Para além das ilusões da conjuntura política

Imagem: John Lee

Por FABRÍCIO MACIEL*

As análises de conjuntura se tornaram nosso principal método, fazendo com que corramos o risco de perder de vista todas as reconstruções estruturais que poderiam nos permitir a compreensão do momento presente

O cenário atual nos impõe muitos desafios e, dentre eles, a possibilidade de pensar serenamente. Um dos principais problemas intelectuais impostos pela conjuntura presente é que a mídia se especializou em colocar todo o foco na novelização da política. A cada semana acompanhamos um capítulo diferente desta novela, o que torna o futuro cada vez mais imprevisível, apesar de tentarmos antecipá-lo a todo instante. Com isso, as análises de conjuntura se tornaram nosso principal método, fazendo com que corramos o risco de perder de vista todas as reconstruções estruturais que poderiam nos permitir a compreensão do momento presente.

Neste contexto, um dos principais paradigmas que se construiu no Brasil e no mundo consiste em colocar toda a culpa dos problemas atuais nos erros da esquerda. Não existe argumento mais favorável ao sentimento fascista do que este. A ascensão da extrema-direita, o aumento da desigualdade e da violência, além da crise econômica e financeira, tudo é atribuído aos erros políticos da esquerda e a sua suposta incapacidade em levar a cabo seu sempre prometido projeto de justiça social. Com isso, o coração da massa teria migrado para a extrema-direita. Acredito que a compreensão do cenário atual exige um movimento teórico bem mais complexo do que isso. Aqui, precisamos ir para além da conjuntura e das ilusões do presente, buscando reconstruções teóricas estruturais de ordem maior.

O fato confuso, pouco teórico e equivocado politicamente, de identificarmos na esquerda um bode expiatório afetivo e um culpado para todos os males do presente é um dos aspectos centrais do que eu gostaria de definir aqui como “bolsonarismo metodológico”. Com este conceito, pretendo dar conta do fato de que grande parte das análises de conjuntura no Brasil atual se resume a uma exaustiva descrição das ações do governo e especialmente do presidente, reproduzindo a novelização da política. O bolsonarismo metodológico, neste sentido, é um desdobramento do que poderíamos chamar de um “petismo metodológico”, que se resume ao modismo de criticar o PT e a esquerda, com argumentos parcos e repetitivos (Não me interessa aqui a defesa de nenhum partido, mas sim a crítica da pobreza da crítica). Precisamos escapar deste pobrismo analítico da conjuntura e a saída será sempre a construção da ciência social com método e pesquisa, que não se reduza à repetição dos clichês que, em uma espécie de sociologia da lacração, rapidamente viram moda nas redes sociais.

Foi com este cenário em mente que resolvi elaborar a segunda edição, revista e ampliada, de meu livro A nova sociedade mundial do trabalho: para além de centro e periferia? (Rio de Janeiro: Autografia, 2021). Nesta nova versão, que conta com prefácios de Jessé Souza e Cinara Rosenfield, acrescentei um posfácio no qual procuro atualizar o debate, considerando que o livro foi publicado antes do golpe de estado que derrubou Dilma Rousseff e abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo ao governo brasileiro.

Como ponto central, procuro desenvolver a ideia de uma nova sociedade mundial do trabalho, que se esboça a partir da década de 1970 e não consegue superar as profundas diferenças entre os países centrais e os periféricos. Para tanto, parto de uma discussão teórica articulando especialmente as obras de Claus Offe, André Gorz, Ulrich Beck e Robert Castel. Minha tese é que o fracasso do estado de bem-estar social em países centrais como Alemanha, França e Inglaterra é a principal prova histórica de que o capitalismo nunca vai dar certo como sistema promotor da justiça social. Como consequência, meu argumento é que encontramos aqui o principal ponto de partida teórico e empírico para uma nova interpretação do capitalismo contemporâneo em sua totalidade.

A importância deste movimento consiste em perceber como a “grande transformação” do capitalismo, para usar o precioso termo de Karl Polanyi, desde a década de 1970, nos trouxe até aqui, pavimentando o caminho para o surgimento do desespero coletivo que trouxe a extrema-direita ao poder. Muito mais consistente do que a tese simplista e clichê que atribui aos erros da esquerda na conjuntura anterior a culpa do fortalecimento do autoritarismo, neste sentido, é a percepção de que a grande crise estrutural do capitalismo desde os anos de 1970 nos mergulhou em um cenário inédito na história, o que vai realmente permitir a compreensão da conjuntura global atual. Como consequência, a história nos narra a introdução do neoliberalismo, na década seguinte, capitaneado por Reagan e Thatcher, o que vai aprofundar a desigualdade entre todas as classes sociais e criar o encastelamento de uma elite global super-rica, o que também é inédito na história.

Para avançar com esta análise, precisamos compreender o que estou chamando de uma nova sociedade mundial do trabalho, consolidada a partir da crise do Welfare-state no Atlântico Norte. O primeiro autor que mobilizei para esta tarefa foi Ulrich Beck. Sua crítica ao “nacionalismo metodológico” é decisiva para o exercício de se pensar a sociedade mundial. Com este conceito, o autor procura definir todo o reducionismo da sociologia da desigualdade ao longo do século XX, restrita aos marcos políticos e cognitivos das histórias nacionais. É impossível, por exemplo, compreender a relação centro-periferia sem este ponto de partida, o que me levou a dedicar a ele uma atenção central.

Na sequência, procuro reconstruir as principais transformações da sociedade do trabalho em perspectiva global. Para tanto, recorro às obras de Claus Offe, André Gorz e Ulrich Beck. O conhecido questionamento de Offe, nos anos de 1980, sobre se o trabalho ainda seria uma categoria central para as ciências sociais, foi mal compreendido por boa parte do debate que se seguiu. Ele não estava dizendo que a sociedade do trabalho acabou, o que seria um argumento simplista, mas sim que o trabalho não mais proporcionava integração social no sentido do Welfarestate europeu. Logo, o problema do autor não foi emitir o atestado de óbito da sociedade do trabalho, mas sim ignorar a periferia do capitalismo em sua análise, crítica esta que faço a todos os autores analisados no livro, por razões específicas em cada um deles.

Em seguida, reconstruo a análise de Gorz sobre o que ele define como “Pós-fordismo”. Outro autor mal compreendido por boa parte da sociologia do trabalho, por conta de seu livro “Adeus ao proletariado”, publicado no ano de 1980, na década seguinte o autor realiza uma importante análise sobre o esgotamento do Fordismo. Para ele, este sistema não teria mais dado conta de alimentar com mercadorias o mundo de sonhos criado pela sociedade do consumo, o que leva o capitalismo a priorizar a produção de mercadorias “imateriais”. Sua análise é importante para compreender que tais mudanças estruturais fragmentam a classe trabalhadora, criando a situação de que agora “somos todos precários” em potencial, e não trabalhadores em potencial. O que está em jogo aqui não é retirar a possibilidade de ação da classe trabalhadora, como se a teoria pudesse ditar o que vai ocorrer na realidade, mas sim perceber seus impeditivos reais. Dai sua polêmica afirmação de que o proletariado não poderia mais ser o regente de sua própria história.

Além disso, recupero a interpretação de Ulrich Beck por outro caminho, agora sobre o que ele vai chamar de “admirável novo mundo do trabalho”. Um dos principais aspectos de sua tese da sociedade de risco, desenvolvida na década de 1980, consiste exatamente em compreender as fraturas nas dimensões do trabalho e das classes sociais, cenário este que ele vai definir como marcado pela ruptura do elo entre economia, política e estado de bem-estar social. Nesta direção, o autor vai desenvolver sua conhecida tese da “Brasilização do Ocidente”, à qual direciono uma crítica no livro. Quando vem ao Brasil, nos anos de 1990, o autor fica apavorado com a dimensão de nosso trabalho precário, que eu prefiro definir como indigno, e retorna rapidamente à Europa para desenvolver uma tese conservadora que não tematiza as razões pelas quais o sistema global, ou seja, a “economia-mundo” de Wallerstein, produziu uma periferia de países que ficam apenas com as realizações negativas do sistema, como tentei tematizar.

Por fim, o último autor que vou reconstruir no livro é Robert Castel, sem dúvida o mais crítico e instigante de todos. A partir do caso francês, este autor pouco compreendido no Brasil vai desenvolver sua importante análise sobre os “sobrantes”, ou seja, uma massa de pessoas que vai ser cada vez mais expulsa do mercado de trabalho sem nenhuma chance de reinserção, somando-se assim a outra massa de jovens que nunca terão o primeiro emprego. Esta realidade começa a assolar os países centrais desde a ruptura do estado de bem-estar, configurando o que Castel vai definir como o fim da sociedade salarial e o que eu defino como a generalização da indignidade do trabalho, inclusive nos países centrais. Neste sentido, meu argumento é que a indignidade do trabalho precário e a condição de indignidade daqueles que não tem nenhum trabalho, ou seja, uma nova ralé global, e á grande marca do novo capitalismo que se configura em escala mundial, não mais apenas nos países periféricos.

É diante deste novo cenário que precisamos tematizar a ascensão da extrema-direita, como efeito direto de um mundo de condições de trabalho e de relações entre as classes que se tornaram e se tornam neste exato momento cada vez mais indignas, problema este que não é causado pela conjuntura, mas que pode obviamente ser aprofundado por ela, quando lidamos com governos autoritários cujo projeto antissocial é evidente. Com isso, percebo o capitalismo contemporâneo também como indigno, no sentido de que se especializou na produção do desvalor da vida humana. A produção social de uma ralé estrutural sempre foi a realidade de países periféricos, como há anos vem mostrando Jessé Souza no caso brasileiro. A novidade deste novo e “admirável” capitalismo indigno, entretanto, é a produção de uma ralé global, fato este inédito na história, que inclusive em grande medida é uma ralé “digital”, oprimida pelo patrão invisível do capitalismo de plataformas.

Diante deste trágico cenário, não é difícil compreender por que a esquerda “perdeu o coração do homem simples”, que agora se entrega de peito aberto à extrema-direita. Uma releitura atenta de clássicos da Escola de Frankfurt como Erich Fromm e Adorno deixa claro que esta fragilidade da massa é um prato cheio e o grande fator causal do sucesso do sentimento fascista, no passado e no presente. Este sentimento e sua consequente transformação em política de Estado, entretanto, não se compreendem sem percebermos o “espectro da indignidade” que assola o mundo atual e que se conforma no principal pano de fundo de toda a nossa tragédia existencial no tempo presente. Neste sentido, precisamos ir para além da conjuntura e enxergar o confuso, “admirável” e indigno novo mundo do trabalho que nos trouxe até aqui.

Neste exato momento, talvez tenhamos uma chance de reviravolta no cenário brasileiro, de modo que o campo progressista ou uma esquerda renovada reconquiste o coração do homem simples, o que precisa ser convertido em voto nas urnas. Para isso, entretanto, é vital que, de dentro de nossa bolha intelectual, política, acadêmica e de classe média, comecemos a nos livrar dos entraves cognitivos e intelectuais que obstruem nossa compreensão. Este é o desafio.

*Fabrício Maciel é professor de teoria sociológica do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos e do PPG em sociologia política da UENF.