Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES*
Considerações sobre o livro de Walter Scott
1.
O coração de Mid-Lothian está construído a partir de uma oposição entre os pares Jeanie/Ruben e Effie/Stauton. Jeanie é a filha de um presbiteriano fanático que consegue arrefecer as crenças de seu pai ao ponto do bom senso sem perder o rigor moral que lhe caracteriza, assim como Ruben, seu namoradinho de adolescência e futuro marido, sabe dialogar com o velho Deans reconhecendo suas virtudes religiosas sem ceder à sua intransigência. Sua paixão é sexualmente controlada, o que permite esperar o melhor momento financeiro e moral para consumar a união.
Effie, irmã de Jeanie, é uma jovem moça de beleza incomum que é seduzida pelo jovem Stauton e que com ele inicia um relacionamento de descontrole passional e sexual, o que resulta numa gravidez fora do casamento e na perda pouco explicada de seu filho recém-nascido, o que leva à sua prisão e condenação por suposto infanticídio.
Jeanie, diante da oportunidade de mentir no julgamento e salvar a vida da irmã inocente, mantém-se fiel a suas crenças religiosas e não mente, o que resulta na condenação de Effie e na subsequente viagem de Jeanie para Londres, onde espera conseguir um perdão real para a irmã. Ela é bem-sucedida na tarefa, mas Effie, mantendo um padrão de comportamento marcado pelo descontrole juvenil, foge mais uma vez com Stauton.
De um lado, portanto, o bom comportamento dos fiéis a Deus no limite do bom senso, recompensados ao final com uma vida idílica e próspera, mas, de outro, o castigo dos que se entregam à desmesura patológica das paixões não socialmente autorizadas.
Visto de perto, o romance é bem mais complexo. No início, Stauton é um bandido do grupo de Wilson, que, num roubo malsucedido, acaba condenado à morte na forca junto de seu amigo Robertson (o nome de Stauton no começo da narrativa). Wilson opera um milagre de força e bravura para possibilitar o escape de Robertson/Stauton na manhã anterior ao enforcamento e é, no dia seguinte, enforcado, num tumulto que leva o comandante da guarda, Porteous, a desferir tiros contra a população local. Porteous é julgado e condenado à morte, o que a população da cidade espera ansiosa, dada a impopularidade de sua ação, mas é salvo no dia do enforcamento por uma postergação da pena pelo poder real.
Aparentemente, Porteous será salvo pelos serviços prestados ao poder estabelecido, mas, naquela noite, um motim popular, liderado pelo mesmo Robertson/Stauton, executa a pena ilegalmente e enforca Porteous. O motim, aprenderemos na continuação da narrativa, tem na verdade dois objetivos: vingar a morte de Wilson e o salvamento de Porteous, mas também, para seu organizador Robertson/Stauton, libertar da prisão sua jovem namorada Effie, então presa pela suspeita de ter assassinado o próprio filho.
história e trajetórias individuais estão bem entrelaçadas, de modo que uma ação com um particular significado individual tem outro escopo como ação pública. Robertson, individualmente, quer livrar a namoradinha do xilindró, mas, ao ser apresentado como ação social pelo romance, com consequências públicas, o ato deixa de ter o significado que tinha em sua ideação para assumir feição social diversa.
2.
Nesta sua primeira aparição – quando o leitor não sabe se tratar ainda de um nobre inglês, mas simplesmente de um criminoso aliado a Wilson – quem é Stauton/Robertson, a força disruptiva que leva à perdição? É um contrabandista, aliado a Wilson num roubo que tem como objetivo reaver da coroa o que se entende como uma riqueza usurpada: “O contrabando era quase universal na Escócia nos reinos de Jorge I e II, porque o povo, desacostumado a impostos, e os considerando uma agressão injusta sobe suas antigas liberdades, não poupou esforços para escapar deles sempre que era possível”.[i]
O sentimento do próprio Wilson, embora absurdo, coloca bem a situação política nacional em questão: “Ele se considerava roubado e saqueado, e colocou na cabeça que tinha o direito de fazer represálias assim que encontrasse oportunidade. (…) Wilson não sentiu nenhum escrúpulo de consciência na resolução de se reembolsar pelas perdas às expensas do Coletor e da receita. Ele se associou com um tal Robertson, e dois outros jovens inúteis, que, tendo se ocupado do mesmo comércio ilícito, ele persuadiu a ver a transação na mesma luz justificável em que ele próprio a considerava”.[ii]
Robertson e Wilson são, portanto, dois contrabandistas que se consideram injustiçados pelas atividades de fiscalização da Coroa e resolvem agir. Sua ação não tem sentido social amplo, mas está subjetivamente justificada pela situação social de dominação. Uma concepção popular de justiça, que também aparece no motim, se contrapõe à visão moderna e abstrata do sistema tributário, conectada a primeira com reivindicações nacionais de profundo apelo popular.
O caráter popular de Robertson está dado desde o início e, a bem da verdade, em suas ações públicas, no começo do romance, apesar do caráter algo Robin Hood da atividade de contrabandista que pretende roubar o Estado para reaver seu dinheiro usurpado pelo fisco, seu caráter não está marcado pelo descontrole patológico que encontrará quando a questão for sua vida privada.
Aqui uma primeira cisão do personagem: publicamente, é figurado a partir do bom senso cabível a um contrabandista, apesar das trapalhadas, mas, no âmbito privado, logo que se encontra com Ruben e, depois com Jeanie, passa a ser figurado como um demônio que deve ser temido, o criminoso que desfaz famílias pela sedução de mocinhas indefesas e desmioladas. O método de Walter Scott tem muito que ver com o efeito: seu personagem não aparece inteiro de uma vez, mas vai se construindo pelas interações com os outros.
Quem o transforma no demônio não é um narrador que adere à sua figuração negativa, mas o olhar de Jeanie e Ruben, construído pelas superstições populares. Sua feição de Robin Hood desastrado é moldada pelos efeitos de sua ação no conjunto dos habitantes da cidade. Camada sobre camada, ele vai sendo as duas coisas ao mesmo tempo, força contra o poder estabelecido em nome da justiça popular e demônio que ronda os bons pelas estradas.
3.
Visto ainda de outro ângulo, sua relação com Effie é a realização de um amor burguês proibido que rompe com noções tradicionais de castidade e barreiras sociais. Nesse primeiro momento, a filha de um pastor de vacas socialmente estabelecido e um outlaw, mas, logo depois, um nobre inglês enriquecido, o que confirma o amor patológico como força de transformação social. Os dois são a força progressista do romance, que será castigada ao final em nome da organização social saudável baseada na lei, na fé e na propriedade justa dos bons senhores.
O conservadorismo de Walter Scott opera pela necessidade de uma “regeneração”[iii] da nação, que a expurgue dos elementos destrutivos – na verdade, a defesa de suas “antigas liberdades” – em nome de uma modernização subjugada à união com os ingleses que deverão se comportar de maneira justa para com os bons escoceses, castigando os maus. É um conservadorismo mitigado, sem pretensões de manutenção das velhas estruturas sociais típicas de seu país, que Walter Scott sabe perdidas pela força avassaladora da modernidade, mas de encontrar uma solução conciliatória com as forças positivas da própria sociedade escocesa, representadas por Jeanie e seu marido.
O problema vai se complexificando, porque, no meio de sua jornada para Londres, Jeanie encontra mais uma vez o mesmo Robertson diabólico, o sedutor irremediável de sua irmã, que nos aparecerá não como o bandido escocês que luta pelo reembolso das riquezas levadas pela presença inglesa, mas um Robertson transformado em Stauton, nobre de família rica e respeitável. Stauton, que assumira o nome de Robertson para suas atividades ilegais, terá seu comportamento diabólico explicado por sua relação com a vida nas colônias.
Seu pai fora soldado e, “durante o serviço nas Índias Ocidentais, casara com a herdeira de uma rica plantação. Com esta senhora ele teve uma única criança, George Stauton, o jovem infeliz que tem sido tantas vezes mencionado nesta narrativa. Ele passou a primeira parte da sua primeira infância sobre a responsabilidade de uma mãe coruja e na companhia de escravos negros, cujo trabalho era satisfazer cada um dos seus caprichos”.[iv]
O narrador ainda nos informa: “Como os jovens de sua própria posição social não suportariam a insolência de um crioulo orgulhoso de seu dinheiro, ele caiu naquele gosto pela baixa sociedade”.[v] O método de construção do personagem é a perspectivação tão típica dos romances de Walter Scott que lhe garantem uma incomum complexidade na construção psicológica.
Stauton é, ao mesmo tempo, o líder de uma revolta popular que corrige um malfeito da Justiça e condena os jogos palacianos de poder que protegem os apaniguados; uma figura diabólica que assusta Ruben e Jeanie nos encontros aos arredores da cidade; um crioulo mimado, filho de uma fazendeira rica com um soldado inglês, que cresceu com escravos lhe fazendo todos os caprichos; um apaixonado vigoroso disposto a fazer mundos e fundos pelo amor.
O segredo é que ele possui todas essas camadas ao mesmo tempo, sendo o resultado contraditório e conflitante desses traços constitutivos de seu caráter. Na construção dessa personalidade complexa, Scott vai entrelaçando tendências díspares que se vão amoldando contraditoriamente e revelando tendências históricas pouco óbvias à primeira vista.
4.
A força disruptiva do romance tem origem direta na vida colonial. A educação oferecida ao jovem e a sociedade na qual ele cresce convivendo – a dos negros escravizados na Caribe britânico – determinam sua força de destruição, seu caráter irrequieto e sua personalidade insolente. A palavra “capricho” não passará desapercebida para o leitor brasileiro: o comportamento de Stauton é o de alguém que está acostumado a não encontrar barreiras para o exercício da sua vontade, mas essa disposição encontrará, em solo europeu, as forças do Estado e também da própria ação narrativa que tratará de o castigar.
A diferença entre ele o nosso Brás Cubas é que ele vai se meter numa sociedade mais ou menos organizada que trata de barrar o desnorteio. A representação não é tomada aqui como figuração negativa dos povos coloniais, ou como rebaixamento ideológico e subalternizante, mas representação relativamente fidedigna de uma realidade social que todos conhecemos bem em sociedades escravistas.
A força disruptiva é, também, o polo progressista do romance e aqui está uma conjuntura incomum, mas com grande fôlego explicativo: o progressismo dos sentimentos será condenado em nome da organização social e será identificado com o desregramento do mundo das colônicas e da escravidão. Como conclusão desconcertante: formalmente encarado, o livro nos lembra que as anomalias morais do mundo colonial não são atraso ou depravação, mas a energia que move a transformação.
O romance oitocentista, aquele cujas estratégias narrativas Walter Scott ajuda a criar, costuma seguir outro caminho: o elogio da desestruturação da vida social em nome dos sentimentos verdadeiros, e, por óbvio, não liga nada disso à colonização ou à escravidão. Temos uma situação em que o polo progressista da narrativa não ocupa a posição central e acabará castigado, mas isso não muda o fato de que ele esteja caracterizado como progressista.
Essa é uma informação importante, porque o final do romance, que é fortemente conservador, não desmente seu início, que vincula o personagem desregrado à justiça popular contra o fisco e contra os desmandos da Justiça. O amor livre de Effie, embora leve à desgraça, destaca os preconceitos despropositados do pai, que é sempre satirizado, além da estreiteza da própria irmã, que é frígida apesar da firmeza moral. Parte da transformação do que deveria ser o eixo central da narrativa – o caso de amor impossível e mal acabado entre Effie e Stauton – em eixo negativo que deverá ser condenado em nome de uma estrutura social bem-acabada é exatamente a vinculação inusitada com o universo colonial e escravista.
5.
Situações coloniais não são estranhas a um romancista que lidou grande parte de sua carreira com a ocupação colonial da Escócia pelos ingleses no século XVIII e que descreveu o fim dos modos de vida tradicionais pela força violenta da modernização.
Mas esse processo e essas populações não são descritas em Walter Scott pelos termos pejorativos que agora a narrativa entrega para o caso caribenho: os guerreiros das Terras Altas são heróis com ideais e uma forma vida fadada ao fracasso, mas, ainda assim, uma forma de vida que deve ser admirada pela sua força humana e poética. Scott é o inventor desse esquema em literatura: consciência da derrota das formas tradicionais de vida quando confrontadas com o poderio do capitalismo inglês misturada com saudosismo daquelas formas de organização social que, embora não fossem avançadas, tinham ainda seu quid de mistério e atração.
Seu esquema será amplamente importado para as ex-colônias americanas que transformarão os homens das Terras Altas nos nossos indígenas e os clãs escoceses nas tribos. A morte de Iracema é um arremedo tupiniquim de uma cena scottiana em que formas tradicionais são derrotadas pelas forças avassaladoras da modernidade. Mas o próprio Walter Scott, quando trata da situação colonial estrito senso, confere outro escopo ao problema: enxerga não o heroísmo dos povos destruídos pela modernidade, mas a desorganização da vida social produzida pelo capricho sem freios.
O filho de Stauton e Effie é encontrado nas últimas cenas do romance. Seu desaparecimento é já uma parte do castigo sobre Stauton por seu desregramento colonial: a parteira que lhe desaparece com o filho e acusa Effie de assassinato é a mãe de uma moça que, na juventude, o próprio Stauton teria seduzido e engravidado. A avó teria matado o note para manter as possibilidades casamenteiras da filha, que, como consequência do desfecho trágico, enlouquece e dá ao romance algumas de suas cenas mais marcantes. De qualquer forma, Meg Murdockson, a parteira, se desfaz do filho de Effie que acaba nas mãos de um bandido que vendia crianças para serem escravas em fazendas americanas.[vi]
O banditismo, que algumas vezes anda junto do ímpeto revolucionário dos clãs das Terras Altas em outros romances, é aqui apenas depravação e desorganização da vida social e está conectado com o modo de vida colonial, com a barbárie da pilhagem[vii]. O castigo se completa na cena final, quando o filho reencontrado acaba assassinando o próprio pai, sem saber que aquele é seu pai e este sem saber que seu assassino é o filho perdido. As ações de Stauton literalmente voltam para atormentá-lo e para castigá-lo com a morte.
O destino do rapaz também é surpreendente: ele é vendido como escravo numa plantação na Virgínia pelo capitão do navio em que embarca depois do parricídio, e lá “o jovem rapaz tinha chefiado a conspiração na qual seu senhor desumano foi morto, e fugira então para a próxima tribo de índios selvagens. Nunca mais se ouviu sobre ele, e pode então ser presumido que ele viveu e morreu seguindo as maneiras daquele povo selvagem, com os quais seus hábitos prévios se adaptaram bem”.[viii]
6.
O filho tem em comum com o pai a propensão para uma vida desequilibrada, também desenvolvida pelas circunstâncias em que foi criado. Como o pai, está em contato com o mundo colonial e termina sendo mergulhado nele. Mas outra semelhança chama atenção: ele lidera um movimento de revolta contra seu senhor, assim como o pai havia liderado a revolta contra os desmandos da Justiça no caso de Porteous. Aqui existe outra conexão interessante e inusitada: o ímpeto progressista não está aleatoriamente conectado à vida colonial, mas ele tem com ela uma relação mais profunda. Mudar as estruturas sociais depende da liberação de forças anárquicas que o romance coloca na conta do mundo colonial.
A força para destruir, necessária à transformação, vem colada a esse mundo onde as normas de civilidade e de controle sexual parecem não chegar. Avançando todos os sinais, alguma coisa de barbarismo colonial existe na Revolução Francesa, e, diferente do juízo conservador, essa coisa bárbara que é a libertação dos impulsos em nome da destruição que se quer criadora, é inevitavelmente uma informação positiva dentro da estrutura narrativa, porque ela move a forma do romance e lhe dá o gosto peculiar.
O efeito, no entanto, é dúbio: de um lado, Walter Scott condena o comportamento descontrolado, os excessos patológicos de Stauton e de Effie e trata de recompensar as virtudes de Jeanie e Ruben, mas ele não nos aliena de Stauton. A narrativa do motim não representa o acontecimento como um despropósito amalucado, mas como a reação de uma população que, a bem da verdade, adere ao nacionalismo das “antigas liberdades” de Wilson diante da intervenção da rainha.
O encaminhamento da narrativa dá a entender que a confusão toda foi armada por Robertson para libertar Effie da prisão, mas o acontecimento em si, acompanhado do ponto de vista de Ruben, não tem teor privado, mas público.
O caso de amor entre Effie e Robertson, embora pouco prudente, é o que motiva o próprio enredo e tem ares de amor burguês, em oposição aos valores rígidos e meio ridicularizados do pai das moças. O movimento do enredo, que é o movimento do próprio mundo, castiga os dois e dá as razões para seus castigos, aderindo a elas muita vez, mas não apaga os momentos de verdade que constituem sua ação. No plano histórico mais geral, o enredo castiga a desordem colonial, mas depende dela para construir seu encanto, além de aderir a ela quando a conecta com o motim.
*Filipe de Freitas Gonçalves é professor de Literaturas de língua portuguesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Referência

Walter Scott. O coração de Mid-Lothian. Tradução: Artur Avelar. Joinville, Clube dos Autores, 2025, 422 págs. [https://url-shortener.me/HJXG]
Notas
[i] Walter Scott, The Heart of Mid-Lothian (London/New York: Penguin Classics, 1994), p. 28. Todas as traduções do romance são minhas.
[ii] Ibidem, p. 28.
[iii] Ver James Kerr, Scott’s Fable of Regeneration: The Heart of Midlothian (ELH, Vol. 53, No. 4 (Winter, 1986), pp. 801-820).
[iv] Walter Scott, The Heart of Mid-Lothian, cit., p. 357.
[v] Ibidem, p. 358.
[vi] Esse trânsito de populações será considerado por Charlotte Sussman (The Emptiness at The Heart ofMidlothian: Nation, Narration, and Population. EIGHTEENTH-CENTURY FICTION,Volume 15, Number I, October2002 p. 103-126) como um dos traços do problema colonial no romance.
[vii] “(…) a imigração, o exílio ou o enriquecimento”, as três formas típicas de entrada do mundo colonial no romance inglês segundo Said (Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 135) estão presentes no livro de Scott, mas muito do esquema montado por Said para o romance inglês não parece adequado para caracterizar o romancista escocês que é Scott. O esquema montado pelo crítico para ler Austen, por exemplo, parece apontar na direção contrária do que está fazendo Scott no romance que estamos analisando.
[viii] Scott, The Heart of Mid-Lothian, cit., p. 530.






















