O sigiloso sucessor do capitalismo

Imagem: Slejven Djurakovic
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Por EMIR SADER*

O capitalismo mutou em tecnofeudalismo, onde a renda da nuvem substitui o lucro e plataformas digitais reinam como novos feudos

Com esse subtítulo, o ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, publicou seu principal livro: Tecno feudalismo. Na sua concepção, o capitalismo estaria morto, no sentido de que sua dinâmica já não dirige as economias atuais. Este papel passou a ser desempenhado, na sua concepção, por algo fundamentalmente diferente, que chama de “tecnofeudalismo”.

No centro da sua visão há uma ironia que pode parecer confusa, a de que o que teria matado o capitalismo seria o próprio capital. Não o capitalismo como o compreendemos desde o início da era industrial, mas o que seria uma nova forma de capital, uma mutação surgida nas duas últimas décadas, muito mais poderosa que sua predecessora.

Duas causas são as primordiais: (i) a privatização da internet, levada a cabo pelas grandes tecnológicas norte-americanas e chinesas; e (ii) a maneira como os governos ocidentais e os bancos centrais responderam à grande crise financeira de 2008.

Seu livro trata do que o capitalismo fez. A mutação do capital que ele chama “capital na nuvem” demoliu os dois pilares do capitalismo; os mercados e os lucros. Ambos continuam onipresentes, mas já exercem o controle de antes.

O que aconteceu nas duas últimas décadas é que o lucro e os mercados teriam sido expulsos do epicentro do sistema econômico e social, foram deslocados para as suas margens e foram substituídos. Os mercados, o meio do capitalismo, foram substituídos, na sua visão, por plataformas de comércio digitais, que parecem mercados, mas que não o são, e que podem ser melhor entendidas se são consideradas como feudos.

O lucro, o motor do capitalismo, teria sido substituído por seu predecessor feudal, a renda. Em concreto, uma forma de renda que deve ser paga para ter acesso a essas plataformas e, em geral, à nuvem, o que ele chama de “renda da nuvem”.

Dessa forma, o poder real, na sua concepção, não seria ostentado pelos proprietários do capital tradicional, isto é, a maquinaria, os edifícios, as redes ferroviárias e telefônicas, os robôs industriais. Estes continuam extraindo lucros dos trabalhadores, pela via da mão de obra assalariada, mas já não mandariam como antes.

Teriam se convertido em vassalos de uma nova classe feudal, os proprietários do capital na nuvem. Isto tem alguma relevância na nossa forma de viver e experimentar a vida? Seria necessário reconhecer que o nosso mundo teria se tornado tecnofeudal, o que ajudaria a resolver questões grandes e pequenas, desde a esquiva revolução da energia verde até a nova guerra fria entre os Estados Unidos e a China, da morte do indivíduo liberal e a impossibilidade da social democracia realizar a falsa promessa das criptomoedas e a urgente questão de como recuperar nossa autonomia e também nossa liberdade.

Esta realidade social substituiu o capitalismo por algo que ele considera muito mais desagradável, o tecnonofeudalismo. Para descrever o tecnofeudalismo, ele primeiro tem que explicar o que ele chama de assombrosas metamorfoses que viveu o capitalismo nas últimas décadas.

No feudalismo, o poder da classe dominante procedia da propriedade de terras que a maioria não poderia ter, mas à que estava vinculada. No capitalismo, o poder derivava de um capital que a maioria não possuía, mas com o qual tinha que trabalhar para sobreviver.

No tecnofeudalismo, uma nova classe dominante obteria seu poder da propriedade de um capital na nuvem, cujos tentáculos enredam a todo mundo.

O capital na nuvem se define, fisicamente, como a acumulação de maquinaria conectada em rede, software, algoritmos baseados em Inteligência artificial e hardware de comunicações que percorrem todo o planeta e realizam uma ampla realidade de tarefas, novas e antigas.

Por exemplo: Incitar a milhões de pessoas não assalariadas (servos da nuvem) a trabalhar grátis (e frequentemente de maneira inconsciente) para repor o estoque de capital na nuvem (por exemplo, subir fotos e vídeos no Instagram ou no Tiktok, ou colocar críticas de filmes, restaurantes e livros).

Apagar as luzes enquanto nos recomendam livros, filmes, férias, etc., que estão tão impressionantemente em sintonia com nossos interesses que no futuro estaremos predispostos a aquirir outros bens que se vendam nos feudos ou plataforma na nuvem (por exemplo, amazon.com), que funcionam com a mesma rede digital que nos ajuda a apagar as luzes enquanto nos recomenda livros, filmes, férias, etc., etc.

Utilizar a Inteligência artificial e os big data para dirigir o labor dos trabalhadores (os proletários na nuvem) na fábrica, ao mesmo tempo, que impulsam as redes de energia, os robôs, os caminhões, as linhas de produção automatizadas e as impressoras 3D que superam a fabricação convencional.

Os imigrantes, os novos proletários mundiais!

Nada mais degradante, em um mundo com tantas coisas degradantes do que os precários barcos em que africanos tem suas embarcações naufragadas, tentando chegar à Europa! Quem são esses africanos? São alguns dos milhões de africanos cujos familiares foram tirados das suas casas e trazidos, nos porões de navios negreiros, para ser escravos na América, produzindo, como escravos, riquezas para a Europa!

Simples e terrível, mas muito real. São seus descendentes que agora, miseráveis e abandonados, que tentam cruzar o Mediterrâneo, da forma que seja, buscando sobrevivência em condições menos ruins. Mesmo, quando conseguem chegar, sendo discriminados, como negros, como africanos, como miseráveis.

Me lembro de estar em um seminário na Espanha, há algum tempo, quando um barco desses virou no Mediterrâneo e todos os seus ocupantes morreram. Embora fosse um seminário de gente progressista, não causou nenhuma reação, nenhuma indignação, nenhuma manifestação.

Os imigrantes, seja de origem africana ou de outra origem, circulam pela Europa, pelos Estados Unidos ou mesmo em países da América Latina, buscando alguma forma de vida menor cruel do que a que tem nos seus países de origem. Eles, que não nasceram escravos. Foram escravizados, tornados escravos, fazendo com que escravos e negros se tornassem quase sinônimos.

O mundo convive tranquilamente com a opressão e a exploração brutais da África, um continente ao lado da Europa. Basta conseguir cruzar o Mediterrâneo, para poderem chegar lá, onde serão tratados como raça inferior, onde serão discriminados e às vezes até expulsos de volta para seus países de origem.

Destino que acontece quando alguma embarcação é socorrida antes de naufragar, quando sua população é devolvida para suas condições miseráveis de vida na África. Ou quando alguns deles, por serem indocumentados, são expulsos para seus países de origem.

É um mundo “civilizado”, que produz a barbárie. Um mundo branco, loiro, ou de qualquer tez. Menos negro ou da cor de pele dos muçulmanos, igualmente discriminados.

“Civilização ou barbárie”, como disse um prócer latino-americano. Ambos convivem, lado a lado. A tal da “civilização” produz a barbárie, que ela continua a explorar, como empregados e empregadas negras, a seu serviço.

A miséria da África é um grito desesperado de quem, explorados e discriminados, pedem ajuda. Quem ouve suas vozes, se sua miséria é funcional, para desempenharem funções subalternas, que brancos não toparia cumprir? O que seria da “civilização” branca sem a miséria negra?

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]

Referência

Yanis Varoufakis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. São Paulo, Editora Crítica, 2025, 240 págs. [https://amzn.to/4o8JzjN]

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