamente 40% da força de trabalho potencial (exército de reserva + trabalhadores plenamente empregados + autônomos sem dependência salarial).
Gráfico 1 – Estimativas do exército de reserva no Brasil (milhões de pessoas, 2º trimestre de cada ano)

Esses indicadores apresentam tendências semelhantes às estatísticas oficiais de desemprego, porém divergem enormemente em tamanho e volatilidade. Em termos absolutos, estima-se que o exército de reserva seja 6 vezes maior que a população oficialmente desocupada no 2º trimestre de 2025 (6,3 milhões). A variação desse indicador também se dá em ritmo mais lento. No atual ciclo expansivo, entre 2022 e 2025, o exército de reserva encolheu 21%, contra 57% da população desocupada.
Essa diferença reflete a existência de uma grande massa de trabalhadores que permanece no exército de reserva, mesmo diante do aumento do emprego. Em caso de prosseguimento do ciclo expansivo, a tendência é que se repita o processo ocorrido no início da década de 2010, quando a redução do desemprego aberto fez o capital intensificar a contratação de trabalhadores por conta própria precarizados, empregados parciais e outras ocupações que compõem o exército de reserva.
A maioria desses trabalhadores está imediatamente disponível ao capital, uma vez que já se encontra no mercado de trabalho, porém sujeitos a condições de vida muito piores que as dos assalariados. De acordo com dados da PNAD Contínua, grande parte do exército de reserva sobrevive sem rendimentos fixos e 72% dos que auferem alguma renda do trabalho recebem menos que o salário médio de admissão do setor privado.
Esses dados são corroborados por um levantamento feito pelo IBRE/FGV, segundo o qual cerca de 70% dos trabalhadores por conta própria no Brasil prefeririam estar empregados do que trabalhando em sua ocupação atual.[7]
A questão fundamental não é a falta de trabalhadores disponíveis, mas a influência que o tamanho do exército de reserva exerce sobre o seu poder de barganha. Quanto maior a massa de trabalhadores desesperados por conseguir um emprego que lhe pague o salário mínimo, tanto maior sua propensão a aceitar salários baixos, condições de trabalho precárias e jornadas desgastantes, como as da escala 6×1.
Não é por outro motivo, diga-se de passagem, que apenas a metade dos trabalhadores brasileiros não temem perder seu emprego ou sua principal fonte de renda nos próximos 6 meses.[8]
Ao alertar para os riscos da “escassez de mão de obra”, a classe dominante está preocupada, como sempre, com seus lucros. A inflação apenas reflete esse conflito distributivo, sendo uma forma que os capitalistas possuem para tentar preservar sua rentabilidade diante do aumento do poder de barganha dos trabalhadores.[9] A definição de quem ganha e quem perde nessa conjuntura é mais um produto da luta de classes. E o capital têm consciência que o desemprego é um de seus maiores aliados nesse embate.
*Vicente Loeblein Heinen é mestrando em Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).
Notas
[1] De acordo com a reconstrução da série histórica da PNADC feita por Bacciotti e Marçal, a última vez que a taxa de desemprego nacional havia atingido um patamar inferior aos 6% havia sido em 1990.
[2] Folha de S. Paulo. Mercado de trabalho bate recordes, mas IBGE evita falar em pleno emprego. 2025.
[3] Gazeta do Povo. Falta gente qualificada no país, e isso está travando bilhões em investimentos. 2025.
[4] CNI. Informe Conjuntural 2º trimestre de 2025, 2025.
[5] Marx. O Capital, Livro I, capítulo XXV.
[6] Para mais detalhes, ver Heinen. Mensuração do exército industrial de reserva no Brasil: Uma proposta a partir dos microdados da PNAD Contínua. 2024.
[7] IBRE/FGV. Maioria dos trabalhadores por conta própria gostaria de estar empregada em empresas, aponta nova sondagem do FGV IBRE. 2022.
[8] IBRE/FGV. Indicadores de mercado de trabalho: chance de perder emprego ou fonte de renda. 2025.
[9] Pinkusfeld. Conflito distributivo e inflação. 2010.
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