Por EMIR SADER*
A polarização não é uma distorção discursiva, mas a expressão política de uma sociedade cindida em classes, onde a desigualdade estrutural se reflete até nas conquistas culturais
Dizer que algo é polarizado, parece ser algo que desqualificado o que é dito. Polarização significa uma abordagem da nossa sociedade como uma sociedade de classes. É uma abordagem real ou uma ficção?
Há ou não há polos na nossa sociedade ou vivemos numa sociedade sem interesses contraditórios, em que todos são iguais na Constituição e na realidade concreta? Não somos uma sociedade profundamente marcada pelas desigualdades?
Desigualdades não significam simplesmente que alguns têm mais e outros têm menos. Existem ricos e pobres. E existem tantos pobres, com tão pouco, porque há’ alguns poucos que concentram tanta riqueza.
Não são polos que se diferenciam pela quantidade de recursos que cada polo tem. Mas pela qualidade, tal a distância entre eles. Assim como existem mecanismos de apropriação dos resultados do trabalho pelos que possuem os meios de produção. Esse é o mecanismo pelo qual se produz uma sociedade com desigualdades tão imensas, que só tendem a se reproduzir.
Não apenas econômica e socialmente, mas também politicamente. O poder costuma ser monopolizado por uma elite minoritária, assim como os meios de comunicação, o que lhes da enorme vantagem em relação à grande maioria da população, que não tem como fazer ouvir suas vozes e seus interesses.
É ou não é, esta sociedade capitalista, uma sociedade de classes? Isto é, uma sociedade marcada pela polarização social? Polarização significa isso. Um absurdo ou um reflexo da realidade realmente existente?
O pensamento conservador imagina uma sociedade ideal, em que a igualdade de expressão na Constituição tivesse uma correspondência direta na realidade cotidiana. Mas o que encontramos é uma contradição entre aquela igualdade legal e ideal e a vida concreta com que nos confrontamos, quando tropeçamos nas pessoas abandonadas nas ruas e praças, ao lado das lojas cheias de consumidores dos produtos mais sofisticados.
O que aconteceu naquela noite maravilhosa dos prêmios do Globo de Ouro para o cinema brasileiro foi expressão ou não da polarização? Isto é, foi expressão cultural da estrutura social e política da nossa sociedade?
A direita e a extrema direita ficaram completamente descolocadas com essas premiações. Gostariam que as produções culturais não refletissem, de forma alguma, o tipo de sociedade que temos.
Mas os discursos dos vencedores dos prêmios expressaram abertamente que as obras premiadas têm um caráter político claro. Que a melhor cultura que o Brasil possui tem um caráter político e não reflete as visões idealistas de uma sociedade juridicamente igual, que não se corresponde com a realidade concreta.
Um mundo polarizado e querem que se abandone qualquer visão baseada na polarização?
Karl Marx entre o campo e a cidade
O texto é da grande pensadora argentina Beatriz Sarlo, que começa com a confissão da dificuldade de ler o primeiro capítulo do livro O capital de Karl Marx.
Ela se apoia no próprio Marx para compreender sua dificuldade: “Os começos são sempre difíceis e isto vale para todas as ciências. A compreensão do primeiro capítulo, e em especial a parte dedicada à análise da mercadoria, apresentará, portanto, a dificuldade maior”.
Ela menciona também o que considera metáforas extraordinárias, como, por exemplo, que o valor da mercadoria é mero coágulo de tempo de trabalho”. E em meio a todas as dificuldades, definições breves e claríssimas. “Nada pode ser valor se não é um objeto para o uso. Se é inútil, também será inútil o trabalho contido nela”.
A descrição da acumulação primitiva e a expropriação dos camponeses desalojados dos bosques têm, segundo ela, ares de novela realista. Karl Marx descreve uma nova formação social e oferece os instrumentos para observar também a nova cidade capitalista.
A acumulação primitiva está, para a economia política, como o pecado original está para a teologia. O que equivale a dizer que “o processo histórico de cisão entre os produtores e os meios de produção” resulta indispensável para fundar uma nova religião econômica sobre bases materiais sólidas.
Marx tem uma afirmação muito significativa: “O moinho movido a braço nos dá a sociedade do senhor feudal; o moinho a vapor, a sociedade capitalista industrial”. Friedrich Engels escreveu em A situação da classe operaria na Inglaterra: “Os primeiros proletários pertenceram à indústria e foram produto direto dela”.
Trata-se da Revolução Industrial, que é urbana, fabril, a vapor e algodoeira. A essa exploração econômica, é preciso agregar a dominação política.
Raymond Williams segue Marx ao tomar a Inglaterra como exemplo clássico. Suas hipóteses (que valem tanto para a literatura como para a pintura) indicam que o observador da paisagem está subtraído do mundo do trabalho. Os que vivem nas cidades e são os novos proletários perderam para sempre o mundo “natural” do idílio.
A experiência nas cidades estabelece um padrão novo para a narrativa. Raymond Williams mostra de que modo a fazenda aristocrática e a fazenda das middle classes endinheiradas criam uma paisagem em paralelo à paisagem psicológica e moral da novela.
Ele observa que a experiência urbana produz novos gêneros e, sobretudo, “um método de construção ficcional”. E, ao contrário, viver na cidade se apreende na novela. Rompeu-se um tipo de comunidade cognoscível. E, portanto, surgem todas as formas de nostalgia comunitarista.
E as cidades são o cenário em que se produz o que Max Weber descreve como “a transformação do oportunismo econômico em um sistema econômico e a transformação do romanticismo do aventureirismo econômico no nacionalismo econômico da prática metódica de vida”.
As reações literárias pastorais abundam. O atrativo do pastoral é a felicidade representada pelas imagens da paisagem natural, como se fosse possível conceber uma paisagem “natural”. Trata-se de fugir da complexidade e do poder da civilização da máquina. Se observe que as palavras “jardim” e “máquina” definem a oposição material e simbólica.
Daí que se chegue aos bairros fechados como utopia ruralista das camadas médias urbanas. Tudo começou com Marx e o fechamento do campo inglês.
*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]






















