As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

O “adevogado” e o “conje”

Foto de Hamilton Grimaldi
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MARILIA AMORIM*

Com ou sem laranjas, com ou sem “adevogados”, não existe hoje no país nenhum político, nenhum rábula ou magistrado com a potência discursiva de Lula

A origem popular de Lula está marcada na linguagem. Ontem “menas laranjas”, hoje “adevogado”. É, aliás, uma propriedade da linguagem revelar o que somos. O torneiro mecânico que, para desespero de nossa elite do atraso, tornou-se presidente da República, não teve a possibilidade de completar seus estudos e será sempre alvo de chacotas, das mais brandas às mais perversas. Haverá sempre a necessidade doentia de diminuí-lo, até mesmo por ter perdido um dedo em seu ofício.

Nossa classe média medíocre certamente preferia a mesóclise do vampiro (Temer) ou o professor de português matogrossense que dizia “fi-lo porque qui-lo” (Jânio). Mas o professor renunciou e o torneiro mecânico já avisou que não vai desistir. Então, só resta a ela sublinhar com caneta vermelha os “erros do seu português ruim”[i].

Ocorre que a sociolinguística, disciplina impulsionada no século passado por Willian Labov, nos explica que não se pode confundir o registro da língua escrita com o da linguagem oral. Uma de suas pesquisas mais famosas[ii] demonstrou que a linguagem dos guetos negros de Nova York, que se acreditava pobre e incapaz, era tão performante e rica quanto a dos grupos sociais dominantes. Se alguém duvida, basta lembrar da letra de Porgy and Bess, ópera de George Gershwin[iii]: Bess, you is my woman now, you is, you is…

Se impusermos a escrita como norma para a fala, descobriremos que todos nós “falamos errado”. Eu, por exemplo, carioca da zona sul da cidade, escrevo advogado mas falo “adivogado”. Ou seja, falo tão “errado” quanto Lula já que, depois do d não tem vogal, não tem e tampouco i. Nunca porém ouvi falar de um deboche qualquer por causa desse i inoportuno.

“Falo errado” e, no entanto, sou cheia de diplomas, daqui e dacolá. Como é diplomado aquele juizeco de Curitiba que teve todos os recursos para estudar mas não sabe dizer uma palavra que faz parte do vocabulário básico de qualquer rábula: CÔNJUGE. O sujeito diz “conje”, como gostava de repetir nosso saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim. Sem contar que o Imparcial de Curitiba apresenta sérias dificuldades para articular frases e períodos, o que também é de surpreender em uma profissão que provém da arte retórica.

Por que isso não o desqualifica? Cadê a classe média que gosta de uma caneta vermelha? A resposta vem de outro grande estudioso da linguagem, o ficcionista Lewis Caroll, através de sua personagem Humpty Dumpty[iv]: a linguagem é terreno de poder, por ela decide aquele que manda.

Enquanto isso, nosso torneiro presidente dá um banho na arte de falar! O desenvolvimento coerente do raciocínio, a precisão no posicionamento, a diversidade de imagens, a riqueza narrativa, o tom, a ênfase e a valoração, totalidade articulada e criadora de sentido: a fala como um ato ético. Com ou sem laranjas, com ou sem “adevogados”, não existe hoje no país nenhum político, nenhum rábula ou magistrado com sua potência discursiva. Como disse o Adnet, fale mais, Lula, faça mais discursos porque estamos precisando.

*Marilia Amorim é professora aposentada do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Paris VIII. Autora, entre outros livros de Petit Traité de la Bêtise Contemporaine [Pequeno tratado da burrice contemporânea] (Ed. Érès) (https://amzn.to/48du8zg).

Publicado originalmente na revista Carta Capital em 18/03/2021.

Notas


[i] Como diziam Roberto e Erasmo Carlos em Detalhes: “Não adianta nem tentar me esquecer porque até os erros do meu português ruim vão fazer você lembrar de mim…”

[ii] LABOV, W. Academic ignorance and black intelligence. The Atlantic, Boston, v.229, n.6, p.59-67, 1972. Traduzindo: “Ignorância acadêmica e inteligência negra”.

[iii] O libreto é de Ira Gershwin e Du Bose Heyard.

[iv] Em Alice do outro lado do espelho.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luís Fernando Vitagliano Anselm Jappe Afrânio Catani Plínio de Arruda Sampaio Jr. Rubens Pinto Lyra Luiz Eduardo Soares Luiz Carlos Bresser-Pereira Benicio Viero Schmidt Julian Rodrigues Liszt Vieira Denilson Cordeiro Jorge Branco João Feres Júnior Alexandre de Lima Castro Tranjan Maria Rita Kehl Berenice Bento Henry Burnett Vladimir Safatle Bernardo Ricupero Remy José Fontana André Singer Vinício Carrilho Martinez Caio Bugiato Armando Boito Francisco Pereira de Farias Ronaldo Tadeu de Souza Sergio Amadeu da Silveira Tarso Genro João Lanari Bo Paulo Sérgio Pinheiro Gilberto Lopes Chico Alencar Yuri Martins-Fontes Bruno Machado José Dirceu Alexandre de Freitas Barbosa José Geraldo Couto Rafael R. Ioris Luis Felipe Miguel Luciano Nascimento Vanderlei Tenório Flávio Aguiar João Carlos Loebens Marcelo Módolo Antônio Sales Rios Neto Leonardo Boff Marilia Pacheco Fiorillo Thomas Piketty Fernando Nogueira da Costa Ricardo Fabbrini Michael Roberts Francisco de Oliveira Barros Júnior Roberto Bueno Atilio A. Boron Leonardo Sacramento Heraldo Campos Everaldo de Oliveira Andrade Ladislau Dowbor Jorge Luiz Souto Maior Valério Arcary Jean Pierre Chauvin Manuel Domingos Neto Ari Marcelo Solon Tales Ab'Sáber Slavoj Žižek Renato Dagnino Érico Andrade Paulo Capel Narvai João Carlos Salles Juarez Guimarães João Adolfo Hansen Mário Maestri Paulo Fernandes Silveira Leonardo Avritzer Alysson Leandro Mascaro Daniel Afonso da Silva Dênis de Moraes Luiz Renato Martins Bruno Fabricio Alcebino da Silva Celso Favaretto Celso Frederico José Luís Fiori Ricardo Abramovay Gabriel Cohn Eleutério F. S. Prado Paulo Martins Ronald León Núñez Roberto Noritomi Annateresa Fabris Dennis Oliveira Gerson Almeida Anderson Alves Esteves Carla Teixeira Walnice Nogueira Galvão Luiz Costa Lima Luiz Bernardo Pericás João Paulo Ayub Fonseca Marcos Silva Kátia Gerab Baggio Ricardo Antunes Flávio R. Kothe Jean Marc Von Der Weid Marcos Aurélio da Silva Airton Paschoa Marcus Ianoni Claudio Katz Francisco Fernandes Ladeira Fernão Pessoa Ramos Antonio Martins Mariarosaria Fabris Leda Maria Paulani Eduardo Borges Michael Löwy Fábio Konder Comparato Ricardo Musse Samuel Kilsztajn Carlos Tautz Eugênio Bucci Marjorie C. Marona Otaviano Helene Luiz Werneck Vianna Osvaldo Coggiola Antonino Infranca Bento Prado Jr. Salem Nasser Eugênio Trivinho Daniel Brazil Lincoln Secco Eliziário Andrade Valerio Arcary Alexandre Aragão de Albuquerque Luiz Marques André Márcio Neves Soares Ronald Rocha Andrew Korybko José Machado Moita Neto Manchetômetro Daniel Costa Marcelo Guimarães Lima Luiz Roberto Alves Boaventura de Sousa Santos Tadeu Valadares Elias Jabbour José Costa Júnior Gilberto Maringoni José Micaelson Lacerda Morais Milton Pinheiro João Sette Whitaker Ferreira Lucas Fiaschetti Estevez Rodrigo de Faria Sandra Bitencourt Lorenzo Vitral Henri Acselrad José Raimundo Trindade Chico Whitaker Igor Felippe Santos Paulo Nogueira Batista Jr Priscila Figueiredo Eleonora Albano Marilena Chauí

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada