Karl Marx, por José Paulo Netto

Hans Hofmann, Sem título, Renate Series, Óleo sobre tela. 121,9 x 91,4 cm, 1965.

Por JOÃO ANTONIO DE PAULA*

“Apresentação” da recém-lançada biografia de Marx.

Para avaliar a importância e o significado da biografia de Karl Marx que nos dá José Paulo Netto, não será ocioso lembrar as vicissitudes da recepção do marxismo no Brasil. É pelo contraste, pelo cotejo, entre os primeiros e precários tempos de marxismo entre nós e a excepcional qualidade do texto de José Paulo Netto que, ainda mais, se realça o grande livro que se está apresentando. Afinal, não é trivial que, aqui, nestes hoje muito tristes trópicos, venha à luz uma extraordinária biografia de um autor superlativamente estudado.

Entre os muitos méritos do livro de José Paulo Netto, não é de menor monta o duplo desafio que ele enfrentou e superou, a saber: de um lado, não ter incorrido numa sorte de literatura hagiográfica, panegírica e rebarbativa, e, de outro lado, tendo posição firme e consolidada sobre o tema, isto é, sendo “um marxista impenitente”, como ele mesmo se define, ter sabido evitar sectarismos e disputas menores em nome da justa construção da biografia – e, por que não dizê-lo, para fazer jus ao seu notável biografado.

Os que se propõem a contribuir para a plena emancipação humana, para a realização da liberdade e da igualdade, reconhecem em Marx um pensador indispensável para a construção da humanidade humana, para a superação da vida danificada, para todos. Jean-Paul Sartre disse, sobre isso, algo como “o marxismo é a filosofia insuperável do nosso tempo”; antes de querer atribuir ao marxismo a perfeita impossibilidade de tudo explicar, a frase afirma sua inexcedível centralidade como instrumento decisivo na permanente busca tanto de compreender o capitalismo quanto de contribuir para a sua superação.

Pensar o marxismo como realidade monolítica, homogênea, perfeitamente pronta e acabada, contudo, está longe de expressá-lo no que ele tem de melhor.

Tome-se, ao acaso, um balanço parcial dos marxismos, publicado em 1974 por J.-B. Fages: Introduction à la diversité des marxismes (Fages, 1974) [Introdução à diversidade dos marxismos]. Nele são discutidos movimentos e interpretações inspirados em Marx, em que aparecem, na perspectiva do autor: Lênin e a iniciativa revolucionária; Trótski e a revolução internacional; Stálin e o sistema burocrático; Rosa Luxemburgo e a paixão revolucionária; Lukács e a revolução cultural; Pannekoek e a ultraesquerda; Otto Bauer e a revolução lenta; Gramsci e o humanismo revolucionário; Wilhelm Reich e o freudomarxismo; Lefebvre e a renovação crítica; Althusser e a nova leitura de Marx; Mao Tsé-tung e a refundação do homem  Apesar de ampla, a listagem reportada omitiu vários nomes e tendências, como a Escola de Frankfurt e os marxistas da época da Segunda Internacional: Kautsky, Bernstein, Plekhánov, Labriola. De resto, à lista deveriam ser acrescidas outras correntes, como o marxismo analítico anglo-saxão, o marxismo italiano, inspirado em Galvano della Volpe, o marxismo latino-americano, o marxismo japonês, entre outros.

Não se está cobrando de Fages o que ele não buscou fazer, uma análise exaustiva dos marxismos. Sua estratégia, reunir grandes nomes e visões do pensamento de Marx, tomados como conformadores de tendências, de correntes, de escolas, não elimina uma questão importante e remanescente: o fato de existirem diferenças marcantes, às vezes inconciliáveis, entre os que se reclamam e se reclamaram, legítima ou ilegitimamente, marxistas. De todo modo – e é algo que espero que tenhamos aprendido –, divergências quanto à interpretação da obra de Marx-Engels ou quanto à aplicação política de suas ideias não têm aferição universal e infalível, não tem uma instância recursal absoluta capaz de estabelecer juízo irrecorrível sobre as divergências, seja pela mobilização de argumentos de auto-atribuída autoridade, seja pela força da violência e da interdição. Logo, os marxismos estão condenados à pluralidade, e é preciso que vejamos nisso não uma fonte de problemas, mas um patrimônio a ser valorizado.

Nesse sentido, é com alegria que se confirma, com o livro de José Paulo Netto, a significativa força e maturidade dos marxismos no Brasil. Não é o caso, nesta apresentação, de estabelecer distinção entre marxismo, marxologia e marxianismo. É da ordem da honestidade intelectual e da boa prática historiográfica buscar entender autores, obras, ideias e movimentos em seus contextos, em suas possibilidades, evitando-se anacronismos que, em alguns casos, além de despropositados, traem preconceitos e sectarismos.

O biógrafo de Marx

José Paulo Netto nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1947. Tal fato, ter nascido naquela cidade, não pode passar despercebido. É que Juiz de Fora deu à cultura brasileira, entre outros nomes significativos, dois que se destacam. Murilo Mendes, nascido em 1901, é não só dos maiores poetas brasileiros, mas, certamente, aquele mais sintonizado a uma poética visionária, surreal e disruptiva, que, em sucessivas camadas e tensões, é também erótica, libertária e mística. O outro nome que se quer destacar é o de Pedro Nava, nascido em 1903, que, tendo importante carreira como médico e pesquisador, mostrou invulgar talento como artista plástico e poeta, sendo consagrado, a partir da década de 1970, não só como um dos maiores memorialistas brasileiros, mas também um dos mais renomados prosadores de nossa literatura.

Não sei se José Paulo Netto, homem que correu o mundo, “Oropa, França e Bahia”, e muito a Latinoamérica, levou para os rios que conheceu a saudação que Murilo Mendes dirigia a todo rio que via: “O Paraibuna te saúda”. Não sei se José Paulo Netto se vê, como Pedro Nava, como um “pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”. O que sei é que os três merecem, de todos os que se recusam a aceitar a vida danificada, a mesma admiração e o mesmo respeito.

Bacharel em serviço social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1969, José Paulo realizou estudos universitários em letras neolatinas naquela mesma universidade, entre 1970 e 1973, e cursou teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo, entre 1980 e 1981. Obteve doutorado em serviço social pela Pontifícia Universidade de São Paulo, em serviço social, em 1990. Desenvolveu intensa atividade como professor, no Brasil e no estrangeiro, lecionando em instituições de ensino superior em Juiz de Fora, São Paulo, Pernambuco, Santos, Rio de Janeiro, Piauí, Rio Grande do Sul, Maranhão, Paraná, Amazonas, Brasília, Santa Catarina, Lisboa (Portugal), La Plata (Argentina) e Montevidéu (Uruguai).

Ao lado da atuação docente, foi igualmente intensa a sua participação em órgãos e políticas voltados à formação político-profissional da comunidade do serviço social, na qual é reconhecido como uma das mais marcantes referências, tanto pelo amplo e diversificado saber quanto pela firme, lúcida e combativa atuação.

Militante do PCB desde a juventude, chegou à direção do Partido tendo enfrentado as duras condições do trabalho clandestino e da permanente repressão que a ditadura militar no Brasil moveu contra as organizações de esquerda. Ligado à geração de jovens militantes comunistas responsáveis pela superação da herança stalinista no PCB – a geração de Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Luiz Werneck Vianna, entre outros nomes –, José Paulo Netto viveu, com dignidade e coragem, o inerente à atividade política permanentemente ameaçada pela prisão, pela tortura, pela morte nas mãos da repressão. Tanto quanto outros militantes que buscaram o melhor da lição marxista, José Paulo combinou a teoria à prática; as altas abstrações teórico-filosóficas ao trabalho cotidiano de propaganda, de organização, de mobilização, de direção política das lutas; dedicou-se tanto ao estudo do marxismo quanto à teoria e à história das revoluções, não descurando da compreensão do Brasil em sua desconcertante complexidade.

Tais interesses e motivações estão permanentemente representados nos temas a que se dedicou e sobre os quais produziu muitos e significativos trabalhos. Com alguma arbitrariedade, é possível identificar quatro grandes blocos temáticos na produção intelectual de José Paulo Netto, a saber: I) questões referentes ao serviço social; II) questões referentes ao Brasil e à crise capitalista; III) questões referentes à obra de Lukács; IV) questões referentes ao pensamento de Marx e ao marxismo. A listagem que segue não tem pretensão de ser exaustiva, senão que busca organizar parte significativa da produção intelectual do autor.

I – Serviço social

(1) Notas sobre marxismo e serviço social, suas relações no Brasil e a questão do seu ensino. Cadernos Abess. São Paulo, Cortez/Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social, no. 4, maio 1991, p. 76-95.

(2) Ditadura e serviço social. São Paulo, Cortez, 1991.

(3) Capitalismo monopolista e serviço social. São Paulo, Cortez, 1992.

II – O Brasil e a crise capitalista

(1) Notas sobre democracia e transição socialista. Temas de Ciências Humanas. São Paulo, Ciências Humanas, n. 3, 1979, p. 31-66.

(2) Capitalismo e reificação. São Paulo, Ciências Humanas, 1981.

(3) Respostas à Presença. Presença. Revista de Política e Cultura. Rio de Janeiro, no. 10, jul. 1987, p. 60-9.

(4) Democracia e transição socialista. Ensaios de teoria e política. Belo Horizonte,Oficina de Livros, 1990.

(5) Crise do socialismo e ofensiva neoliberal. São Paulo, Cortez, 1993.

(6) Cinco notas a propósito da questão social. Temporalis. Revista da Abeps. Brasília, Abeps, n. 3, jan.-jun. 2001, p. 41-9.

(7) Uma face contemporânea da barbárie. Novos Rumos. Marília, Unesp, v. 50, no. 1, jan.-jun. 2013, p. 12-51.

(8) Pequena história da ditadura brasileira (1964-1985). São Paulo, Cortez, 2014.

III –  Lukács

(1)  Depois do modernismo. In: COUTINHO, Carlos Nelson et al. (orgs.) Realismo & anti-realismo na literatura brasileira. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974, p. 105-38.

(2) Possibilidades estéticas em História e consciência de classe. Temas de Ciências Humanas. São Paulo, Ciências Humanas, no. 3, 1978, p. 61-78.

(3) Das obras de juventude de G. Lukács. Encontros com a Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, no. 3, set. 1978, p. 225-51.

(4) Lukács e a problemática cultural da era stalinista. Temas de Ciências Humanas. São Paulo, Ciências Humanas, no. 5, 1979, p. 17-53.

(5) Lukács, o guerreiro sem repouso. São Paulo, Brasiliense, 1983.

(6) Organização de Lukács: sociologia. São Paulo, Ática, 1992, coleção Grandes Cientistas Sociais.

(7) Georg Lukács: um exílio na pós-modernidade. In: PINASSI, Maria Orlanda; LESSA, Sérgio (orgs.). Lukács e a atualidade do marxismo. São Paulo, Boitempo, 2002, p. 77-101.

(8) Organização, apresentação e tradução de LUKÁCS, Györg. O jovem Marx e outros escritos de filosofia. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2007 (em parceria com Carlos Nelson Coutinho).

(9) Organização, introdução e tradução de LUKÁCS, Györg. Socialismo e democratização. Escritos políticos (1956-1971). Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2008 (em parceria com Carlos Nelson Coutinho).

(10) Organização, introdução e tradução de LUKÁCS, Györg. Arte e sociedade. Escritos estéticos (1932-1967). Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2009 (em parceria com Carlos Nelson Coutinho).

(11) Revisão técnica e notas da edição de LUKÁCS, Györg. Marx e Engels como historiadores da literatura. São Paulo, Boitempo, 2016, coleção Biblioteca Lukács (em parceria com Ronaldo Vielmi Fortes).

(12) Revisão técnica e notas da edição de LUKÁCS, Györg. O jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista. São Paulo, Boitempo, 2018, coleção Biblioteca Lukács (em parceria com Ronaldo Vielmi Fortes).

IV – Pensamento de Marx e marxismo

(1) Organização de Engels: política. São Paulo, Ática, 1981, coleção Grandes Cientistas Sociais.

(2) Organização de Stálin: política. São Paulo, Ática, 1982, coleção Grandes Cientistas S

(3) A propósito da Crítica de 1843. Nova Escrita Ensaio. São Paulo, 1983, p. 177-96.

(4) O Marx de Souza Santos. Uma nota polêmica. Praia Vermelha. Estudos de Política e Teoria Social. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, vol. 1, no. 1, 1997, p. 123-43.

(5) Edição e prólogo de MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo, Cortez, 1998.

(6) Marxismo impenitente. Contribuição à história das ideias marxistas. São Paulo, Cortez, 2004.

(8) Economia política. Uma introdução crítica. São Paulo, Cortez, 2007 (em parceria com Marcelo Braz).

(9) Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo, Expressão Popular, 2011.

(10) Organização e introdução de O leitor de Marx. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012.

(11) Nota sobre o marxismo na América Latina. Novos Temas. Revista do Instituto Caio Prado Jr. Salvador/São Paulo, Quarteto/ICP, n. 5/6, 2012, p. 43-60.

(12) Breve nota sobre um marxista convicto e confesso. In: BRAZ, Marcelo (org.). Carlos Nelson Coutinho e a renovação do marxismo no Brasil. São Paulo, Expressão Popular, 2012, p. 51-84.

(13) Carlos Nelson Coutinho. Em Pauta. Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Editora da Uerj, v. 10, no.29, 2012, p. 181-4.

(14) Cotidiano: conhecimento e crítica. 10. ed. São Paulo, Cortez, 2012 (em parceria com Maria do Carmo Brant de Carvalho).

(15) Tradução e apresentação de MARX, Karl. Cadernos de Paris & Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. São Paulo, Expressão Popular, 2015.

(16) Tradução e apresentação de MARX, Karl. Miséria da filosofia. São Paulo, Boitempo, 2017.

Intelectual, militante e professor, José Paulo Netto tanto tem recebido merecido reconhecimento acadêmico (doutor honoris causa pela Universidad Nacional del Centro de la Província de Buenos Aires e pela Universidade Lusíada de Lisboa) como tem se dedicado à formação político-cultural de lutadores sociais no Brasil, como na função de professor da Escola Nacional Florestan Fernandes, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Em 2017, ao completar setenta anos, foi homenageado com o livro José Paulo Netto. Ensaios de um marxista sem repouso, organizado pelo professor Marcelo Braz, da UFRJ, e apresentado pela professora Elaine Rossetti Behring, da Uerj, que diz: “Estes textos, até então dispersos em várias fontes, revelam, em cada linha, sua conexão com a história e a preocupação em compreender o contexto das lutas de classes, seja em análises mais gerais sobre a dinâmica contemporânea do capitalismo, seja de processos revolucionários particulares, seja acerca do Serviço Social, seja enfim da tradição marxista internacional e latino-americana”. (Behring, em Braz, org., 2017).

Solidário, generoso, leal e desprovido das pequenas e grandes doenças da alma que são a matéria da mediocridade e da mesquinharia, José Paulo Netto é bem a síntese de íntegra saúde moral e viva inteligência para a emancipação humana. Na espécie de prefácio da biografia que se vai ler, ele diz que toda a sua vida, desde o início dos anos 1960, foi como que uma lenta preparação para o que, agora, se realiza: uma efetiva biografia de Marx (e, em parte, de Engels), escrita com escrúpulos e funda mobilização de profusas fontes, acreditadas e atualizadas.

A biografia de Marx

Entre as biografias de Karl Marx, há as que buscaram fixar, sobretudo, a vida intelectual do alemão; é o caso de Karl Marx. Essai de biographie intellectuelle (Karl Marx. Ensaio de biografia intelectual), tese de doutorado defendida por Maximilien Rubel na Universidade Sorbonne, em 1954; é o caso também do livro de Armando Plebe publicado originalmente em italiano, em 1973, com o título Che cosa ha veramente detto Marx (O que de fato disse Marx).

“Quando de sua morte, em 1883, Karl Marx já era nome conhecido na Europa em variados meios. Mesmo muitos dos que se opunham às suas ideias não podiam ignorá-lo; outros, ainda, temiam-no, chamando-o “doutor terrorista vermelho”. Essa relativamente ampla presença de Marx (não só na Europa) afirmou-se, sobretudo, depois da Comuna de Paris, em 1871, quando seu nome foi associado àquele “assalto ao céu” que levou pânico às classes dominantes do mundo inteiro. Os três escritos de Marx sobre a Comuna – depois enfeixados em livro, A guerra civil na França – são uma raríssima combinação de análise criteriosa, lúcida e solidária, em que o exemplo heroico e generoso dos que diziam “estar ali pela humanidade” foi visto em sua grandeza e em suas limitações”.

“Em 1871, os 3 mil exemplares da primeira edição do Livro I de O capital, que saíra em 1867, ainda não haviam sido vendidos. Após a Comuna, a tiragem foi rapidamente esgotada, o que levou Marx a preparar, em 1872, uma segunda edição, com modificações substantivas, fazendo dessa versão o texto a ser considerado como definitivo do Livro I de O capital (Scaron, 1977). Também em 1872 foi lançada a tradução russa do Livro I e teve início a edição, em fascículos, da tradução francesa, finalizada em 1875. Completamente identificado com a construção do socialismo, com a revolução, o pensamento de Marx motivou manifestações de grandes nomes do pensamento burguês, como Eugen Bohm-Bawerk, Vilfredo Pareto, Max Weber, Benedetto Croce e Joseph Schumpeter. Eles estudaram-no, sendo que entre eles houve quem reconhecesse os inegáveis méritos analíticos, a prosa vigorosa e a espantosa erudição de Marx”.

O texto acima, que apresenta a coletânea Karl Marx. Homme, penseur et révolutionnaire [Karl Marx. Homem, pensador e revolucionário], David Riazanov, organizador da obra, diz sobre Marx: “Dificilmente existirá na história mundial outra figura que reúna, em uma uni- dade harmoniosa e genial, a concentração de pensamento teórico sobre a com- preensão do mundo burguês, a fome inextinguível de superar esta forma de exploração do homem pelo homem, a permanente aspiração a destruir este mundo de exploração mediante a sua transformação revolucionária de alto a baixo”. (Riazanov, 1928, p. 7).

Nesse volume, Riazanov reuniu as primeiras tentativas de biografia de Marx, respectivamente: um texto sobre Marx escrito por Engels para o Almanaque Popular, de W. Brocke, de 1878; uma carta de Engels a Friedrich Sorge, de 15 de março de 1883, sobre a morte de Marx; o discurso de Engels à beira da tumba do amigo, de 17 de março de 1883; um texto de Eleanor Marx, filha de Karl, cujo título é “Karl Marx”. Além desses, o livro ainda traz outros textos que buscam fixar a imagem de Marx: de Plekhánov, Mehring, Luxemburgo, Lafargue, Lênin, Lessner, Wilhelm Liebknecht. Entre as primeiras tentativas, ainda válidas, de biografia de Marx, não se pode omitir a de Franz Mehring, de 1918, que, entre outros méritos, recebeu a explícita aprovação de Laura Lafargue, filha do biografado, de Rosa Luxemburgo e de Clara Zetkin, e buscou mostrar um Marx em tudo divergente “do mocinho modelo aborrecido venerado pelos sacerdotes do marxismo” (Mehring, 1965, p. 10).

Alguns dos primeiros trabalhos biográficos sobre Marx têm o privilégio de terem sido escritos por pessoas que de fato o conheceram, ou que privaram com conhecidos dele. Por outro lado, as primeiras biografias – lançadas antes do início do projeto da primeira Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA), dirigida por Riazanov a partir de 1927 – foram prejudicadas pelo desconhecimento de parte considerável da obra de Marx e de sua correspondência. Embora esse seja um problema objetivo que acabou por comprometer várias biografias antigas de Marx, obras contemporâneas, que tiveram acesso a muito do que foi publicado sobre o alemão a partir do projeto MEGA 2, padecem de outros (e, talvez, mais sérios) defeitos, que decorrem de interpretações perfeitamente equivocadas. Tome-se o livro de Jonathan Sperber, que escreveu uma copiosa biografia de Marx para concluir que ele era, na verdade, um autor do século XIX; ou seja, um historiador-economista-sociólogo da Inglaterra vitoriana (Sperber, 2014).

Não é o caso de fazer, aqui, a crítica dessa platitude. A biografia de Marx escrita por Boris Nicolaievsky e Otto Maenchen-Helfen na década de 1930 argumenta que Marx, depois de 1873, teria sido acometido de progressiva incapacidade para o trabalho, cuja consequência maior teria sido a interrupção da conclusão dos livros II e III de O capital, por “paralisia de sua força criativa” (Nicolaievsky e Maenchen-Helfen, 1970, p. 417).

Com efeito, essa tese, além de factualmente falsa – pois Marx manteve permanente e vigorosa atividade intelectual até pelo menos 1881 –, ainda ensejou outras igualmente equivocadas interpretações, como a de José Arthur Giannotti, que viu na “paralisia das forças criativas de Marx” a explicitação de um impasse: “Há indícios de que Marx chegara a um impasse teórico, pois a análise da gramática do capital caminhava num sentido que o obrigaria a rever sua antiga ideia de Revolução” (Giannotti, 2000, p. 88). Nesse caso, se está diante de uma raríssima operação intelectual. O professor Giannotti, que vê a si mesmo como marxólogo, quer nos convencer de que essa sua condição, a de reivindicar para si certa “herança marxista”, o autoriza a um radical revisionismo, que é fazer de Marx um “lógico do capital”, um “gramático do capital”, completamente distante da (sabe-se lá o que isso significaria) “antiga ideia de Revolução”; isto é, Marx foi transformado de pensador e militante da revolução socialista, que sempre foi sua prioritária ocupação, em técnico, em filósofo analítico – o que desnatura não só a inextirpável dimensão ontológica da obra de Marx, mas, sobretudo, seus explícitos e permanentemente reafirmados compromissos revolucionários.

Recebida com grande expectativa por conta do prestígio do biógrafo, Gareth Stedman Jones, uma das lideranças da importante publicação New Left Review, a biografia publicada em inglês em 2016 acaba por não corresponder ao que dela se esperava, incorrendo em falha inesperada de alguém afeito à crítica de economia política, central no projeto teórico de Marx. Jones, surpreendentemente, dá mostras de precária, algo naïf, compreensão da transformação operada por Marx na teoria do valor-trabalho, ignorando, de forma inepta, as implicações da exposição dialética de O capital, que determina a modulação dos níveis de abstração com que as categorias são apresentadas.

Nesse sentido, é quase chocante que um autor prestigiado como conhecedor da obra de Marx produza a bisonha e equivocada frase: “Nos Grundrisse, seu tratamento do problema do valor era obscuro. No primeiro volume d’O capital, ele evitou os aspectos mais difíceis do assunto, limitando-se a discutir a produção, enquanto seus relevantes esforços para atacar o problema nos inéditos segundo e terceiro volumes não tiveram êxito”. (Jones, 2017, p. 425). O que é espantoso nesse tipo de crítica é que, àquela altura, Marx já havia escrito o essencial dos quatro livros de O capital. Em particular, o Livro III foi o primeiro a ser desenvolvido, antes da publicação do Livro I, em 1867 – e tal informação já está disponível há tempo suficiente para que seja do conhecimento de Jones.

Outras duas biografias importantes foram lançadas recentemente e não padecem dos problemas apontados nos trabalhos de Sperber e Jones. São os livros de Marcello Musto, O velho Marx. Uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), de 2018, e de Michael Heinrich, Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna. Biografia e desenvolvimento de sua obra (1818-1841), também de 2018, primeiro dos três volumes previstos para essa obra.

A biografia de Marx de José Paulo Netto é, certamente, a mais ampla e informada das quantas foram publicadas por brasileiros. Citem-se: a de Leandro Konder, de 1981; a de Hans-Georg Flickinger, de 1985; a de Jacob Gorender, de 1983, como apresentação do Livro I de O capital, da coleção Os Economistas, da editora Abril; e as apresentações dos volumes da coleção Grandes Cientistas Sociais, da editora Ática, sobre Marx, que reúnem trabalhos de Octávio Ianni, Paul Singer e Florestan Fernandes.

Em José Paulo Netto há qualquer coisa da ambição daqueles cartógrafos sobre os quais Borges escreveu. Aqui, a tentativa, assombrosa, não é a de traçar um mapa com o tamanho do território em toda a sua inesgotável variedade, mas elaborar a biografia de um homem que marcou – e ainda marca – o mundo: Karl Marx, cujo bicentenário foi completado em 2018. Personagem várias vezes biografado e estudado, Marx ainda não se deixou inteiramente captar, seja pela complexidade e diversidade de sua obra, seja pela intrincada trama que liga sua vida pessoal e sua obra a decisivos acontecimentos do século XIX, como as revoluções de 1848-1849, a Comuna de Paris e as transformações econômicas, políticas, sociais, culturais e tecnológicas decorrentes da imposição do modo de produção especificamente capitalista, sobretudo sobre o proletariado.

Se há qualquer coisa em José Paulo Netto daqueles cartógrafos, também é forte nele o espírito de Funes, outro personagem de Borges, dotado de tão prodigiosa memória que, certa vez, lembrou-se dos acontecimentos do dia anterior e a lembrança durou 24 horas.

José Paulo Netto, misto de cartógrafo chinês e de Funes, o memorioso, nos deu uma biografia de Marx que parece não ter deixado nada de lado, nada: das grandes às pequenas coisas do cotidiano dos quase 65 anos de vida de Marx, do vastíssimo universo de sua obra aos acontecimentos e processos que marcaram a história do mundo comandado pelo capital.

A biografia de Marx de José Paulo Netto tem vários marcos distintivos. Impressiona pela permanente procura de precisão, pela fundamentação documental, pelo equilíbrio do juízo, que buscou ser sempre temperado pelo respeito às diferenças, sem que isso tenha apaziguado uma muito acesa vocação para a luta de ideias, para a disputa política e ideológica.

Realmente ciclópica, a presente obra tem oito capítulos, 462 páginas de texto, incluídos aí uma introdução e um epílogo – são 205 páginas de notas (totalizando 1.006 notas) e 75 páginas de bibliografia, descontadas as páginas ocupadas por material iconográfico e pelo índice onomástico. O primeiro capítulo tem 40 páginas e 102 notas; o segundo, 64 páginas e 141 notas; o terceiro, 68 páginas e 145 notas; o quarto, 48 páginas e 152 notas; o quinto, 80 páginas e 176 notas; o sexto, 48 páginas e 96 notas; o sétimo, 60 páginas e 128 notas; o oitavo, 30 páginas e 62 notas. O epílogo tem 4 páginas e 4 notas.

Se são fluviais as notas, não são menos copiosas as citações. Mesmo sabendo que talvez lhe increpem, pela abundância do aparato de notas e citações, José Paulo não hesitou em mantê-las, argumentando que a complexidade e a envergadura da empreitada assim o exigem. Lembrou, sobre isso, frase de Marx que fala do exigente caminho do conhecimento, que quase sempre só se deixa conquistar depois de árduos trabalhos, de paciência, de disponibilidade para se deixar surpreender pelo novo. José Paulo Netto homenageia seu leitor ao não subestimar sua inteligência e sua disposição para o contato com uma prosa poderosa, uma linguagem a contrapelo.

A biografia de Marx que nos dá José Paulo Netto tem três níveis narrativos: (1) há a história pessoal de Marx (e de Engels, em parte), suas relações familiares, o conjunto das pequenas e prosaicas coisas de que é feito o mundo privado, mesmo o de um grande homem; 2) há o capitalismo, as lutas de classes, em vários momentos cruciais (1848, 1857, 1866, 1871), seja nos países centrais – Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos –, seja nos países periféricos – Índia, China, Rússia, Irlanda, América Latina; 3) e há a obra, extensa e complexa, que não se deixa apreender a partir de reducionismos. É no referente à apresentação e análise da obra de Marx que o livro de José Paulo mais se avulta. Com efeito, se está diante de uma biografia de Marx que também é uma rigorosa apresentação e interpretação do conjunto de sua obra, em suas diversas dimensões, como teoria crítica, como filosofia da práxis, como convocação para a política, para a organização, para a mobilização, para a revolução socialista.

Por tudo isso, saudemos José Paulo Netto.

*João Antonio de Paula é professor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG.

Referência


José Paulo Netto. Karl Marx: Uma biografia. São Paulo, Boitempo, 2020, 816 págs.

Referências bibliográficas


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