Os evangelhos – uma tradução

El Lissitzky, Record, 1926

Por JOÃO ANGELO OLIVA NETO*

Prefácio à nova versão, recém lançada, dos quatro evangelhos por Marcelo Musa Cavallari

Há várias boas razões para ler os Evangelhos e decerto algumas serão mais importantes que outras segundo o interesse de cada leitor. Mas independentes da maior importância que tenham, algumas razões se manifestam antes, e a primeira é a construção do texto, é a linguagem das narrativas, que é justo o que a tradução de Marcelo Musa Cavallari alcançou trazer-nos.

E porque se consideraram mais importantes outras razões de ler os Evangelhos (podem ter sido), é que seu caráter literário não foi bem percebido: os fins sobrepuseram-se aos meios; os usos e as práticas obliteraram a letra, a literariedade dos Evangelhos, e o que era primeiro passou a ser último. Os Evangelhos são literários porque foram compostos com deliberado agenciamento formal para ser instigantes à curiosidade, para ser comoventes aos afetos e para ser edificantes à consciência, ainda que às vezes sejam estranhos.

Como foram escritos em grego no século I em território já helenizado que então se romanizava, cabe indagar a que gênero antigo pertencem. Mas a pergunta não deve ser: “A que gênero antigo pertencem os Evangelhos?”, porque nesses termos a pergunta já terá sido respondida, o que em nada a abona, nem a ela nem ao indagador. A pergunta é: “A que gênero pertencem os relatos de Lucas, Mateus, Marcos e João?” E a resposta é simples: “evangelho”.

Se assim é, do gênero “evangelho” há só quatro exemplos, só há quatro praticantes, só quatro autores: Mateus, Marcos, Lucas e João. Se se entender, entretanto, que todos são uma só narrativa (porque só há um protagonista, que é Jesus) e que os narradores dão cada um sua perspectiva dos momentos finais da vida de Cristo (segundo Lucas, segundo Mateus etc.), então o Evangelho é exemplar único de gênero único, e assim ele é sui generis. Ora, tal unicidade como estratégia narrativa é de todo adequada à condição do próprio Cristo, o filho unigênito de Deus.

Tenha o leitor em mente que a narração da vida e da morte de uma personagem a tal ponto singular requereu uma linguagem e uma forma narrativa, bem entendido, um “gênero” também ele inaudito, novo e, portanto, singular, a que se chamou “evangelho”. Talvez entendamos melhor o alcance de tal singularidade, se compararmos os Evangelhos com os gêneros antigos com os quais guarda semelhança.

Escritos em prosa, narram todos a vida de Jesus, mas não narram a vida inteira, senão aquilo que é mais significativo em vista do fim, quero dizer, da finalidade e culminância da própria narrativa. Apenas Mateus e Lucas narram a infância de Jesus, mas todos relatam o sofrimento (a paixão), a morte e a ressurreição. Contêm todos passagens da vida de Jesus em que se narram seus milagres e igualmente em todos se encontram ditos de Jesus, isto é, suas próprias palavras.

Em todos os quatro Evangelhos consta que Jesus é herdeiro e continuador do que se narra no Velho Testamento e em todos ele é filho de Deus. Pois bem, o gênero antigo que mais se aproxima dos Evangelhos talvez seja o que os gregos e depois os romanos chamavam “vida” (bíos, em grego, e em latim, vita), a que chamamos “biografia”. Para ser filologicamente mais preciso, o melhor é dizer que “vida” é uma das várias espécies ou subgêneros do amplo gênero antigo hoje chamado “História” ou “Historiografia”, e nela narram-se as ações mais importantes da vida de alguém para que se conheça seu caráter.

Se caráter e ações forem virtuosos, persuade-se o leitor a imitá-los; se forem viciosos, o leitor é dissuadido da imitação. Ademais, a bem dizer, no relato de Mateus lemos a genealogia de Jesus. Ora, “genealogia” era a narrativa antiga em que se indicava a descendência de uma pessoa; tendo perdido, por assim dizer, sua independência, genealogia acabou por tornar-se parte de outras espécies historiográficas na Grécia dos séculos vi-v a.C. Assim também, em várias dessas espécies comparecem os discursos, “as próprias palavras” que as personagens principais teriam proferido, aos quais se poderiam comparar os ditos de Jesus. De resto, a espécie historiográfica “vida”, que aqui nos importa, foi de sobejo praticada e afamada, entre outros, por autores gregos e romanos, como Plutarco e Cornélio Nepos, que narraram inúmeras vidas de generais gregos e romanos, e como Suetônio, que narrou a Vida dos Césares, e as semelhanças terminam aqui.

O próprio título de qualquer um desses exemplos revela a um tempo tratar-se da espécie “vida” e da personagem cuja vida merece narrar-se. Mas não é assim com os Evangelhos, em que se encarece no simples termo euangélion, “bom anúncio”, já não apenas tratar-se de uma personagem, única, que é Cristo, senão também que é filho do Deus de Abraão, cujas ações já se haviam narrado em outros livros (que são hoje nosso Antigo Testamento), que eram sagrados!

Para a perspectiva dos gregos do século I os livros do Antigo Testamento seriam como as cosmogonias que eles mesmos possuíam, seriam como os poemas, já então muito antigos, como de Hesíodo e outros, aos quais, todavia, surpreendentemente se articulam agora quatro narrativas “históricas” em prosa, que lhes dão continuidade! Isto é novo!

Dizer que os Evangelhos “narram a vida de Jesus” pode ser verdadeiro, mas, conforme vimos, não é toda a verdade. Nenhum dos autores revela em explícitos termos que gênero estão a praticar, nem poderiam fazê-lo, pois, se o fizessem, sua narrativa seria apenas mais uma num gênero já conhecido e sua personagem “Jesus” seria só mais uma, decerto notável, mas só mais um caso no meio de outros tantos. Se o fizessem, sua narrativa não estaria à altura da singularidade de Jesus Cristo e, à guisa de testemunho, a narrativa não cumpriria seus fins.

Os gêneros narrativos são possibilidades discursivas com inerentes estratégias, e entre os gêneros então disponíveis no século i não havia nenhum de todo apto para narrar a vida, a paixão e a morte de Cristo: foi necessário inventá-lo. Inventou-se, pois, uma forma, uma estratégia narrativa, ou seja, um gênero apto a uma matéria toda nova, e nessa dimensão compositiva os Evangelhos já não são só literários, mas são também poéticos.

Saiba, portanto, o leitor que muito da estranheza que perceber nesta tradução é de natureza poética, porque se deve ao efeito de estranha novidade adrede produzido não apenas pela “informação” de que este Cristo, que está agora entre os homens, é filho do Deus do Antigo Testamento, senão também pela maneira como a informação é transmitida: a adequação, a conveniência entre “informação” (a matéria) e a “maneira de informar” (o gênero) é tamanha, que ambas são designadas pelo mesmo termo grego euangélion, perfeita unicidade: o que é dito e o como se diz são uma só e mesma coisa.

Em outras palavras, em vista da novidade dos fatos, a estranheza da linguagem e da tradução não é defeito, mas virtude. Como a linguagem não é de todo estranha, pois que é semelhante a outros gêneros, o leitor ou ouvinte primeiro concede-lhe atenção e vem a perceber em seguida que a novidade das coisas do mundo está presente na própria narrativa que agora ouve ou lê.

Outra razão do caráter poético dos Evangelhos, concernente justo ao mérito da tradução que ora se apresenta, é a concretude da linguagem, bem entendida, a materialidade objetiva, capaz de pôr diante dos ouvidos ou dos olhos do público a cena que se desenrola. Tomemos como exemplo a cena do Evangelho Segundo Mateus em que João, com os pés no rio Jordão, diz a uma das pessoas decididas a converter-se: “Egò mèn humâs baptízo en húdati eis matánoian”, cuja tradução é: “Eu vos mergulho em água para mudança de mente”.

Pois bem, o que ocorre é que João, tendo apoiado as mãos na cabeça de alguém decidido a converter-se, de fato o mergulha nas águas do rio, espetacularmente dramatizando com o gesto a mudança de pensamento, ou de crença, ou de ideia, enfim, a mudança da completa perspectiva mental com que o sujeito passará a relacionar-se com o mundo.

Ora, “mergulho” em grego se diz baptízo, e o verbo aplica-se a qualquer ato ordinário e trivial em que alguém se mergulha a si mesmo, ou a outrem, ou a algo em quaisquer águas. Sabe-se bem que, baptízo por intermédio do latim veio a dar “batizo” em português, de modo que não se pode afirmar ser erro assim traduzir o termo. Contudo, segundo a proposta tradutória de Marcelo Musa Cavallari, que poderia dizer-se “sincrônica” ou “temporânea”, a tradução por “batizar” seria inexata porque é anacrônica ou extemporânea, pois que o “batismo” como instituição ainda não tinha ganhado sua consumada existência tal como hoje conhecemos.

Antes, estava como que surgindo justamente naquele ato e é bem a contemporaneidade e a diretíssima concretude do ato de mergulhar (materializada diante de nossos olhos quando ouvimos ou lemos a palavra “mergulho”), que se perde com o emprego de “batizo”, que com indevida antecipação nos apresenta o resultado futuro daquele ato singular e concreto. É bem a trivialidade do termo e a trivialidade de qualquer mergulhar que dão àquele singular “mergulho para a mudança de mente” a sua significação mais radical. O que vale para o verbo baptízo valha para outros termos que o leitor encontre.

Inventar um meio de relatar a vida e a morte do estranho Deus que Cristo é, nada obstante a humildade do Deus e dos ouvintes ou leitores (ou quem sabe por causa dela mesma), não há de ter sido fácil tarefa. O que havia de extraordinário nos eventos engendrou um novo gênero, um novo discurso, cuja novidade, que é literária e é poética, só pode ser percebida hoje se o leitor, qualquer leitor, judeu ou gentio, cristão ou pagão, mentalmente se despojar dos fatos que já sabe ou que pensa saber e se fizer contemporâneo à narração dos eventos para conhecê-las e experimentá-las em seu devir.

Sinta-se convidado o leitor a pôr de lado o que sabe da vida de Jesus Cristo para ir conhecendo-a, no primeiro Evangelho que ler, a partir do desconhecimento absoluto e deixar-se informar do que lhe for sendo sucessivamente informado, incluindo as diferentes versões dos outros Evangelhos que ler depois, para atinar com a dimensão mais aguda do sofrimento, da traição, mas também da compaixão que passo a passo (e não desde sempre) Jesus vai sabendo que há de padecer. É mister a leitura assim temporânea, para perceber humanidade do Deus homem que segundo os Evangelhos Jesus Cristo foi.

*João Angelo Oliva Neto é professor de Letras Clássicas na USP. Organizou e traduziu, entre outros, O livro de Catulo(Edusp).

Referência


Os evangelhos – uma tradução. Tradução, apresentação e notas: Marcelo Musa Cavallari. Cotia / Araçoiaba da Serra, Ateliê / Mnema, 2020, 512 págs.