Primo Levi, judaísmo e sionismo

Imagem: Cottonbro
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Por SAMUEL KILSZTAJN*

Primo Levi era extremamente crítico à política do governo de Israel, era contra os assentamentos e a favor da desocupação da Cisjordânia e de Gaza

1.

Primo Levi, judeu que participou do Movimento de Resistência Italiano, foi encaminhado para Auschwitz em 21 de fevereiro de 1944. Primo Levi e outros prisioneiros acamados foram abandonados em Auschwitz, que foi libertado pelo Exército Vermelho em 27 de janeiro de 1945. As Nações Unidas estabeleceram o dia 27 de janeiro como o dia internacional em memória das vítimas do Holocausto.

Se questo è un uomo (se isto é um homem), as memórias de Primo Levi em Auschwitz, foi publicado já em 1947, mas ficou mofando por onze anos até se transformar no grande clássico da vasta literatura do Holocausto. Embora defendesse a existência de Israel, Primo Levi era extremamente crítico à política do governo do país, era contra os assentamentos e a favor da desocupação da Cisjordânia e de Gaza. Em 1982, participou ativamente dos protestos contra a invasão do Líbano e o massacre de Sabra e Chatila.

Em 1984, Primo Levi concedeu uma entrevista a Gad Lerner, Israel, se isto é um Estado. Indagado se não estaria havendo mudanças nos valores de tolerância da geração de judeus da diáspora para novos valores de uma geração de israelenses, Primo Levi respondeu, “O que você descreve faz parte de um futuro previsível. Acredito que cabe a nós, judeus da diáspora, lutarmos contra esse futuro. Lembrar a nossos amigos israelenses que ser judeu significa outra coisa, guardar com respeito a tradição judaica da tolerância. Claro que estou ciente de que estou tocando aqui num ponto crucial, e esta é a questão: onde está o centro de gravidade do judaísmo hoje?” E continua, “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.”

Mas, apesar de Primo Levi preferir e acreditar que o centro de gravidade do judaísmo estava voltando para a diáspora, o judeu da diáspora no pós-guerra vinculou a sua identidade a Israel, como se a segurança dos judeus em todo o mundo dependesse de Israel. Os judeus, pode-se dizer, substituíram o judaísmo pelo sionismo. Em 1985, em visita aos Estados Unidos, Levi causou mal-estar entre os judeus norte-americanos ao declarar que “Israel foi um erro em termos históricos”. Primo Levi faleceu em 1987, oficialmente por suicídio, aos 67 anos de idade.

2.

Em 1947, as Nações Unidas haviam aprovado a criação de Israel em território palestino e a maior parte dos israelenses e dos judeus da diáspora não sabe ou não quer saber que, para garantir uma maioria judia no país, 80% dos palestinos que habitavam a região foram expulsos ou fugiram da zona de combate, foram impedidos de retornar às suas casas e cidades e vivem apátridas há três gerações em campos de refugiados nas fronteiras de Israel; e que a instalação dos primeiros assentamentos nos territórios ocupados data dos governos trabalhistas “de esquerda”.

Tal qual a tolerância, o pacifismo do judeu da diáspora foi substituído pelo militarismo e os israelenses se orgulham muito de suas consecutivas vitórias militares e da contenção da população palestina. Sete milhões de palestinos vivem hoje prisioneiros na Palestina histórica e outros sete milhões vivem na diáspora palestina, a maior parte na condição de apátrida. Mas agora, para todos os efeitos, tudo começou em 7 de outubro de 2023, o que “justifica” a atual ofensiva militar a Gaza.

A maior parte dos israelenses e dos judeus da diáspora, que vive hoje maldizendo palestinos, árabes e muçulmanos, também não sabe ou não quer saber que o antissemitismo sempre se manifestou essencialmente no mundo ocidental cristão; e que a convivência entre judeus, palestinos, árabes e muçulmanos anterior ao moderno sionismo político sempre foi pacífica. Pankay Mishra cita, entre outros, Primo Levi, Jean Améry e o consagrado filósofo israelense Yeshayahu Leibowitz, que já em 1969 denunciava a “nazificação” de Israel.

As organizações sionistas da diáspora estão hoje empenhadas em silenciar as manifestações de protesto à atual ofensiva militar a Gaza, em especial as vozes judias dissidentes, traidoras do sionismo e, de acordo com o seu entendimento, traidoras do judaísmo, “judeus que odeiam a si mesmos”. Várias exibições do maldito documentário norte-americano “antissemita” Israelism, dirigido por Erin Axelman e Sam Eilertsen, vêm sendo canceladas desde a sua estreia em 2023 e principalmente após o 7 de outubro.

Embora ainda uma minoria, cresce a resistência de jovens judeus ao establishment judeu norte-americano, “parem de mentir para nós”. Organizações como Jewish Voice for Peace e IfNotNow orientam seus jovens militantes em como se relacionar com seus pais sionistas. Os sionistas da diáspora, contudo, entendem o crescimento das manifestações em defesa do povo palestino como manifestações antissemitas, enquanto o povo palestino, “utilizado como escudo” e “responsável coletivamente” pelas ações do Hamas, segue, num crescente, sofrendo um massacre veiculado em cores e em tempo real.

* Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Jaffa. [amz.run/7C8V]


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