Por GERSON ALMEIDA*
O discurso “antissistema” da direita esvazia o conceito de “sistema” de sua base material (classes sociais, controle dos meios de produção) e o desloca para uma guerra cultural vaga
“Se acham que vão me calar, estão muito enganados. Eu vou continuar incomodando o sistema de… Balneário Camboriú.” Com esta frase, o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL) finalizou seu discurso. Nele, rebateu as críticas contra a sua atuação parlamentar e manifestou apoio à decisão do seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de abandonar o mandato e montar residência nos Estados Unidos, de onde ele conspira junto ao governo americano contra seu próprio país.
O uso inusitado do termo “sistema” para definir as disputas paroquiais de um município é revelador do esforço da extrema-direita em caracterizar todos os seus adversários como “elite” ou “sistema”, termos que usa indistintamente. O objetivo disso é apropriar-se da retórica antissistema, com o objetivo de ocupar, no imaginário social, o lugar de liderança dos interesses do “povo” contra as “elites” e catalisar todo o tipo de descontentamento e frustração social.
Para sustentar essa retórica, é preciso que a compreensão de “sistema” seja removida de qualquer posição das classes sociais na estrutura econômica da sociedade, do controle dos meios de produção e das transações financeiras; assim como deixe de designar a “elite” como os “melhores”.
Ao esvaziar o entendimento de “sistema” e “elite” de qualquer vínculo com a estrutura da sociedade, o discurso da extrema direita deliberadamente transporta essas categorias para uma nebulosa “guerra cultural”, na qual a discussão dos costumes e da moral passa a ganhar centralidade para alcançar o objetivo de unificar distintos interesses e setores sociais sob o mesmo guarda-chuva.
Segundo o Brasil Paralelo, centro de produção de conteúdo da extrema direita, as causas que unificaram as diferentes insatisfações com a situação do país são: lutar contra a corrupção, contra o comunismo e a defesa das pautas morais favoráveis à família.
A falta de precisão sobre o que significa cada uma dessas causas é um artifício que Ernesto Laclau definiu como “um significante que não possui um significado fixo porque está a serviço de representar uma totalidade ausente” (Emancipação e diferença), que viabiliza a construção de um discurso amplamente flexível, no qual os próprios adversários passam a ser igualmente imprecisos e mudam de acordo com as conveniências políticas de cada momento: professores, o STF, as urnas eletrônicas, a burocracia estatal, o globalismo, o Balneário Camboriú, etc.
Os alvos permanentes são apenas a esquerda (notadamente o PT), as causas progressistas e o “politicamente correto”, que obstinadamente são apontados como a representação do “sistema”. Ao desviar a noção de “sistema” das questões que estruturam a sociedade, o discurso da direita propositadamente limita o seu alcance às questões culturais, morais e de costumes.
Quem controla e estrutura o sistema
Apesar de vender a ilusão de liderar um levante contra o “sistema” e as elites que o defendem, a direita age como a guarda pretoriana de todo tipo de interesse do capitalismo e atua para proteger e reproduzir a hegemonia do capital financeiro e a sua lógica de acumulação sem limites. No atual estágio do capitalismo, os grupos financeiros capturaram o Estado e lutam para transformar direitos sociais, patrimônio público e meio ambiente em ativos para os rentistas.
Para Ladislau Dowbor, há uma mudança profunda no conteúdo dos processos produtivos e, apesar de “continuarmos a produzir trigo e arroz, aço e automóveis”, o “elemento básico de formação do valor, o fator principal de produção, é constituído por um conjunto de atividades intangíveis” que estão deslocando o “eixo central de definição do modo de produção, a forma de extração do excedente e de exploração das populações”, que passa a ser a “rentabilidade dos papéis” (O capitalismo se desloca).
Esse deslocamento do capitalismo acelerou a extração da riqueza e a sua apropriação nas mãos de não mais do que 1% da população. É esta lógica que explica a pressa de Michel Temer – que assumiu a presidência da República após o golpe em Dilma Rousseff (2016) – em viabilizar a mais profunda mudança feita na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e ampliar a precarização das condições de trabalho, eufemisticamente chamada de flexibilização para reduzir o “custo Brasil”.
O domínio da extração de riqueza por meio do sistema financeiro não substitui as formas anteriores, como o arrocho dos salários e a diminuição do acesso aos bens e serviços públicos de qualidade, mas as suplantou como a principal forma de acumulação e concentração de riqueza.
Portanto, o sistema é o regime de acumulação, no qual o poder financeiro subordina a produção de riqueza e molda o trabalho, o consumo e o modo de vida da sociedade para atender aos interesses daqueles que detêm e concentram capital; o que David Harvey chama de “acumulação por espoliação” (privatizações e transferência de renda para o topo). O que torna o discurso da direita um simulacro feito para esconder a sua função de escolta política do poder econômico, confirmando que “não há rebeldia real em um movimento que é aplaudido pelo mercado financeiro a cada nova medida de austeridade” (David Harvey, O novo imperialismo).
Basta acompanhar o cotidiano da vida pública para perceber que a direita autodefinida como “antissistema” atua em favor dos interesses do grande capital ao defender a autonomia absoluta do Banco Central, a desregulação radical do mercado financeiro, a precarização do trabalho; ou quando atua para impedir a taxação das grandes fortunas, a mudança na escala de trabalho 6×1 e qualquer tipo de ação contra as desigualdades.
Em todas as disputas concretas no debate político real, invariavelmente a direita toma partido dos interesses do “povo do mercado”, conforme definiu Wolfgang Streeck (Tempo comprado). Ao lutar contra qualquer medida que possa alterar a relação de forças em disputa na sociedade, seu discurso pode ser barulhento, mas é estéril.
A blindagem à corrupção estrutural
Há um esforço hercúleo dos setores hegemônicos para tratar os sucessivos atos de corrupção como desvio individual (“uma maçã podre”) e não como uma característica sistêmica do próprio capitalismo financeiro. A crítica tende a ficar restrita à “moralidade individual” do empresário, do agente público ou de lacunas no sistema de controle, evitando qualquer discussão sobre a própria lógica da financeirização, que permite ao capital financeiro operar de forma fraudulenta – eufemisticamente tratada como “engenharia financeira criativa”.
Isso é possível graças a uma devotada rede de apoio (parlamentares, agentes públicos, imprensa, especialistas etc.) que age para manter a corrupção financeira invisível aos olhos da sociedade e longe do alcance do Estado. O escândalo do Banco Master nos permite observar isso de forma pedagógica.
A Operação Carbono Oculto já havia revelado o uso de fintechs e fundos de investimentos para lavagem de dinheiro (R$ 46 bilhões) para o crime organizado e escancarado a infiltração do PCC na Faria Lima, a meca do sistema financeiro nacional. Essa promiscuidade foi possível pelo uso de mecanismos que permitem a movimentação financeira sem identificar individualmente sua origem, o que dificulta o rastreamento pelo Banco Central.
Ficou claro que, se há dinheiro precisando ganhar respeitabilidade, a estrutura do mercado financeiro está à disposição para lavá-lo. É para isso que as brechas nos mecanismos de controle são meticulosamente preservadas.
Foi o que aconteceu quando uma instrução normativa da Receita Federal passou a obrigar os bancos digitais e fintechs a enviarem informações a respeito de operações acima de R$ 5 mil no Pix. Não demorou para que o deputado Nicolas Ferreira (PL-MG) colocasse em movimento uma poderosa máquina de propaganda para denunciar que o governo queria fiscalizar e tributar todas as operações pelo sistema de pagamento. Era uma mentira, mas o importante é que o objetivo de deixar essas operações fora do alcance da fiscalização foi alcançado.
A ação do deputado foi amplamente homenageada. Exemplos deste tipo são muitos, como a ação do senador Ciro Nogueira (PP/PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro, em tentar aumentar em quatro vezes a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para beneficiar a continuidade das operações do Banco Master, em sintonia com a decisão do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), de comprar ativos podres para dar sobrevida à pirâmide financeira do Banco.
A guarda pretoriana dos muito-ricos contou igualmente com o luxuoso auxílio do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que sabia da insolvência do Banco Master desde o início de 2024, mas permitiu que a instituição continuasse captando recursos.
Quando o governo enviou uma proposta para a segurança pública ao Congresso, com o objetivo de corrigir as brechas que impedem a ação do estado contra o crime sistêmico do andar de cima, mais uma vez a rede de apoio foi acionada e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, destacou o seu secretário de segurança, Guilherme Derrite, para coordenar a ação da direita. O resultado foi impedir que houvesse o perdimento dos bens – a apreensão imediata de patrimônio e recursos – do crime organizado e a supressão de dispositivos de combate aos crimes de corrupção como o desvio dinheiro público.
A cereja do bolo foi excluir as empresas de bets do pagamento de tributos que seriam utilizados no combate ao crime organizado. Aliás, esses e outros atores já haviam atuado para que as sucessivas falcatruas das Lojas Americanas, que acarretaram prejuízo de R$ 50 bilhões, ficassem restritas a “erros de gestão” e não afetassem os seus proprietários, incensados ícones do capitalismo nacional.
As suas ideias não correspondem aos fatos
Não é surpresa, portanto, que os debates sobre as falcatruas reveladas pela investigação do Banco Master estejam sendo focados nas instituições responsáveis pela investigação e nas possíveis relações de ministros do STF e/ou de seus familiares com alguma das empresas de Daniel Vorcaro (que, evidentemente, devem ser escrutinadas), e não nas relações orgânicas que permitiram a um pequeno banco crescer rapidamente durante o governo de Jair Bolsonaro e de Roberto Campos Neto.
Não é controverso que Fabiano Zettel, sócio e cunhado de Daniel Vorcaro, foi um dos maiores doadores individuais das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, e que seus aviões e estrutura serviam para dinamizar a campanha de importantes próceres da direita.
Um provérbio antigo e popular em várias culturas ao longo dos séculos, ensina que “atos dizem mais do que palavras”. As ações mostram que a rebeldia da direita contra a corrupção é funcional ao sistema e teatralizada para manipular a indignação e manter ligada a máquina de gerar desigualdades e destruir as políticas de proteção social. Para que o indivíduo permaneça à mercê do capital financeiro e de sua obsessão destrutiva.
O que chama a atenção é a dificuldade que a esquerda tem tido em assumir o seu lugar de verdadeira força disruptiva e debater de peito aberto as razões pelas quais defende que serviços essenciais, por exemplo, não devem ser operados apenas pela lógica do mercado, por serem imprescindíveis ao bem-estar de todos.
É só enfrentando esse debate que poderemos esclarecer que não é o “povo do mercado” que construirá uma sociedade justa, segura, desenvolvida econômica, social, cultural e ambientalmente. Prova disso é a reação contrária da guarda pretoriana da Faria Lima espalhada pelo país. A realidade construída pelo neoliberalismo mostra que o discurso da direita se afasta cada vez mais da verdade, dos fatos.
Nossa tarefa é convencer a opinião pública de que, como disse Michiko Kakutani, em A morte da verdade: “todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos”.
*Gerson Almeida, sociólogo, ex-vereador e ex-secretário do meio-ambiente de Porto Alegre, foi secretário nacional de articulação social no governo Lula 2.






















