O monstro da justiça

Raio Agbo, Sem título, 2014
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Por EMANUEL TOMÉ MARCONDES*

O rei proclamou a pena do monstro frente a todo o mal que ele havia realizado em sua extensa vida pela terra: a criatura deveria ser aprisionada eternamente pelos seus pecados

Em séculos passados viveu entre os homens a encarnação do mal, um monstro que, embora com aparência humana, praticou tudo que se possa imaginar de ruim e de pior a ser infligido ao próximo. Roubo, latrocínio, estupro de mulheres e de crianças, tortura sádica contra os mais fracos, genocídio… seria incontável transcrever cada um dos exemplos que identificam a dimensão do mal causado por essa inescrupulosa criatura.

Com o passar dos anos, surgiu na terra um rei dos homens cuja bondade e sabedoria estavam em pé de igualdade ao mal e crueldade do monstro humanoide. Foi então orquestrada uma armadilha contra o monstro que, se não fosse a falibilidade dos subordinados do rei, teria tido um resultado perfeito. Ainda assim, a imperfeição do resultado da armadilha foi suficiente para que a tocaia fosse acionada, atingindo por acidente a cabeça do monstro, que caiu inconsciente ao chão.

Diante da situação, o rei – com toda a sua sabedoria – proclamou a pena do monstro frente a todo o mal que ele havia realizado em sua extensa vida pela terra: a criatura deveria ser aprisionada eternamente pelos seus pecados. Teriam ainda 100 homens encarregados de sempre proteger o cárcere dando fiel cumprimento a pena imposta ao monstro, lhe fornecendo somente o necessário para mantê-lo vivo até que a sua pena fosse extinta.

O monstro, ao acordar no primeiro dia, se viu assustado. Olhou para seus pés e mãos e ambos estavam acorrentados, o dano cerebral causado pelo acidente da armadilha lhe fez esquecer seu nome, seu passado, o que tinha ele feito e como havia parado ali, na pior das piores prisões que esse mundo já viu. O monstro então aguardou até que surgisse o primeiro guarda, que lhe trazia alimento e água suficientes para manter seu coração batendo.

Com a chegada do primeiro guarda o monstro indagou: “perdão, mas não consigo me lembrar de nada, quem eu sou e o que eu fiz para receber tal castigo?” O guarda, que havia perdido sua mulher e filhos pelas atrocidades que o monstro havia cometido no passado, logo se enfureceu, e fez questão de contar tudo que ele havia ocasionado para aquelas pobres vítimas. O monstro ouvia tudo calado, sem esboçar qualquer reação.

Somente quando o guarda já não tinha mais fôlego para continuar proferindo as ofensas, a criatura respondeu: “peço perdão pelos meus pecados, embora não os recorde, se esta pena imposta é a medida justa diante do mal que lhe causei, aceitarei sem hesitar meu destino.”

No segundo dia, novamente o monstro acordou inconsciente de seu passado, assustado com a situação que se encontrava, sem saber dizer quem ele era e o que teria ele feito para merecer tudo aquilo. Com a chegada do segundo guarda lhe foi explicado novamente as inúmeras violências realizadas, ao final, o monstro – que não se recordava sequer da conversa que teria acontecido no dia anterior – repetiu as mesmas palavras: “peço perdão pelos meus pecados, embora não os recorde, se esta pena imposta é a medida justa diante do mal que lhe causei, aceitarei sem hesitar meu destino”.

Se passaram 100 dias, e a cada dia que se passava a história se repetia de novo e de novo. Ao final dos 100 dias trocaram-se os guardas, e apenas isso, junto com os relatos contados, foram alterados, pois o monstro nunca conseguia se lembrar o que havia ocorrido no dia anterior. Ele repetia as mesmas perguntas, e ao final, oferecia a mesma resposta aos seus guardiões.

Dias se tornaram meses, que se transformaram em anos, e estes em séculos, até que a memória dos homens também se tornou apagada pelo tempo, mas a pena imposta ao monstro nunca foi esquecida.

À medida que os dias se desdobravam, o monstro continuava débil, esquecido de quem ele era e o que teria ele feito para estar naquela prisão. Só que os guardas já não podiam mais saciar a sua dúvida, pois nenhum deles detinha conhecimento de quem era o monstro e o que teria ele feito para estar trancafiado ali, cumprindo a sua sina. Frente às suas dúvidas, os guardas apenas respondiam:

Eu só sei que sempre foi assim,
e assim para sempre será.
Você vive para ser prisioneiro,
enquanto eu nasci para te aprisionar.
Ordens são ordens, essa é a lei.
O mundo funciona assim.
Nem eu e nem você
podemos dizer,
O que acontecerá no fim.

E chegado o fim dos tempos, o prisioneiro amaldiçoou o que ele denominava ser o monstro da Justiça.

*Emanuel Tomé Marcondes é bacharel em direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).


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