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Olavo de Carvalho e a extrema direita

Imagem: Tim Gouw
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Por FLAVIO GABRIEL CAPINZAIKI OTTONICAR*

Considerações sobre a filosofia do filósofo de Virgínia

Não sou leitor de Olavo de Carvalho. O falecimento de alguém com certo grau de influência na vida política e cultural do país, no entanto, me obriga a refletir sobre o significado e a importância de figura tão controversa na contemporaneidade brasileira. Por essa razão – e aproveitando a onda de críticas e homenagens pela sua morte relativamente recente –, apresento breve reflexão sobre o caráter presunçoso do “olavismo” a partir de um texto dele denominado Aristóteles em nova perspectiva, publicado originalmente em 1996.

Antes de mais nada, entretanto, é preciso deixar claro que, se por um lado, um personagem tão caricato como Olavo tende mais a repelir do que a atrair a simpatia da intelligentsia nacional; por outro, o simples fato do escritor não ter formação universitária não constitui, por si só, motivo para desmerecer sua produção bibliográfica.

Por isso não sou daqueles que se recusam a chamar Olavo de “filósofo” apenas por não haver ele frequentado o curso universitário de filosofia. Há (e isso é uma outra discussão) problemas crônicos na formação em filosofia nas academias brasileiras, problemas que frequentemente inibem aqueles que estudam e desenvolvem pesquisa em filosofia no âmbito das universidades de serem chamados de “filósofos”. Ora, se nem mesmo os decanos das universidades se dão ao “luxo” de serem chamados de filósofos, o que dizer de uma figura rude e prepotente que abandonou a escola no ensino fundamental como Olavo de Carvalho?

Ciente dessas questões e muito espertalhão, sempre que convinha Olavo atacava os ”filósofos” da academia. Certa vez o vi afirmar que o curso de filosofia da USP, em mais de oitenta anos de existência nunca formou um filósofo!

Em resumo, não creio que a filosofia deva dobrar-se aos trâmites da burocracia acadêmica, sob pena de seu horizonte de atuação (que é o mais amplo de todos e é também o mais amplo possível!) permanecer limitado à semântica dos acadêmicos. Qualquer limite estrutural e discursivo não combina com a boa e velha filosofia, essa arte milenar construída na maior parte do tempo por indivíduos que não estavam sujeitos às atuais exigências para a formação universitária.

Pode haver filosofia fora dos muros da academia e Olavo pode ser chamado de filósofo sem grande alvoroço. Agora, se seu pensamento se sustenta, se sua “filosofia” é suficientemente sofisticada e articulada, aí já são outros quinhentos! Aos que se incomodam em ver o velho astrólogo ser chamado de filósofo, é bom lembrar que Olavo não foi o primeiro e nem será o último charlatão a ser qualificado como filósofo. O título em si é o de menos.  Estão aí figuras como Inri Cristo para provar isso. Ele pode ser chamado de Cristo, mas se faz milagres…aí é outra história.

Contudo, a reflexão a qual me propus não é sobre as mil e uma polêmicas que Olavo travava diariamente, sobretudo nas redes sociais, mas sobre a empáfia com a qual regularmente se apresentava para o debate público.

A obra Aristóteles em nova perspectiva, que talvez seja a única (como eu disse, não sou leitor de Olavo e não conheço sua bibliografia a fundo), ou uma das poucas obras de sua autoria com um certo viés propriamente acadêmico, Olavo chega o mais próximo de fazer aquilo que se faz nos cursos universitários de filosofia: um comentário sobre uma ou algumas obras de autores clássicos.

Mas, para não restar dúvidas de que se trata efetivamente de um texto do velho Olavo, além do pedantismo do título, já no primeiro capítulo vem uma “olavada”: “há embutida nas obras de Aristóteles uma ideia medular, que escapou à percepção de quase todos os seus leitores e comentaristas, da Antiguidade até hoje”.

Essa frase é bastante característica da personalidade presunçosa de Olavo. Ora, Aristóteles é um dos autores mais lidos e estudados de todos os tempos. Seus escritos têm origem na Grécia antiga e de lá para cá foram lidos, estudados e debatidos pelos filósofos helenistas; pelos romanos; pelos medievais; pelos modernos e por toda a “geleia geral” da filosofia contemporânea, já bastante disseminada pelos “quatro cantos” da terra (que é redonda!).

Impressionante que com um volume tão monumental de estudos, de estudiosos e de pessoas que têm se debruçado sobre Aristóteles durante décadas…somente o “grande mestre” Olavo de Carvalho percebeu a “ideia medular embutida nas obras de Aristóteles”.

Cabe notar que essa postura pretensiosa de Olavo é sintomática da direita no Brasil, especialmente a parcela da direita por ele influenciada. Para além da disseminação de mentiras em escala, a extrema direita brasileira costuma dar um verniz de “revolução copernicana” para as “descobertas” mais pífias que fazem, em geral, graças às redes sociais e aos grupos de whatsapp.

Um dia desses um amigo bolsonarista arrependido (ainda me resta um único amigo bolsonarista, embora arrependido, como a maioria deles!) enviou-me um meme com a foto do Lula e os seguinte dizeres: “quando você é uma pessoa de bem e vota em um político acreditando que ele é honesto e depois de alguns anos descobre que ele é um bandido e charlatão, imediatamente você muda sua opinião sobre o mesmo. Agora, se você mesmo assim, continua defendendo esse político… você é pior do que ele!”

Ou seja, uma frase tão banal, tão cheia de clichês e estereótipos como “pessoa de bem”; “político honesto”; “político bandido”, etc., é compartilhada como se anunciasse uma grande novidade. É como se alguém enviasse um meme dizendo: “quando você obedece à lei, você não é um criminoso. Mas, se desobedecê-la, torna-se um infrator”.

Sem fugir muito do tema do presente artigo, menciono isso porque me incomoda o costume da direita e do senso comum (que para mim são a mesma coisa) de anunciar banalidades com verniz de grandes revelações. Foi assim, por exemplo, quando Samy Dana, o economista e comentarista da Jovem Pan, foi às redes sociais para explicar que a nova nota de R$ 200,00 lançada pelo governo poderia substituir duas de cem ou até mesmo quatro de cinquenta para fazer pagamentos (palmas irônicas!).

No caso do texto de Olavo, a postura é semelhante. Olavo tem todo o direito e a liberdade tanto para fazer um comentário sobre os escritos aristotélicos como também para, partindo dos pressupostos e da gramática aristotélica, compor um novo conjunto de ideias, um novo ferramental para interpretação da cultura ocidental, etc. Mas o ex-astrólogo não faz uma coisa nem outra. Seu texto sobre Aristóteles é, no máximo, uma proposta ordinária de catalogação das obras de Aristóteles, embora seu título o anuncie como o grande achado do milênio.

No fim, a “nova perspectiva” da obra aristotélica não é nada além de uma sugestão de como organizar livros de Aristóteles na estante de uma biblioteca para aqueles que eventualmente não concordam com a classificação já feita por Andronico de Rodes há mais de dois séculos.

Penso se já não estava no velho Olavo a mania de grandeza dessa corja que perturba o Brasil e que vai desde os chamados “tiozões do zapp”, sempre descobrindo algo extraordinário que ou é mentira ou não é nada tão extraordinário assim; até o próprio presidente da República que é um dos poucos escolhidos a conhecer a cura para a Covid; o perigo das vacinas; os segredos do BNDES, entre tantas outras alucinações.

*Flavio Gabriel Capinzaiki Ottonicar é doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

 

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