Os eufemismos históricos do Brasil

Imagem: Roman Ska
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Por MARCELO SANCHES

A “nação brasileira” é eufemismo que se reflete em uma Constituição frágil, que titubeia ao aplicar a lei. No fundo, sabe como a máquina funciona: a chegada justa no labirinto constitucional depende do poder de compra do réu

Toda manhã a esperança se renova: “será que prenderam Jair Bolsonaro?” Será que o Congresso resolveu cassar uma de suas crias, que está nos Estados Unidos pregando o golpe de Estado contra o próprio país? A justiça tarda, mas, dependendo de quem esteja no alvo, parece atrasar ainda mais.

A prisão preventiva domiciliar decretada por Alexandre de Moraes parece pouco. E é.

A extrema direita persiste após a balbúrdia civilizatória que rasga o céu do Brasil desde o golpe de 2016, chegando agora ao ponto de trocar a tímida soberania nacional pela anistia ao líder do golpismo que ainda nos ameaça. Eu não devia me surpreender com esses absurdos do triste espetáculo bolsonarista e sua realidade paralela, mas continuo indignado.

Dizem que vivemos numa ditadura. E, no entanto, falam o que querem, mentem descaradamente, ofendem adversários, ameaçam a justiça, protestam livremente pelas avenidas e redes sociais e ainda assim chamam isso de ditadura. A liberdade que defendem é aquela temida por Thomas Hobbes: não querem Estado, não querem limites institucionais que coíbam abusos, não querem punição para seu vandalismo. Querem “Deus acima de todos” – um Deus que permanece em silêncio e nunca impediu genocídios ou catástrofes humanas.

Recentemente, Alexandre de Moraes – um dos homens mais pressionados do planeta – determinou que o líder do bando ficasse em prisão domiciliar, após dois anos e meio de constantes ataques à nossa frágil democracia.

E se fosse alguém da esquerda? E se fosse um negro pobre insultando juízes? Será que também esperaríamos dois anos e meio?

O Brasil dos eufemismos

Tento buscar um ponto de vista para entender isso. O Brasil sempre foi apresentado nos livros escolares e nas antigas reportagens ufanistas como projeção idealizada: um sonho, um conjunto de palavras que nunca traduziu a realidade.

Quase tudo que se ensinou sobre o país é eufemismo: Libertação dos escravos (sem inclusão real); Proclamação da República (acordo de elites, sem participação popular); Democracia (profunda desigualdade); Justiça para todos (na prática, para quem pode pagar).

O bolsonarismo apenas radicaliza essa linguagem até o surrealismo: liberdade vira eufemismo para destruição da democracia e morte do outro. A invasão e depredação das sedes do poder republicano revelam a pulsão de negar a mediação democrática e restaurar uma ordem autoritária imaginária.

Historicamente, as elites e setores médios do país reagiram com violência sempre que houve mínima inclusão dos excluídos – seja por programas sociais ou pela garantia de direitos às minorias identitárias. O bolsonarismo repete esse gesto com agressividade extrema.

O feudo brasileiro

Temo o dia em que o Brasil, sem eufemismos, será traduzido fielmente como o que é: um feudo controlado por grupos financeiros, grandes conglomerados de mídia e pelo agronegócio – todos interessados em manter seus lucros intocados. O resto da população é apenas mão de obra barata ou consumidor eventual, quando sobra algum dinheiro.

Para essa gente, soberania é papo de “esquerdista” ou de sonhador.

Como diz Tales Ab’Sáber, vivemos o “não pensamento”: a classe dirigente brasileira nunca olhou para o país que queria nascer, nunca reconheceu suas práticas culturais e jamais concedeu educação básica para que o povo entendesse seu papel histórico. O que sempre se ouviu foi: “ponha-se no seu lugar” – e isso eclipsou a subjetividade popular.

Talvez o Brasil nunca tenha nascido de fato. Nossa história é marcada por golpes de Estado sempre que governos desenvolvimentistas chegam ao poder. Alguém sempre bate na barriga da mãe antes que a criança-Brasil veja a luz do dia.

Adotamos o capitalismo pela metade, sem romper com o passado colonial e racista. Como apontaram Celso Furtado e Ruy Mauro Marini, industrializamo-nos parcialmente, mantendo a subordinação tecnológica às potências centrais. A elite combate o comunismo, mas jamais permitiu que o ciclo capitalista se completasse aqui.

Que tipo de “corpo-mãe” poderia parir o Brasil que sonhamos? Um grupo de interesses restritos, com fome insaciável de lucro e tino comercial desumano?

Não.

E, hoje, esses mesmos grupos – partidos políticos e parte significativa da mídia – aceitam eleger uma família de milicianos para dirigir o país, desde que seus negócios sigam intocados.

O bolsonarismo foi acolhido como arma radical dessa minoria endinheirada, quando ela perdeu o apoio do direitismo elitista do PSDB: quem não tem raposas, caça com ratos.

Nos países centrais, a extrema direita é nacionalista: combate o estrangeiro. No Brasil, o alvo é interno – os que sonham com um país progressista, independente, onde caibam negros, indígenas e demais identidades. Aqui, as Forças Armadas são treinadas para combater os próprios brasileiros.

O neoliberalismo agravou a falta de coesão nacional. O Brasil é formado por células individualistas, sem metas coletivas. Caetano Veloso e Gilberto Gil resumiram: aqui tudo ainda é construção, mas já é ruína.

Não formamos cidadãos conscientes, mas um híbrido estranho: parte consumidor, parte sobrevivente, sem identidade comum. Quem ascende socialmente procura esquecer as origens humildes. O hino nas escolas nunca construiu sentimento de nação, apenas obrigação formal. Ninguém herdou o imaginário de uma terra conquistada por lutas coletivas — apenas disputas de classe.

A camisa amarela dos protestos de 2014 foi mais um eufemismo: representava um Brasil que se sentia ameaçado por outro Brasil.

Dois pesos, duas medidas

A corrupção sempre foi endêmica, mas só vira escândalo quando associada ao campo progressista. Michel Temer e Aécio Neves, flagrados em gravações, foram poupados – Temer solto em um dia, Aécio aconselhado a sumir por um tempo. Já Lula passou quase 600 dias preso com base em “atos indeterminados”. Quantos “Brasis” coexistem nesse parágrafo?

A família Bolsonaro, iletrada mas astuta, cresceu no pântano do baixo clero e sabe onde pisa. Sabe que pode até brandir bandeiras americanas e defender interesses estrangeiros – porque o Brasil nunca se reconheceu como nação una.

A “nação brasileira” é eufemismo que se reflete em uma Constituição frágil, que titubeia ao aplicar a lei. No fundo, sabe como a máquina funciona: a chegada justa no labirinto constitucional depende do poder de compra do réu.

Onde está Fernando Collor hoje? Certamente não divide cela com negros e pobres. Os Bolsonaros sabem disso — e dobram a aposta. Para onde vamos? Só Deus sabe. E, convenhamos, este também é um eufemismo para o caos.

*Marcelo Sanches é músico, graduado em sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).


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