O nascimento da tragédia

Por ERNANI CHAVES*

Comentário sobre o livro de Friedrich Nietzsche

O “Posfácio” da nova edição do primeiro livro deste famoso filósofo alemão começa com uma frase breve e certeira: “O nascimento da tragédia é, em vários aspectos, a obra mais difícil de Nietzsche”. É preciso levar absolutamente a sério esta afirmação, uma vez que estamos diante de um dos livros mais citados de Nietzsche, ao lado do Zaratustra e da Genealogia da moral. Citados desde as mais eruditas teses até às manifestações calorosas nas chamadas “redes sociais”.

O par Apolo e Dionísio se tornou, sem dúvida, quase um sinônimo da filosofia de Nietzsche. A leitura rápida, ditirâmbica, fascinada pelo estilo, por uma escrita que tentou romper os limites rígidos entre as exigências da dissertação acadêmica próprias dos estudos em filologia, sua formação universitária, e um esforço de escrever mais próximo do literário e do poético, acabaram construindo um conjunto de clichês, que se colaram ao livro – e à filosofia de Nietzsche como um todo – de tal modo que impediu uma apreensão dos conceitos que estavam em jogo na sua análise da tragédia grega.

As dificuldades que o estilo do livro provoca até hoje, ressoou imediatamente nos leitores de primeira hora, a maioria, profundamente críticos. Inúmeros foram os defeitos atribuídos a ele, o que fez surgir uma “querela”, que se tornou uma peça fundamental para a sua avaliação. À exceção de Wagner, a quem o livro era dedicado e o amigo e filólogo Erwin Rhode, nem mesmo seu mestre e mentor, o renomado filólogo Friedrich Ritschl, que havia lhe indicado para a cátedra de Filologia na Universidade da Basiléia, demonstrou qualquer grande entusiasmo e apreço pela análise daquele que considerava o seu aluno mais brilhante.

Nietzsche nunca respondeu publicamente às críticas violentas de outro filólogo, Ulrich Willamowitz-Möllnedorf, que deu início à polêmica. O que não quer dizer que deixou-as inteiramente de lado. Não por acaso, tanto no prefácio à edição de 1886 quanto no capítulo do Ecce homo dedicado ao livro, o próprio Nietzsche fez uma severa autocrítica. Entretanto, diga-se de passagem, é como se ele dissesse que a crítica ao livro não era correta e que ele próprio estava, ao mesmo tempo, corrigindo a si mesmo e aos seus críticos.

A leitura rápida, apressada e incomodada com o estilo, não havia percebido, por exemplo, o quanto o livro se confrontava criticamente tanto com a tradição mais antiga, mas ainda em plena vigência nos acalorados debates da segunda metade do século XIX – como seu confronto com a Poética, de Aristóteles – assim como com a tradição mais recente, em construção, que remontava às imagens de certa Grécia serena e harmoniosa, como a de Winckelmann e também a de Goethe; ou ainda que buscava fundamentar a Estética como uma ciência, como em Baumgarten;  por fim, que já se fazia ou ainda que já fazia abalos sísmicos nesse edifício em construção, como entre os Primeiros Românticos.  Mesmo o próprio Nietzsche lembrava o quanto ele “fedia” (a expressão é do próprio Nietzsche no Ecce homo) a Hegelianismo, ao pensar o dionisíaco “estético” como uma espécie de síntese reconciliadora e consoladora entre o “apolíneo” que recobre o aterrador do mundo com o véu da “bela aparência” e o dionisíaco “bárbaro” que escancara esse aterrador, por meio de uma embriaguez autodestrutiva.

Mas, o mais importante, do meu ponto de vista, escapou a esses primeiros críticos e a vários outros que se seguiram, ou seja, o quanto nesse primeiro livro Nietzsche já se insurgia contra a perspectiva historicista dos métodos de pesquisa estabelecidos pela Filologia de sua época. Seu interesse maior não era, de fato, reconstruir a Grécia e a história da tragédia “tal qual ela foi” – para retomar a sentença de Leopoldo von Ranke – mas a de pensar a sua própria época, para reencontrar no clico vital da tragédia grega as diretrizes básica que iriam, a partir dali, conduzir a nossa cultura.

Nessa perspectiva, é possível dividir o livro em duas grandes partes: uma primeira, na qual se propõe uma tese absolutamente ousada, a de que a tragédia surge da reconciliação entre Apolo e Dionísio e uma segunda que trata, justamente, da morte da tragédia sufocada pelo racionalismo socrático. Tudo isso, tendo como trilha sonora a música de Wagner, embebida pela filosofia de Schopenhauer.

A conclusão do livro, a de que a morte da tragédia ocasionada pela vitória do racionalismo socrático ecoa no século XIX, na medida em que esse racionalismo teria encontrado na ciência triunfante daquele momento uma espécie de acabamento, mostra muito bem que o objetivo de Nietzsche era menos nos levar de volta a Grécia e mais em nos fazer pensar em que medida a compreensão de nossa época exige uma confrontação com os gregos. Em suma, o objetivo de Nietzsche era muito mais o de fazer uma espécie de um diagnóstico do seu presente.

Às reticências do meio acadêmico podemos contrapor a calorosa recepção do livro entre escritores, artistas, poetas, literatos. Lido em conjunto com o Zaratustra, O nascimento da tragédia e sua afirmação de que a única e legítima justificação do mundo é sempre de ordem “estética”, se tornou fonte de inspiração para o espírito da vanguarda nascente como o Expressionismo do Grupo “Die Brücke”, de poetas como Gotfried Benn, de escritores como Thomas Mann e de dramaturgos como Frank Wedekind, sem esquecer o jovem Brecht.

Um filósofo-poeta, longe de ser uma espécie de rebaixamento do seu sentido propriamente filosófico, significou para toda uma geração a melhor resposta à difícil conjuntura que levaria a Europa à guerra de 1914. Essa junção entre arte, política e cultura, que marcou esse livro desde a sua origem – sob “os estrondos da batalha de Wörth”, durante a guerra franco-prussiana de 1870-1871, diz seu próprio autor, no prefácio da edição de 1886 – tornou-se da posteridade de sua recepção um tema sempre recorrente.

Os ecos serão de várias matizes, a artilharia pretensamente pesada do jovem até então ainda embebido pelo projeto cultural de Bismarck, senão acertou o seu alvo mais imediato – a decepção com o projeto estético-político de Wagner ou ainda com o niilismo de matiz schopenhaueriana logo se instalou – transformou-se mais num arco atirando flechas que, aqui e ali, neste ou naquele ponto, ajudou a despertar uma geração de jovens filósofos acossados pelo “sono dogmático”: dos filósofos da primeira geração da Teoria Crítica até aqueles que, em breve, serão os artífices da grande filosofia que surgiu do interior da segunda grande guerra, a do existencialismo francês. Como um rastilho de pólvora, essas flechas envenenaram o século XX de uma desconfiança crescente, de uma “suspeita” em relação aos grandes valores da tradição filosófica e cultural do Ocidente.

Nietzsche retomou inúmeras vezes as ideias de seu primeiro livro. Poderíamos dizer que ele tentou reescrevê-lo várias vezes. Suas anotações póstumas dos anos de 1887 e 1888 abundam de referências a ele, como se ele quisesse, a todo momento, “atualizá-lo”, torna-lo consoante às grandes teses do chamado período tardio de sua obra. Ou seja, não se tratava de simplesmente retomá-lo, mas de reescrevê-lo e inscrevê-lo nesse outro momento. Desse modo, o influxo juvenil tem aqui não um papel de simples retorno a uma origem que nunca deveria ser abandonada, mas o de criar uma dissonância, que alimentava seu presente, a partir de uma certeza, talvez uma das poucas certezas que ele tinha: a de que “a juventude é a falta de nuances”. Se ele continuar a ser, para o leitor de hoje, o signo de uma dissonância, então ele terá encontrado o que Nietzsche chamou, algumas vezes, de seu “leitor ideal”.

A reedição desse livro, com tradução e notas de Paulo César de Souza, como que fecha com chave de ouro o trabalho desse tradutor tão importante para a recepção brasileira de Nietzsche, que nos lega, desse modo, o conjunto das obras publicadas pelo próprio Nietzsche. Tal contribuição tem um valor inestimável. A edição conta ainda com um “Posfácio” bastante esclarecedor de André Luís Mota Itaparica, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e conhecido intérprete do pensamento de Nietzsche entre nós. Acrescente-se a isso, que ele está publicado na série “pret-à-porter” da Companhia das Letras: um grande livro, numa edição bem cuidada, barata e acessível.

*Ernani Chaves é professor titular da Faculdade de Filosofia da UFPA. Autor, entre outros livros, de No limiar do moderno (Pakatatu).

Referência

Nietzsche, Friedrich. O nascimento da tragédia. Tradução de Paulo César de Souza. Posfácio de André Itaparica. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.