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O culto das trevas

Bill Woodrow, Prata, 1994.
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Por TARSO GENRO*

A maldade e o negacionismo de Olavo de Carvalho: a quem as suas ideias serviram, o que decorreu delas

Nietzsche é apontado na história da filosofia moderna, não sem contestação, como filósofo da Alemanha nazista. Sobre Alfred Rosemberg, filósofo do senso comum do nazismo, não paira esta dúvida, pois este assassino em série semeou – no “homem comum” alemão – a convicção que o povo judeu deveria ser eliminado sem piedade, como animais levados a um matadouro. Sobre Heidegger, que serviu conscientemente a Hitler, a discussão permanece: através de alguns dizendo que o seu oportunismo político (que lhe permitiu ser nomeado Reitor da Universidade de Friburgo por Hitler) não anulou a sua “genialidade filosófica”; contrapostos a outros que lhe julgam um amoral devotado ao banditismo nazista. É discutível, mas aqui o governo bolsonariano teve o filósofo que mereceu, com um psicopata fixado nos orifícios anais, aceito pela grande imprensa como um colunista de elevado saber político.

Penso que Heidegger, místico e irracionalista, foi um enganador cuja elaboração lhe permitiu ser um aderente do nazismo, “frio e dramático, sem um pingo de humor; (proponente de) abstrações (tolas) e torção de ideias”, que não raro serviam para as mais diferentes interpretações dos seus discípulos” (“apud” Moreno Claros). Seria imprudente, porém, dizer que ele era inculto e ignorante como Rosemberg e que não tinha habilidades formais para tentar montar um “sistema” filosófico que, ao fim e ao cabo, desmoralizou-se na história universal. A derrota do nazifascismo e a força dos julgamentos de Nuremberg liquidaram aquele totalitarismo, que agora tenta se reerguer. Heidegger, todavia, se foi um filósofo, não foi um ser humano minimamente respeitável, pois suas ideias interferiram na história para forjar o mal da guerra e a barbárie do Holocausto.

Faço este apontamento rápido para sustentar que a “grande questão” sobre o dito professor Olavo de Carvalho, recentemente falecido de uma doença que ele dizia não existir, não é se ele foi um filósofo, ou não, mas sim a quem as suas ideias serviram, o que decorreu delas, que conteúdos ele emprestava a sua militância intelectual e qual a consequência, na vida das pessoas comuns, do que ele elucubrou na sua bizarrice, capacidade de manipulação e mentiras em série, que expelia nas suas verves diárias. Montaigne e Gramsci, mostraram com suas obras vidas que uma filosofia, seja qual for seu sentido, não tem importância se não se integra de alguma forma à vida das pessoas. Neste sentido, Olavo foi eficiente: deu uma bandeira aos idiotas e organizou o sentido do ódio para os seus profetas intermediários.

Refiro-me, por exemplo, a duas macroafirmações do talvez astrólogo Olavo, que rodam o mundo e integram-se à vida de milhões, que mostram a sua maldade intrínseca – semeadora da ignorância e da morte – que têm importância histórica e merecem ser estudadas. Refiro-me a sua admissão medieval de que a terra pode ser plana e que a vacinação é uma conspiração “globalista”, para impor uma dominação totalitária sobre o cotidiano das pessoas. A formação desta ideologia, travestida de uma filosofia popular, não é apenas uma ingenuidade psicótica, mas uma complexa formulação sobre a totalidade do mundo e uma estratégia de construção do futuro como revivescência medieval.

O livrinho panfletário Manual do perfeito idiota latino americano, publicado há 25 anos, não foi uma aberração porque seja um livro de direita ou porque ataque os que chama de simpatizantes da “ideologia marxista” ou de “idólatras contumazes do fracasso” ou, ainda, por autoconsiderar-se “um dos livros mais sérios do mundo”. É uma aberração porque é falso, desrespeitoso, ofensivo com pessoas de esquerda e de direita, desde que sejam sérias e não aceitem as suas bobagens semi-ilustradas, que identificam apenas num campo do pensamento político – sem qualquer rubor – “os verdadeiros responsáveis pelo retardamento econômico, social e cultural” da América Latina.

Os autores do livro são Plinio Mendoza (colombiano), Carlos Alberto Montaner (cubano) e Vargas Llosa (peruano), que procuram mostrar que até aquela época os idiotas venceram e que certamente um dia chegariam figuras como Macri, Sebastian Piñera e Bolsonaro, para nos salvar. Chegaram e pioraram e os verdadeiros idiotas surgiram das suas tocas. A tese central da obra, a três mãos, é que sequer existe uma responsabilidade compartilhada sobre as mazelas latino-americanas, como inclusive colocam cientistas políticos liberais sérios, que identificam – mais além do “estatismo” e do “nacionalismo” – (pedra-de-toque da sua histeria elitista) outros componentes do atraso social e econômico latino-americano, cuja responsabilidade é das classes privilegiadas.

Somos herdeiros da dominação colonial-imperial, que deixou por aqui as misérias morais e sociais que conhecemos, tais como a ideologia escravocrata das classes “superiores”, o genocídio dos autóctones, democracias oligárquicas e concentrações da propriedade da terra e da renda, em níveis brutais. O livro do trio “liberal” foi, de certa forma, precursor do “filósofo” falecido, que seguidamente apelava para o ânus alheio (ou para o próprio), para encerrar um debate político ou filosófico. Não demos importância, à época, ao panfleto de Vargas Llosa e seus amigos, pois ele estava sendo lido apenas por aspirantes ultraliberais, obscuros executivos do “mercado”, jornalistas aderentes, professores medíocres e sem brilho, das Universidades menores, embora divulgado amplamente pelo que se chama de “grande imprensa”.

A maldade e o negacionismo de Olavo, na verdade, é a contrapartida “científica” (panfletária) ao livrinho de “ciência política” que versou sobre os “idiotas latino-americanos”, que são aqueles que se comprometem com a vida, com a igualdade e as liberdades políticas, com a ciência e com razão iluminista. Simples assim: não importa se, no futuro – mais particularmente numa provável época de trevas – Olavo de Carvalho vá ser respeitado como um filósofo, porque até Rosemberg o foi na época do nazismo. O que importa agora é como vamos evitar que isso aconteça, derrotando os seus fanáticos nas próximas eleições e restaurando a vigência da Carta de 1988, para que os negacionismos e o culto político da morte sejam jogados na lata de lixo da História.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios).

 

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