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Por MARIA RITA KEHL*

Reflexões sobre o cotidiano brasileiro

Não vou mentir porque todo mundo viu. Matei mesmo. E daí? O cara não valia nada. Estrangeiro querendo se dar bem aqui. Além do mais estrangeiro sei lá de que lugar na África. Nigéria, Congo, aqueles países pobres de lá. Como se o Brasil precisasse de mais gente preta, aqui já não tá sobrando?

Esse veio pra cá faz pouco tempo, estava fodido, eu dei trabalho. Não tá bom? Aí veio reclamar de mim aqui, no meu pedaço. Todo cheio de “direitos”. Caguei pros direitos dele.

Estava no meu quintal, entende? A praia é pública, mas esse quiosque aqui é meu pedaço. Eu dou trabalho pra quem pede, não discrimino ninguém, nem mesmo os negões como esse aí. Aqui podia almoçar, beber água quando quisesse. Aí fica folgado. Vem pedir salário. Eu combinei salário? Tem algum papel assinado por mim que estipula salário? Não tem, que eu não sou besta. Se assinasse contrato de salário tinha que registrar, pagar uns INSS aí e não sei mais o quê, quem é que consegue virar um empreendedor de sucesso como eu pagando esse monte de taxa e mais o salário desses vagabundos?

Se ele tivesse visão de futuro podia muito bem continuar aqui, ganhando uma gorjeta aqui, outra ali, dava até pra comprar um feijão pra alimentar o bando de filhos que ele deve ter, porque essa gente preta é danada pra fazer um bando de pretinhos. E eu com isso? Não tenho nada contra; cada um é livre pra fazer quantos filhos quiser, mas não tenho obrigação de sustentar. Se der pra comprar um feijão com o que eu pago os meninos já não morrem de fome, não tá mais que bom? E quando crescerem um pouco podem ajudar o pai, vender água de coco na praia, nem é tão pesado o isopor. Não dá pra chamar de trabalho infantil porque os moleques estão na praia, entende? Podem aproveitar pra tomar banho de mar, já que no subúrbio onde eles moram não deve ter mar, é ou não é.

Tem que ter perspectiva de futuro. Os meninos começam vendendo água de coco aqui, de repente uma madame acha um deles bonitinho e leva pra trabalhar na casa dela. O guri vai comer bem. Quem sabe até aprende a ler? Perspectiva de futuro é isso aí.

Veja esse pessoal aí de São Paulo, que achou que podia construir barraco nas encostas. Veio a chuva, levou tudo. Os caras não pensaram nisso antes? Não tinha um lugar mais seguro pra instalar o cafofo? Aposto que nem pesquisaram. Um foi lá, os outros vão atrás. Bando de gado. Se deram mal, ué. Nem Deus, que Deus me perdoe usar o nome dele, protege quem não se cuida direito. O governador tem culpa? Claro que não.

Esse cara, nem me lembro o nome dele, parecido com Moisés, mas Moisés ele não era porque Moisés era branco. Não tem preto na Bíblia. Acho que não. Esse cara quis subir depressa demais. Hoje eu estou aqui, dono do meu comércio, mas pensa que eu não ralei até chegar onde estou? Fui trepando do jeito que deu. E, vou te contar: esse não foi o primeiro que tive que tirar da minha frente a bala. Alguns, nem precisei apagar: foi só mostrar o bagulho que o cara já saiu de fininho, se cagando todo. Só esse, e mais uns dois ou três que já esqueci, levaram chumbo. Não dá pra dizer que foi pra eles aprenderem porque morto não aprende mais nada, né, hahaha. Desculpe a falta de respeito.

Agora chega, não vou dar mais entrevista. Vocês, jornalistas, também são um bando de urubu em cima da carniça que sobra dos perrengues que a gente enfrenta. Já disse o que tinha que dizer, sai da minha aba. Queria que eu fizesse o que? Não sou coveiro, pô.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Ressentimento (Boitempo).

 

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