As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A antessala do golpe

Imagem: Plato Terentev
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por CARLA TEIXEIRA*

As eleições de 2022 estão apontando para reafirmar as nossa cultura política de conciliação/acomodação e personalismo

Dizem por aí que o PT quer imitar Jesus e fazer milagres. Cristo ressuscitou Lázaro de Betânia quatro dias depois de falecido. Lula afirmou que quer fazer mais e melhor, então decidiu ressuscitar Geraldo Alckmin de Pindamonhangaba para ser seu vice, um cadáver político malcheiroso que há quatro anos amargou 4% dos votos nas eleições presidenciais de 2018. Relembrar é viver: o ex-governador de São Paulo era o nome preferido da burguesia que, diante de seu desempenho eleitoral medíocre, acabou tapando o nariz e apoiando Bolsonaro.

Os adeptos dessa saída garantem que atrair integrantes da direita para a composição de chapa presidencial é essencial não apenas para derrotar o bolsonarismo, mas também o neoliberalismo implantado através do golpe de 2016. Alckmin seria o nome ideal por representar o tucanato social-democrata histórico e ter trânsito nos setores da direita (mercado financeiro, agronegócio e outros que exploram diuturnamente nossa terra e nosso povo). Seria uma reedição da “Carta aos brasileiros” sabor Picolé de Chuchu Paulista.

Para além da questão nacional, o quadro internacional nunca foi tão instável. A disputa instalada por Rússia e China contra a dominação imperialista estadunidense eleva os ânimos numa guerra fria que promete ser quente. Nesse contexto, a América Latina se torna alvo preferencial de dominação dos Estados Unidos, cujo atual presidente definiu a função ao afirmar que “Tudo ao sul do México é o nosso jardim”.

A essa altura dos acontecimentos, todos sabemos sobre o papel dos EUA na operação Lava Jato e na desestabilização que facilitou o golpe de 2016. O próprio Lula entendeu, após mais de 580 dias preso, que imperialismo não é palavrão de comunista, mas a ação contundente da dominação nociva e parasita de uma nação capitalista sobre o restante do mundo.

O Brasil, em específico, é alvo estratégico por se tratar do maior país da América Latina, o mais rico, o maior produtor de alimentos, com enorme capacidade energética, recursos hídricos e aquele que, se independente, poderia impulsionar a emancipação de todo o continente. Ao mesmo tempo em que faz acordo com a burguesia, Lula também promete retomar a Petrobrás e desfazer as reformas neoliberais que destruíram o emprego e a renda no Brasil. Conciliador e anti-imperialista.

Na economia, Lula vem costurando um quadro de mercado contando com um concerto de nações que certamente irão favorecer a recuperação do país arrasado pela destruição bolsonarista. Isso poderá alavancar a retomada em todo o continente, reforçada com o anúncio de que a Argentina pretende compor o banco dos BRICS enquanto o presidente da China afirmava que “As Malvinas são argentinas”. Em hipótese, a vitória de Lula significará não só o fortalecimento da América Latina soberana, mas o avanço da presença chinesa e russa no continente. E isso, não nos iludamos, o imperialismo não irá permitir tão fácil.

Nos anos 1970, Juscelino Kubitschek era uma das principais lideranças políticas e populares de seu tempo com condições de comandar um projeto de soberania para o Brasil. Como mostrou a Comissão da Verdade do Estado de S. Paulo e pesquisa conduzida pela USP, a ditadura militar, financiada pelos EUA, assassinou o ex-presidente JK através da Operação Para-Sar, Operação Condor e Operação Código 12 (código utilizado para eliminar oponentes fazendo parecer morte por acidente). Por que não fariam o mesmo de novo?

O ex-presidente e atual pré-candidato diz que dorme tranquilo, sem pensar nisso, mas todos nós temos a obrigação de pensar. O PT tem a obrigação de pensar. Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana, sofreu dezenas de atentados por parte da CIA. E se algo acontecer com Lula, é o Alckmin que assume? Ao assumir, ele vai manter a política anti-imperialista e anti-neoliberal ou se renderá às suas origens ideológicas de classe? É realmente seguro (política e fisicamente) para o presidente Lula ter na linha de sucessão o candidato dos sonhos daqueles que deram o golpe em 2016 e apoiaram sua prisão ilegal em 2018?

Há quem diga que considerar a ideia de que qualquer tragédia possa acontecer com Lula é trabalhar sobre o imponderável. Eu chamo de trabalhar a partir de fatos históricos que marcam e caracterizam a nossa construção cultural e sociopolítica ao longo dos séculos. As eleições de 2022 estão apontando para reafirmar as nossas culturas políticas de conciliação/acomodação e personalismo. A figura de Lula, central para a reconstrução do país, poderá também tornar-se um labirinto de onde as forças políticas de esquerda não saberão como sair em sua ausência.

Fato é que, sem Lula, não há qualquer possibilidade de vencer o golpe de 2016, cujo vice teve papel decisivo para o sucesso, e a agenda neoliberal implementada na sequência. A mobilização popular será essencial para desfazer as reformas, retomar as empresas estatais estratégicas e o investimento público. A reforma política, assim como a reforma do poder Judiciário, a redefinição do papel das Forças Armadas, a democratização da mídia e o fortalecimento das ações sociais do Estado são pontos fundamentais e complexos que não poderão ser resolvidos com aprovações de PECs.

No arranjo em curso, não se pode admitir que a vice-presidência da república se torne a antessala do golpe de Estado contra o projeto de emancipação do Brasil. As eleições de 2022 deverão ser o espaço de mobilização e de formação da consciência das massas sobre a necessidade de mudanças profundas e estruturais em nosso país.

Vencer em outubro poderá significar o primeiro passo rumo à porta de entrada que conduzirá a nação a uma Assembleia Nacional Constituinte – esta sim, verdadeiramente livre e exclusiva –, com o protagonismo do povo: nossa porta de saída para consolidar a democracia e a soberania do Brasil e de toda a América Latina.

*Carla Teixeira é doutoranda em história na UFMG.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Jorge Branco Ronaldo Tadeu de Souza Gerson Almeida Daniel Costa Luiz Bernardo Pericás José Micaelson Lacerda Morais Michael Löwy Manchetômetro Claudio Katz Bruno Fabricio Alcebino da Silva Renato Dagnino Tales Ab'Sáber Priscila Figueiredo Rafael R. Ioris Bernardo Ricupero Alexandre de Lima Castro Tranjan Sandra Bitencourt Valério Arcary Valerio Arcary Bento Prado Jr. Fábio Konder Comparato Jean Marc Von Der Weid Carlos Tautz Marcelo Módolo Luciano Nascimento Daniel Afonso da Silva Marilia Pacheco Fiorillo Vinício Carrilho Martinez Jean Pierre Chauvin José Costa Júnior Mário Maestri Igor Felippe Santos Antônio Sales Rios Neto José Luís Fiori Luís Fernando Vitagliano Fernando Nogueira da Costa Paulo Nogueira Batista Jr Paulo Martins Berenice Bento Flávio R. Kothe Anderson Alves Esteves Marcelo Guimarães Lima Remy José Fontana Kátia Gerab Baggio Alysson Leandro Mascaro Marilena Chauí Marjorie C. Marona André Márcio Neves Soares João Lanari Bo Bruno Machado Leda Maria Paulani Milton Pinheiro Eugênio Bucci Benicio Viero Schmidt Luiz Eduardo Soares Boaventura de Sousa Santos Dênis de Moraes Luis Felipe Miguel Julian Rodrigues Annateresa Fabris Jorge Luiz Souto Maior Slavoj Žižek Armando Boito André Singer Anselm Jappe João Feres Júnior Fernão Pessoa Ramos Sergio Amadeu da Silveira Samuel Kilsztajn Luiz Carlos Bresser-Pereira Denilson Cordeiro Luiz Roberto Alves Tadeu Valadares Ricardo Abramovay Marcos Aurélio da Silva Elias Jabbour Marcos Silva Tarso Genro Walnice Nogueira Galvão Henri Acselrad Chico Alencar Rubens Pinto Lyra Celso Frederico Luiz Marques Eliziário Andrade Luiz Costa Lima Francisco Fernandes Ladeira Paulo Capel Narvai Ricardo Fabbrini Gilberto Lopes Lincoln Secco José Dirceu Ari Marcelo Solon Ladislau Dowbor Osvaldo Coggiola Mariarosaria Fabris Leonardo Avritzer Gilberto Maringoni Caio Bugiato João Carlos Salles Ricardo Antunes Érico Andrade Juarez Guimarães João Paulo Ayub Fonseca Airton Paschoa Atilio A. Boron Antonio Martins Leonardo Boff Carla Teixeira Francisco de Oliveira Barros Júnior Ricardo Musse Otaviano Helene Francisco Pereira de Farias João Adolfo Hansen Roberto Noritomi Eleonora Albano Andrew Korybko Ronald Rocha Luiz Werneck Vianna Afrânio Catani Alexandre de Freitas Barbosa João Carlos Loebens Chico Whitaker Eleutério F. S. Prado Lorenzo Vitral Antonino Infranca Yuri Martins-Fontes Michael Roberts Gabriel Cohn Daniel Brazil Alexandre Aragão de Albuquerque Thomas Piketty Marcus Ianoni José Raimundo Trindade Heraldo Campos Lucas Fiaschetti Estevez Henry Burnett Luiz Renato Martins Eduardo Borges Plínio de Arruda Sampaio Jr. Salem Nasser José Machado Moita Neto Rodrigo de Faria Flávio Aguiar Vladimir Safatle Eugênio Trivinho Maria Rita Kehl Liszt Vieira Ronald León Núñez Everaldo de Oliveira Andrade Leonardo Sacramento Manuel Domingos Neto Paulo Sérgio Pinheiro João Sette Whitaker Ferreira José Geraldo Couto Roberto Bueno Vanderlei Tenório Paulo Fernandes Silveira Celso Favaretto Dennis Oliveira

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada