Pequeno livro das distraídas linhas e um necrológio

Wassily Kandinsky, Dois em Um, 1933.
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Por EDSON PAZ*

Posfácio da nova edição do livro de Júlio Ambrozio

Ao passar por São João del-Rei pela primeira vez, em 1977, rumo a um show ao ar livre de Milton Nascimento em Três Pontas, não imaginava que viria a trabalhar nessa cidade cortada por córrego de largas margens gramadas – imagem que me ficou naquela viagem.

Também não me passava pela cabeça que isso aconteceria quando, sete anos depois, o sanjoanense Tancredo Neves tornou-se o candidato da oposição na eleição indireta para a Presidência da República, após a emenda que propunha o voto direto para presidente ser derrotada no Congresso Nacional – ocasião em que fui suspenso temporariamente do trabalho numa rádio petropolitana por “descumprir determinações relativas à divulgação de notícias proibidas” sobre a votação das Diretas Já.

Foi somente em meados de 1985, ao fim de 45 dias de viagem de ônibus por cinco estados, que me decidi a tentar exercer o jornalismo em São João, atraído pela recente projeção da cidade devido à morte de Tancredo, presidente não empossado. Vislumbrei, na época, a necessidade local de um jornal mais antenado com as mudanças sociopolíticas e econômicas que se anunciavam no país.

A oportunidade de fazer o semanário Jornal de São João Del Rey surgiu pelas mãos de um amigo sanjoanense dos tempos de Universidade, o engenheiro Dario Giacomo Bassi, que me apresentou a Walter Luís Baccarini, médico e empresário com preocupações sociais. Estimulado pelos ventos de abertura política, ele dispôs-se a bancar o custo de impressão nos meses iniciais, sem nunca interferir na linha editorial, demonstrando o cultivo de uma ética ímpar. Sem Walter Luís Baccarini, que viria a falecer em 2016, nada de toda essa história teria acontecido.

Na empreitada de tirar do papel o projeto, Fernando Simões Coelho, de família de jornalistas, e Geraldo Demeralino Sabino, engenheiro agrícola que gostava de desenhar, foram pioneiros comigo. Imprimíamos o jornal em Juiz de Fora, na antiga gráfica Esdeva, pertencente à Tribuna de Minas, no alto da Rua Halfeld, no centro da cidade. Na primeira viagem, partimos de São João no ônibus das seis horas e chegamos às 9h30 na rodoviária juizforana, a antiga, também no Centro. Paramos na lanchonete para o café e pedi um sonho, em vez de pão com manteiga. Fernando, encarregado das finanças, estrilou: “Sonho é luxo; assim começamos mal”.

Para dar corpo ao sonho de um jornal independente, montamos uma pequena redação na rua Luís Baccarini, no centro sanjoanense, com mesas, cadeiras e máquinas de escrever compradas a preço barato da empresa que havia finalizado, em 1984, a Ferrovia do Aço. A equipe foi formada por jovens da cidade, na faixa dos vinte anos, que haviam interrompido por motivos diversos suas graduações em jornalismo, sociologia, teologia e história, todos atraídos por um anúncio – “Seja Repórter” – veiculado no jornal.

O amigo petropolitano que havia passado comigo pela cidade rumo a Três Pontas, Francisco Luiz Noel, que terminava o curso de jornalismo, incorporou-se à redação, empolgado pela iniciativa. Motivado talvez pelo anúncio do jornal, que algum turista tenha levado para o Rio de Janeiro, surgiu na redação, sem contato prévio, um repórter que cursara jornalismo. Também passaram pela redação um jovem dinamarquês que falava muito bem o português e uma jornalista boliviana, Mariangela, recém-formada na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Na intenção de conhecer mais a fundo a realidade sanjoanense e acolher ideias de pautas e de abordagens dos temas, o jornal teve o auxílio luxuoso de um conselho editorial, nos primeiros tempos. Era um grupo informal de pessoas amigas, inseridas na vida da cidade, que partilhavam o entusiasmo voluntário pela atividade do semanário e a expectativa de que ele pudesse ajudar a chacoalhar o conservadorismo local. As reuniões eram aos domingos, à noitinha, na redação, e, esgotadas as discussões, costumavam acabar em algum bar do Centro. Mais de uma vez, amizades de conselheiros e conselheiras evoluíram para flertes e namoros, decorrência natural de um clima de camaradagem que assemelhava os encontros dominicais a reuniões de diretório acadêmico, como compararia depois um dos participantes.

O pagamento mensal na redação era reduzido, mas parcialmente compensado pela oportunidade de iniciação na vivência jornalística, em um ambiente de descobertas enriquecido pela leitura dos diferentes jornais que assinávamos. Pelo menos seis iniciantes prosseguiram no ramo, como jornalistas e comunicadores, após a experiência adquirida no jornal. Outros integrantes da equipe empenhavam-se na busca de anúncios e na venda de assinaturas. Mas, sempre, cada grupo atuando no seu setor, nunca misturando publicidade e trabalho jornalístico – acasalamento dominante, na época, nos meios de comunicação locais.

Ao longo dos 28 meses em que dirigi e editei o Jornal de São João Del Rey, de setembro de 1985 a dezembro de 1987, o pernoite semanal em Juiz de Fora era passado em hotéis fuleiros do centro. Eventualmente, quando uma repórter ia para conhecer a gráfica e ajudar na revisão e montagem das páginas, a hospedagem era em hotel melhor, enquanto eu virava a noite na Esdeva montando à mão, nas quatro a doze páginas de formato standard (grande), com estilete e parafina derretida, as matérias que saíam da impressora dos computadores.

A viagem de volta consistia em entrar no ônibus e dormir direto, sem dar conta dos 160 quilômetros de percurso, com os três mil exemplares – depois, dois mil – amarrados em fardos no bagageiro. Mal desembarcavam na redação, os jornais eram etiquetados em faina coletiva para seguir rápido aos assinantes, via Correios. Chegamos a ter mais de mil assinaturas, fruto do empenho das jovens vendedoras, remuneradas por produção.

O semanário postulava ser, como pregavam os editoriais, “fiel à defesa das aspirações coletivas” e “contrário ao atrelamento da imprensa a poderes de Estado”, empenhado em “retratar criticamente o cotidiano” e “estimular a luta pela mudança”. Para tentar cumprir esse ideário, fazíamos reportagens em que falávamos de reforma agrária, ao reportar um encontro de pequenos produtores rurais da região, e de reparação de direitos, quando divulgamos o caso de um militar sanjoanense que, preso no golpe de 1964, buscava reaver o que perdera por ter sido afastado da ativa. Depois de nos ter dado entrevista, ele madrugou na redação, quando a edição já estava na gráfica, para pedir que o jornal não fosse às bancas, temeroso de que a reportagem prejudicasse o andamento da ação judicial.

Reportávamos também movimentos de donas de casa, campanhas salariais, passeatas e greves locais, demissões provocadas pela crise econômica, crescimento da procura pelo seguro-desemprego, a vida de famílias de catadores no lixão da cidade, aumento de 66,6% na passagem de ônibus e preços altos no mercado municipal. Não deixamos passar em branco a queda da arrecadação local do jogo de bicho devido à crise nem o desespero da mãe que jogou seu bebê e a filha maior no Córrego do Lenheiro e tentou se afogar em seguida, num dia de chuva torrencial. Foi na fase de hiperinflação no governo de José Sarney.

Publicamos reportagens sobre policiais acusados de violência, extorsão e corrupção, a intoxicante mineração de ouro e cassiterita no Rio das Mortes, um surto de esquistossomose, compra de votos em campanhas eleitorais de municípios da região, denúncia de uso de dinheiro da Prefeitura de São João em encontros de jornais do interior e de vereadores mineiros – neste, os recursos públicos custearam até desfile de mulatas. Reportamos ofensas do presidente da Câmara de Vereadores a uma nossa jornalista e críticas do intelectual paulista Décio Pignatari aos critérios utilizados na federalização das faculdades sanjoanenses, além de reproduzir matéria jornalística sobre o desagrado de vereadores peronistas quando os governos brasileiro e argentino deram o nome de Tancredo Neves à ponte que liga Puerto Iguazu a Foz do Iguaçu. A maioria desses assuntos não era noticiada pelos outros veículos da imprensa local.

Alguns dos muitos outros temas que abordamos no jornal: casa na rua de prostituição (ao lado da Igreja do Carmo) pega fogo e bombeiros não têm caminhão-pipa; “zona” vive suas últimas noites, com a interdição e demolição de cinco casas; adolescente de quinze anos morre atingido por sino na Igreja de São Gonçalo; cidade passa a receber sinal de mais um canal de televisão (o quarto), com a instalação de antena no Morro do Cristo.

Publicamos foto de nu semi frontal de uma modelo de artes visuais nos corredores do campus Santo Antônio da nascente Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei (Funrei, precursora da UFSJ), durante um festival de inverno; e reportamos “filosofias” escritas em portas de banheiros da instituição;; não deixamos passar batido o fim do famoso Clever’s Bar, epicentro da Esquina do Kibon; e fizemos reportagem sobre os evangélicos sanjoanenses quando eles não passavam de 1,4 mil.

O jornal também abriu suas páginas a coluna permanente de nascimentos, casamentos e falecimentos, tendo mantido por bom tempo a coluna social “Útil & Fútil”. Não conseguimos viabilizar um espaço para articulistas locais com viés crítico. Exceção nesse quadro foi Júlio Ambrozio, exercitando um “olhar estrangeiro” sobre cenários e cenas da vida de São João e das Vertentes.[1]

Mais de trinta anos depois, fica a pergunta: que contribuições deu o Jornal de São João Del Rey à cidade e à região naqueles anos da segunda metade da década de 1980? Penso que, ao ofertar uma abordagem diferenciada dos fatos, o jornal proporcionou estremecimentos fugazes no comportamento conservador da política desse pedaço de Minas Gerais e reforçou posicionamentos e ações de pessoas que lutavam por conquistas e direitos sociais, além de ter servido de estímulo para que integrantes da redação seguissem a carreira jornalística.

Semana a semana, o jornal constituiu um acervo de registros e interpretações da vida local e regional, constituindo-se numa fonte de informações de valor inegável para a história contemporânea, encadernada e conservada no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei.

Nos quase quatro anos de circulação do Jornal de São João Del Rey, contados os meses de 1987-1988 em que foi propriedade de um deputado estadual, não havia internet, smartphones, câmeras digitais nem faculdade de jornalismo na cidade. Da década de 2010 para cá, com todos esses recursos tecnológicos e mão de obra especializada, poucas iniciativas locais de jornalismo independente surgiram em São João, mas não prosseguiram por falta de dinheiro ou pela pouca atenção dada por editores e leitores a reportagens necessariamente aprofundadas.

Quase quarenta anos depois da existência do Jornal de São João Del Rey, permanece atual a questão que colocávamos em nossos editoriais: como a imprensa do interior pode romper seu estado de anemia crítica e contribuir para que a coletividade a que pretende servir venha a emergir do estado de anemia socioeconômica e política? Não é uma pergunta com resposta fácil. Cartas para a redação.[2]

Edson Paz é historiador e jornalista.

Referência


Júlio Ambrozio. Pequeno Livro das Distraídas Linhas e um Necrológio. Petrópolis, Grumixama, 2023, 98 págs.

Notas


[1] Para maiores detalhes sobre a relação de Júlio Ambrozio com o Jornal de São João Del Rey confira o artigo de Ricardo Musse postado no site A Terra é Redonda: https://aterraeredonda.com.br/um-escritor-ensaista-e-sua-visao-de-mundo/

[2] As muitas pessoas que participaram do Jornal de São João Del Rey em diferentes momentos, sob minha direção, vão nominadas a seguir. É a relação que a memória permite, passado tanto tempo. No caso de estar omitindo o nome de alguém, peço desculpas desde já.

Na direção, Dario Bassi e Francisco José Ribeiro Alves (Kiko) dividiram, por algum tempo, responsabilidades e tarefas comigo.

Da redação, a lista é longa: Alvaro Carneiro Bastos, Ângela Cristina dos Santos Lima, Celso, Francisco Luiz Noel, João Batista Guimarães, Miriam Braga de Lima, Ney, Valéria Cordeiro, Carla e a boliviana Mariangela – as duas, recém-formadas pela UFJF. Geraldo Sabino contribuiu com ilustrações. Dimas de Oliveira, João Ramalho Neto e Maurício Malta Teixeira (Popó) foram os bravos fotógrafos.

Na administração e no comercial, que vendia espaço publicitário e assinaturas: Fernando Simões Coelho, Maria Leopoldina Andrade (Léo), Marcelino Bello, agora falecido, Regina Célia Martins e Viviane Márcia Neves, além de outras pessoas com pouco tempo de permanência, como Rosângela Braga. Luciano Nascimento, que na época era estagiário da Associação Sanjoanense de Amparo ao Menor (Asam) e agora é conhecido como O radialista do Facebook, e Luiz Claudio Teixeira Martins (Tadô) foram pau para toda obra em apoio à redação, à administração e ao comercial. Do conselho editorial, que funcionou ativamente nos primeiros meses do jornal, participaram Jorge Taier, Maria Leopoldina Andrade, Maria Ângela Araújo Resende, Norma Marotti Fairbanks, museóloga que dirigia o Museu Regional de São João del-Rei, e o então casal Roberto Lira e Maria Beatriz Monteiro Guimarães, além de Dario e Kiko. Três conselheiros viriam a ser professores da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ): Jorge Taier, Maria Ângela e Roberto. Kiko viria a falecer em 2019; Norma, em 2020.


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