Responsabilidade intelectual e responsabilidade política

Imagem: Timofey Radkevich
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Por LUIS FELIPE MIGUEL*

A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores

1.

Valter Pomar escreveu um longo artigo para rebater meu texto sobre a esquerda diante da Venezuela, que publiquei há uma semana. Ele dá algumas caneladas, como me acusar de abraçar uma visão idealista sobre “natureza humana”, com base na observação lateral que fiz sobre pareidolia. Mas recusar a noção de uma natureza humana anistórica não é negar que existem universais humanos, é julgar que eles não são suficientes para uma explicação abrangente do nosso comportamento em sociedade. Infelizmente, trata-se de um estratagema comum neste tipo de polêmica.

O ponto central, no entanto (e previsivelmente) é outro. Ele considera errado formular críticas que atinjam “o nosso lado”. Assim, é errado lembrar que o governo de Nicolás Maduro era uma ditadura, porque o mais importante é protestar contra a agressão do imperialismo estadunidense. Da mesma maneira, não se pode criticar a ditadura chinesa, porque é mais importante derrotar os Estados Unidos. Nem se pode criticar Vladimir Putin, porque a prioridade é lutar contra a OTAN.

Imagino que temos que aplaudir acriticamente também o governo Lula, uma vez que é imperativo derrotar o bolsonarismo. Ou que devemos nos abster de prestar solidariedade à revolta das mulheres e dos homens iranianos e de denunciar os milhares de mortes causadas pela repressão porque, afinal, o regime dos aiatolás é inimigo dos Estados Unidos e de Israel. E assim vamos.

Incomoda a ele que, ao discutir o sequestro de Nicolás Maduro, eu trabalhe com “conjecturas sem provas”. No entanto, em situações que não são totalmente transparentes (isto é, virtualmente todas), operamos sempre com conjecturas. O importante, como eu já afirmava em meu texto, é que simples hipóteses sejam claramente diferenciadas de fatos estabelecidos – e que as conjecturas não sejam fantasias, mas apoiadas em elementos da realidade. Sem isso, qualquer análise de conjuntura seria impossível.

Logo o texto deixa claro, porém, que o problema não é a conjectura, é qual lado é “favorecido” por ela. As “provas” são exigidas solenemente em alguns casos, a ponto de paralisar o esforço de compreensão (e nos condenar a aceitar sem questionamento os discursos oficiais), mas alegremente dispensadas em outros. Voltamos à mesma lógica manipulativa que descrevi antes.

2.

Eu discordo, obviamente, não apenas pelos argumentos que já desenvolvi muitas vezes, inclusive no texto que irritou Valter Pomar, mas também porque não comungo de sua métrica de certo e errado.

Existe um tipo de arrogância, que consiste em desprezar as agruras das pessoas comuns em nome de divisões pretensamente mais amplas – afinal, o que é a vida dos ucranianos diante do equilíbrio geopolítico no Leste europeu? O que é a liberdade dos iranianos, quando está em jogo a hegemonia no Oriente Médio?

É o oposto simétrico daquilo que tantas vezes faz a propaganda ocidental. Lembro de quando a invasão ao Afeganistão era apresentada como se fosse uma incursão para libertar as mulheres do regime do Talibã (que, aliás, tinha chegado ao poder graças a essas mesmas potências ocidentais). Do lado dos propagandistas ocidentais, os interesses são mascarados por valores humanitários. Do lado dos que se apresentam como intelectuais marxistas, os valores são desprezados em nome da realpolitik.

A diferença é que a hipocrisia ocidental é mais eficiente para ganhar a simpatia da opinião pública. Já o pragmatismo desabrido dos nossos revolucionários de sofá serve só para alimentar o ego de quem se sente capaz de raciocínios “sofisticados”, livre de preocupações “pequeno-burguesas”. É o que alimenta, entre muitos outros exemplos, o “machismo-leninismo” dos neostalinistas – a inspirada expressão, vejam só, é de autoria de Valter Pomar!

Como dizia, discordo de sua métrica de certo e errado. Não creio, por exemplo, que a Europa ganhe alguma coisa se abandonar a OTAN para ficar sob o tacão de Vladimir Putin. Ou que o mundo esteja melhor sob uma hegemonia chinesa em vez de uma hegemonia estadunidense. Antes de Donald Trump, os Estados Unidos usavam hipocritamente o discurso dos direitos humanos e da democracia.

A China usa hipocritamente o discurso do socialismo. São duas potências imperialistas, dois regimes apoiados na exploração da mão-de-obra, dois Estados que negam os esforços de regulação internacional e o multilateralismo. Mesmo nos seus melhores momentos, a democracia estadunidense sempre foi mais uma farsa do que uma realidade. Mas os princípios que ostentava, de respeito às liberdades individuais, sem dúvida nenhuma são muito melhores do que a ditadura chinesa.

Na visão de Valter Pomar, qualquer análise sobre os acontecimentos deve ser guiada pela conveniência de não prejudicar o “lado bom” da disputa. Por isso, não se pode discutir se houve ou não algum tipo de acerto de Delcy Rodríguez com Donald Trump. (Aliás, não há mais dúvida de que esse acordo está em andamento; a única questão é saber se ele precedeu a operação de sequestro de Nicolás Maduro ou não.) O argumento cai em uma petição de princípio: devemos proteger Delcy Rodríguez porque ela encarna a “revolução bolivariana”; por isso, não podemos questionar se ela negociou o fim da “revolução bolivariana”.

Enfim, são diferenças já conhecidas, que não são apenas táticas – são de princípios.

3.

Mas o mais interessante, em seu comentário, é a insistência em me chamar de “irresponsável”, depois agregando: “no sentido de não ter responsabilidades dirigentes” ou “uma pessoa que não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno”.

De fato, não sou, nem desejo ser dirigente de nenhum grupo político. Nem militante sou, na verdade. Isso não me torna “irresponsável”, acusação que Valter Pomar faz como forma de lustrar seu anti-intelectualismo.

Ao que parece, para ele, o conhecimento da realidade deve sempre ser entendido como instrumental. O dirigente, do alto de sua sabedoria, define quais aspectos da realidade devem e quais não devem ser levados em conta. Filtra as informações para que sua massa de manobra seja guiada do jeito que ele julga útil, nunca preparada para pensar com a própria cabeça.

Eu acredito, muito ao contrário, que a verdade liberta. Que educação política se faz não vendendo contrafações pretensamente bem-intencionadas, mas operando com a complexidade do mundo. Que a compreensão deste mundo precisa aceitar as contradições, não escamoteá-las. Que a primeira tarefa não é buscar um lado para se alinhar, mas ganhar clareza sobre toda a situação – e a partir daí se alcança não a neutralidade, mas um engajamento bem fundado.

Que a mirada crítica sobre o poder, sobre qualquer poder, é sempre necessária, para evitar que ele se torne tirânico. Que é preciso operar com a visão mais nítida possível da realidade, em vez de investir em fantasias, e agregar as pessoas à discussão, municiando-as de ferramentas e informações para que produzam escrutínios críticos, em vez de manipulá-las.

A responsabilidade do intelectual é contribuir para a lucidez. Mas ela não diverge da responsabilidade do dirigente político – se ele é entendido como intelectual orgânico, não como demagogo.

Em uma palavra, a posição é autoritária. Há uma soberba de julgar que os outros, os “comuns”, não são capazes de suportar o “peso da consciência do mundo”, como dizia Bernardo Soares (um dos heterônimos de Fernando Pessoa). Ou, como pensavam os frades medievais, “nem todas as verdades são para todos os ouvidos” (as palavras são de Abão, personagem de O nome da rosa, de Umberto Eco). É uma postura que serve para dar razão aos intelectuais conservadores da primeira metade do século passado, que diziam que o bolchevismo era só uma outra variedade de elitismo.

Talvez mais pertinente, ainda que com menos valor literário, seja uma citação de Rubens Ricupero: “O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”. Mas o embaixador, pelo menos, precedeu sua máxima de um mea culpa disfarçado (“eu não tenho escrúpulos”).

A pergunta que atravessa todo o texto de Valter Pomar é: a quem serve conhecer a verdade? De acordo com a resposta, devemos anunciá-la ou ocultá-la.

Eu creio que a resposta é sempre a mesma. A verdade serve ao projeto de emancipação humana. Não existe emancipação possível com base na mentira ou no ocultamento.

A postura pretensamente revolucionária é, no final das contas, a de quem se julga com o poder de decidir o que deve e o que não deve ser conhecido, logo o que deve e o que não deve pensado. Talvez por isso o autoritarismo daqueles que se considera que devemos proteger a todo custo, ainda que conjunturalmente (o regime venezuelano, a China, a Rússia), não cause desconforto.

Eu penso que o entendimento da realidade, sem máscaras, sem enviesamento, é sempre o que serve melhor ao projeto da esquerda – é mesmo um diferencial da esquerda. Ela se alimenta da realidade do mundo, da conexão entre a experiência vivida e a consciência, ao passo que a direita vive de mistificações e cortinas de fumaça.

O mundo que queremos construir, que supere a exploração, a violência, a alienação, as diferentes formas de opressão, é um mundo de pessoas emancipadas: emancipadas também de ilusões e de contos da carochinha.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente nas redes sociais do autor.

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