A tragédia no Rio Grande do Sul

Imagem: Nikola Tomašić
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por GERSON ALMEIDA*

De modo geral, as vulnerabilidades aos eventos climáticos extremos estão fortemente relacionadas aos benefícios dados aos interesses do capital

Os gaúchos estão sendo castigados pelo “maior desastre climático do estado”, como declarou o governador Eduardo Leite, enquanto reconhecia as severas limitações do poder público para enfrentar esse evento climático extremo: “não teremos capacidade de fazer todos os resgates, porque está muito mais disperso nesse evento climático que a gente está vivenciando”.

Algo que revela a dimensão da tragédia e o desaparelhamento estatal para enfrentar essas situações, mesmo que sejam cada vez mais recorrentes e, portanto, seja cada vez menos realista tratá-los como eventos raros e imprevisíveis.

No mesmo estado do Rio Grande do Sul, em setembro de 2023, já havia ocorrido o mais extremo fenômeno climático até então registrado, um ciclone extratropical durante o qual 157 mil pessoas ficaram desabrigadas e 54 morreram. Ou seja, em apenas 8 meses, os gaúchos foram severamente atingidos por eventos climáticos, cada um mais extremo que o anterior.

Alguém perguntará ao governador do estado e ao prefeito de Porto Alegre quais foram as medidas tomadas para melhor instrumentalizar o poder público para a proteção das pessoas e qual o plano de contingência produzido a partir das evidências vivenciadas há oito meses atrás? Coisas simples como qualificar a Defesa Civil estadual, mapear as áreas mais sensíveis do estado, firmar parcerias com os municípios para planos de contingência e prevenção; ou, no caso de Porto Alegre, se foram reformadas as casas de bombas e os portões do sistema de proteção contra cheias?  

A tragédia atual no Rio Grande do Sul é de proporções inéditas, mas não imprevisíveis. Para ficar restrito apenas ao sul do país, é bom lembrar que os catarinenses, em 2008, já haviam sofrido com chuvas tão intensas que afetaram cerca de 1,5 milhão de pessoas, das quais 120 foram mortas e 69.000 desabrigadas, o que, na época, foi a pior tragédia climática da história da região sul.

De lá para cá, já se passaram 16 longos anos e muitos outros eventos climáticos extremos ocorreram, sendo que o ano de 2009 foi considerado o ano mais seco dos últimos 80 anos; e 2022 foi o anos em que 96 municípios gaúchos (19% das cidades gaúchas) decretaram situação de emergência devido à estiagem.

Pela abrangência, violência e recorrência, esses poucos exemplos são suficientes para evidenciar que as autoridades em todos os níveis de governo não podem continuar agindo como se tudo fosse novidade e apenas restasse lamentar a carência de instrumentos adequados para a proteção das pessoas. É preciso consolidar um efetivo sistema nacional, que envolva todos os níveis de governo e a sociedade, para a prevenção das causas que incidem nas mudanças climáticas, na defesa das populações vulneráveis e na mitigação das suas consequências.

O primeiro passo é abandonar a postura negacionista e pensar numa verdadeira revolução na ocupação e organização do espaço urbano e rural, na proteção das bacias hidrográficas e das desigualdades de acesso aos serviços básicos. Defender, de fato, a segurança das pessoas não é apenas distribuir armas e investir na repressão, mas universalizar o acesso aos serviços básicos e assegurar que todos poderão usufruir da cidade, sem viver na permanente insegurança ter a sua casa alagada, seus bens destruídos e ser sempre condenada a ter que recomeçar do zero, depois de cada evento climático extremo.

Mais uma vez, a solidariedade da sociedade está sendo comovente e imprescindível, mas ele não pode continuar sendo a única alternativa. São necessárias medidas estruturais que atuem para limitar as vulnerabilidades socioambientais, um esforço cotidiano dos governantes e uma luta permanente dos movimentos sociais para que essas questões não sejam discutidas apenas nesses momentos trágicos.

De modo geral, as vulnerabilidades aos eventos climáticos extremos estão fortemente relacionadas aos benefícios dados aos interesses de capital nas formas de produção do espaço urbano, como transformar em mercadoria as áreas de amortecimento dos cursos de água e as áreas destinadas às áreas verdes. Isso nos remete à incontornável conclusão de que as trágicas consequências sociais dos chamados eventos “naturais” devem ser consideradas como inseparáveis do conjunto de decisões cotidianas feitas para beneficiar os interesses daqueles que querem incorporar todo o espaço urbano e rural em mercadoria.

Esses, ao invés de qualificar os serviços públicos para melhor atender às pessoas, estão sempre trabalhando para entregá-los para a geração de lucro. É esse trabalho cotidiano contra as maiorias, que produz as imensas diferenças acesso à moradia digna e segura; assim como à infraestrutura adequada e aos serviços básicos de qualidade.

Apesar das trágicas desigualdades serem invisibilizadas nas discussões cotidianas, elas se apresentam de forma plena nesses momentos. Mas, a verdade, é que não são esses eventos climáticos extremos que criam as desigualdades, mas, sim, o modelo de desenvolvimento urbano e societário que coloca as pessoas em situação subordinada aos interesses econômicos.

É hora de termos governos que falem menos em nome do mercado e defendam mais as pessoas que prometeram representar.

*Gerson Almeida, sociólogo, ex-vereador e ex-secretário do meio-ambiente de Porto Alegre, foi secretário nacional de articulação social no governo Lula 2.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Razões para o fim da greve nas Universidade Federaisbancos 16/05/2024 Por TADEU ALENCAR ARRAIS: A nova proposta do Governo Federal anunciada dia 15 de maio merece debate sobre continuar ou não a greve
  • O negacionismo ambiental e a inundação de Porto Alegreporto alegre aeroporto alagado 14/05/2024 Por CARLOS ATÍLIO TODESCHINI: Porto Alegre tem o melhor sistema de proteção contra cheias do Brasil. É considerado um “minissistema holandês”. Por que esse sistema falhou em sua função de evitar que a cidade fosse alagada?
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A mão de OzaJoao_Carlos_Salles 14/05/2024 Por JOÃO CARLOS SALLES: O dever do Estado brasileiro e a universidade contratada
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • A greve nas universidades e institutos federais não…caminho tempo 17/05/2024 Por GRAÇA DRUCK & LUIZ FILGUEIRAS: As forças de esquerda e democráticas precisam sair da passividade, como que esperando que Lula e o seu governo, bem como o STF resolvam os impasses políticos
  • O cavalo Caramelocavalo caramelo 15/05/2024 Por LEONARDO BOFF: Há que se admitir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total
  • SUS, 36 anos – consolidação e incertezasPaulo Capel Narvai 15/05/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: O SUS não foi o “natimorto” que muitos anteviram. Quase quatro décadas depois, o SUS está institucionalmente consolidado e desenvolveu um notável processo de governança republicana

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES