Os trotskistas e o liberalismo

Imagem: Lara Mantoanelli
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Por VALERIO ARCARY*

Os liberais adoram uma anedota maldosa que afirma que quem não foi socialista aos vinte anos não tem coração, e que quem permanece socialista depois dos trinta não tem juízo

“Brigam dois se um quer. A vaidade é faladora; o orgulho silencioso” (Sabedoria popular portuguesa).

Na entrevista de Reinaldo Azevedo com Lula existiram passagens de bom humor, como a intriga de Lula sobre a rivalidade entre Fernando Henrique e José Serra, ou a falta de credibilidade de Paulo Guedes e o futebol de salão de sexta à noite. Mas, também, um momento malicioso do entrevistador sobre os trotskistas e o liberalismo.

Lula riu, mas não escorregou na casca de banana somente para agradar o entrevistador, e “noblesse oblige” foi cuidadoso e honesto, e até defendeu que os trotskistas, com quem manteve muitas diferenças ao longo de décadas, são “bons de política”.

Os liberais adoram uma anedota maldosa que afirma que quem não foi socialista aos vinte anos não tem coração, e que quem permanece socialista depois dos trinta não tem juízo. Ela é dirigida contra toda a esquerda. Não é incomum que alguns militantes e, eventualmente, até lideranças de esquerda se “arrependam” de suas posições na juventude, e girem para a direita. Tampouco é surpreendente que sejam recompensados por isso.

Mas não é verdade que este fenômeno seja mais comum entre os trotskistas, quando em comparação com outras correntes na esquerda, em especial, os estalinistas. Ao contrário, quando as mentes não estão envenenadas por preconceitos ideológicos, os trotskistas são, amplamente, reconhecidos, mesmo pelos seus inimigos, como militantes de grande abnegação, despojamento pessoal e integridade moral.

Acontece que o trotskismo, em escala internacional, embora tenha permanecido uma corrente, politicamente, minoritária, atraiu para suas fileiras personalidades de talento que conquistaram visibilidade em suas carreiras profissionais, e tiveram destinos erráticos, ou até cruzaram a fronteira de classe.

No Brasil e no mundo, o movimento trotskista é muito fragmentado em correntes que rivalizam entre si. A Quarta Internacional não sobrevivou intacta às terríveis pressões que sofreu. Sofreu as sequelas impostas pela marginalidade política e social. Mas, se considerarmos os últimos quarenta anos em perspectiva histórica, sem diminuir a importância dos muitos erros, o balanço político dos trotskistas, quando comparado com o núcleo duro dos que vieram do estalinismo, é invejável.

Entre 1977/1984, por exemplo, duas grandes orientações estratégicas dividiam a esquerda. A imensa maioria das tendências que vinham da tradição do PCB defendia o apoio ao MDB e faziam uma aposta na tática da Frente Ampla, aceitando a hegemonia da ala liberal liderada por Ulysses Guimarães, Franco Montoro e Tancredo Neves.

Os trotskistas defendiam a perspectiva que a ditadura deveria ser derrubada pela mobilização de massas, sem ilusões na abertura lenta, gradual e segura, e qualquer confiança no MDB, e fizeram uma aposta na independência política de classe, portanto, na fundação do PT e da CUT. Isso não os impediu de defender a unidade na ação quando, finalmente, o MDB e Brizola se uniram á campanha pelas Diretas Já, depois que o PT organizou em São Paulo o comício de novembro de 1983 no Pacaembu.

Entre 1984/1989, novamente, duas linhas dividiam a esquerda. Os partidos comunistas declararam apoio à eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral e, portanto, à transição pelo alto e a defesa da Nova República. Os trotskistas no PT defenderam o boicote ao Colégio Eleitoral, e a construção de uma firme oposição ao governo Sarney.

Em 1992, o dilema era derrubar Collor ou aguardar o calendário eleitoral em 1994. Os trotskistas estiveram na primeira trincheira da campanha do Fora Collor. A maioria do velho “Partidão”, não alguns intelectuais em voo solo, já tinha renunciado ao marxismo e até fundado um partido que evoluiu, ininterruptamente, para um liberalismo-democrático satélite do PSDB.

Entre 1995/2002, depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso na esteira do plano real, outra vez, duas orientações fraturaram a esquerda. O “melhorismo” defendia a redução de danos, por exemplo, a negociação “propositiva” da reforma da previdência, e o “quietismo”, ou aguardar as próximas eleições.

Os trotskistas estiveram na primeira linha da defesa da greve dos petroleiros de 1995, empenharam-se para preservar a CUT como uma Central de oposição inconciliável ao governo, e defendiam a preparação de uma campanha pelo Fora FHC. Aonde estiveram a maioria dos estalinistas?

Entre 2002/2013, quando pela primeira vez a esquerda brasileira chegou ao governo, os trotskistas se dividiram, dramaticamente, entre o apoio e a oposição de esquerda. Mas se engajaram como sempre nas lutas da juventude e dos trabalhadores, defendendo que os governos Lula e Dilma deveriam romper com a burguesia na luta por reformas estruturais anticapitalistas. Alguns o fizeram por dentro dos governos, outros por dentro do PT, e outros por fora do PT. A imensa maioria dos estalinistas se acomodou, confortavelmente, em cargos. Eram irreconhecíveis.

Entre 2013/2014 a esquerda se fraturou entre o apoio e disputa das jornadas de junho, e aqueles que foram incapazes de compreender o impulso da nova geração que saiu ás ruas e, desde o início, enxergaram somente um perigo conservador. Os trotskistas estavam nas ruas e nas lutas.

Entre 2015/2021, diante da avassaladora ofensiva reacionária, que passou pelas manifestações de milhões em apoio ao golpe institucional contra o governo Dilma Rousseff, a posse de Temer, a condenação e prisão de Lula, a imensa maioria dos trotskistas, inclusive daqueles que se posicionaram em oposição de esquerda aos governos de coalizão dirigidos pelo PT, não vacilaram na denúncia do perigo que a eleição de Bolsonaro representava.

Desde 2018, os trotskistas se engajaram na resistência com a linha da Frente Única de Esquerda contra a maioria dos estalinistas que, ou desconsideraram o perigo neofascista, ou concluíram, apressadamente, que tinha ocorrido uma derrota histórica, e depois capitularam á linha da Frente Ampla, aceitando a legitimidade da liderança liberal na oposição ao governo de extrema-direita.

Honestidade intelectual é importante. Ela é o cimento da força moral. Os trotskistas brasileiros cometeram muitos e variados erros políticos e, também, por isso, estão fragmentados. Todas as correntes inspiradas na tradição de Leon Trotsky são ainda minoritárias e imperfeitas. Sua história revela sua fragilidade.

Mas há, também, grandeza.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

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