As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Ressaca eleitoral

Imagem: Ricardo Kobayaski
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO JR.*

No segundo turno, um amplo segmento da população reiterou seu irremediável descontentamento com o sistema político

Assim que os resultados eleitorais foram contabilizados, a ilusão de que seria possível enfrentar a ofensiva do capital pela via eleitoral se frustrou mais uma vez. O segundo turno das eleições municipais de 2020 confirmou as duas tendências fundamentais do primeiro turno: a) a legitimação institucional do golpe contra os direitos trabalhistas e sociais da classe trabalhadora; e, contraditoriamente, b) o aprofundamento da crise de legitimidade que abala inexoravelmente o sistema político que sustenta a Nova República.

A direita neoliberal – PSDB, MDB e DEM – e a direita fisiológica – os partidos que compõem o Centrão – ampliaram sua presença nos executivos municipais e passaram a comandar prefeituras que congregam cerca de três quartos da população brasileira.[i] Os partidos oriundos da antiga ARENA, base parlamentar de sustentação da ditadura militar, foram os que mais avançaram – numa clara vitória das forças reacionárias que defendem uma solução autoritária que atue por dentro das instituições aviltadas da Nova República.

A derrota política de Bolsonaro foi aprofundada. Dos candidatos às prefeituras das capitais apoiados publicamente pelo presidente, apenas o de Rio Branco foi eleito. Mesmo assim, no cômputo geral, a direita abertamente autoritária e anticomunista –não necessariamente bolsonarista –aumentou significativamente sua presença nos executivos municipais, governando cidades que representam mais de 7% da população nacional – 60% superior à população das prefeituras sob controle da esquerda da ordem – PT, PCdoB e PSOL.

O resultado do segundo turno eleitoral reforçou ainda mais a decadência política do PT. Das quinze prefeituras disputadas no último domingo, o partido ganhou apenas quatro, todas em cidades de menor expressão. Com a derrota em Recife e Vitória, os petistas não governarão nenhuma das capitais, pela primeira vez em décadas. Considerando os dois turnos, o partido perdeu 71 prefeituras em 2020 em comparação com 2016.

O desgaste do partido de Lula foi capitalizado pelo PSOL. No entanto, na ausência de uma ampliação do eleitorado, o resultado agregado foi equivalente a um jogo de soma zero. Não obstante os efeitos devastadores da crise sanitária, econômica e social, a esquerda da ordem não conseguiu capitalizar em votos o gigantesco descontentamento da população. O fato fica evidente na surpreendente semelhança entre a proporção de votos válidos obtidos por Bolsonaro e Haddad na eleição presidencial de 2018 na cidade de São Paulo – 60,4% x 39,6% – e a votação de Covas e Boulos no segundo turno do pleito de 2020 – 59,4% x 40,6%.

No segundo turno, um amplo segmento da população reiterou seu irremediável descontentamento com o sistema político. Mais de 38% do total do eleitorado nacional se absteve de votar ou votou nulo ou branco- a maior taxa deque se tem registro na Nova República. No Rio de Janeiro e em São Paulo, os eleitores que repudiaram as alternativas apresentadas pelo sistema político superaram por larga margem os votos concedidos aos prefeitos eleitos, ficando em 46,4% e 41% do total dos eleitores, respectivamente.

O entusiasmo eleitoral que impulsionou a vitória de Edmilson Rodrigues em Belém e que protagonizou a animada campanha de Guilherme Boulos em São Paulo, sobretudo entre expressivas parcelas da juventude, colocou o PSOL como uma estrela ascendente. O cenário mais geral é, entretanto, extraordinariamente adverso. A esquerda encontra-se acuada e o sistema político em ruína.

Sem se desvencilhar do peso morto de um status quo historicamente condenado, o partido corre o risco de morrer na praia. O avanço eleitoral da direita, sobretudo da ultradireita, e o aumento das abstenções e dos votos nulos e brancos implicam necessariamente a estagnação eleitoral da esquerda e do centro-esquerda. Na ausência de projeto de futuro, que coloque na ordem do dia a necessidade de transformações estruturais de grande envergadura, o PSOL está fadado a repetir a tragédia como farsa e passar para a história como coadjuvante de uma catástrofe anunciada.

A falta de diálogo com os trabalhadores que buscam uma alternativa antissistêmica à crise da Nova República deixa o caminho aberto para a consolidação da solução liberal-autoritária para a crise nacional, por dentro ou por fora da ordem. É o que vem condicionando a luta política no Brasil desde 2013, quando as Jornadas de Junho evidenciaram a falência da Nova República e a burguesia, diante do fim da paz social, viu-se na necessidade de reciclar a contrarrevolução que bloqueia qualquer iniciativa de mudança estrutural.

Sob o risco de suicídio político, os trabalhadores não podem jogar todas as fichas na via eleitoral como antídoto à ofensiva liberal-autoritária. Sem luta social e desobediência civil, articuladas por um projeto de transformação social, a participação no jogo eleitoral é um expediente estéril que apenas legitima um ritual de cartas marcadas.

Passou da hora de conversar seriamente com a classe trabalhadora e colocar na ordem do dia a urgência da revolução democrática, de perspectiva socialista, como única alternativa à barbárie capitalista instalada. Fundir-se com as lutas dos trabalhadores, fomentar a auto-organização da classe e defender a necessidade de soluções anticapitalistas são as tarefas estratégicas do momento histórico.

*Plínio de Arruda Sampaio Jr. é professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Entre a nação e a barbárie – dilemas do capitalismo dependente (Vozes).

Nota


[i]As informações sobre as Eleições Municipais de 2020baseiam-se em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/apuracao/2turno/br#populacao-partido-vai-governar

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
João Feres Júnior Tadeu Valadares Eleutério F. S. Prado Alexandre de Lima Castro Tranjan Tales Ab'Sáber Manchetômetro Fábio Konder Comparato Luiz Renato Martins Remy José Fontana Ronald León Núñez Ronald Rocha Slavoj Žižek Mário Maestri Leonardo Sacramento Ronaldo Tadeu de Souza Alysson Leandro Mascaro Tarso Genro Érico Andrade Daniel Afonso da Silva Renato Dagnino Eduardo Borges Dênis de Moraes Gerson Almeida Thomas Piketty Milton Pinheiro João Carlos Loebens José Micaelson Lacerda Morais Jean Pierre Chauvin Marcos Aurélio da Silva Francisco Pereira de Farias Leonardo Boff Benicio Viero Schmidt Roberto Bueno Luiz Carlos Bresser-Pereira Anderson Alves Esteves Carlos Tautz Jorge Luiz Souto Maior Igor Felippe Santos Annateresa Fabris Vladimir Safatle Lucas Fiaschetti Estevez Flávio R. Kothe Marjorie C. Marona Gabriel Cohn Bruno Fabricio Alcebino da Silva Atilio A. Boron Ricardo Abramovay Eliziário Andrade Lincoln Secco Priscila Figueiredo Leonardo Avritzer Leda Maria Paulani Eugênio Trivinho Antônio Sales Rios Neto Chico Whitaker Ricardo Antunes Rubens Pinto Lyra Paulo Fernandes Silveira Lorenzo Vitral Roberto Noritomi Bento Prado Jr. Francisco de Oliveira Barros Júnior Juarez Guimarães Sergio Amadeu da Silveira Ricardo Musse Caio Bugiato Vinício Carrilho Martinez Henry Burnett Marcelo Módolo Ricardo Fabbrini Marcelo Guimarães Lima Luiz Costa Lima José Luís Fiori Henri Acselrad André Márcio Neves Soares Luiz Marques Luiz Roberto Alves Fernando Nogueira da Costa Eleonora Albano Berenice Bento Rodrigo de Faria Samuel Kilsztajn Julian Rodrigues Anselm Jappe Sandra Bitencourt Everaldo de Oliveira Andrade Daniel Costa Luiz Eduardo Soares Fernão Pessoa Ramos Armando Boito Alexandre de Freitas Barbosa Eugênio Bucci Manuel Domingos Neto João Lanari Bo Maria Rita Kehl André Singer João Carlos Salles Jean Marc Von Der Weid Boaventura de Sousa Santos Ladislau Dowbor Plínio de Arruda Sampaio Jr. João Sette Whitaker Ferreira Antonino Infranca Salem Nasser Alexandre Aragão de Albuquerque Marilena Chauí Otaviano Helene Valério Arcary Rafael R. Ioris Carla Teixeira Andrew Korybko Valerio Arcary Mariarosaria Fabris Marcos Silva Gilberto Maringoni Dennis Oliveira Luiz Werneck Vianna Celso Favaretto José Geraldo Couto Gilberto Lopes Marcus Ianoni João Paulo Ayub Fonseca Flávio Aguiar Marilia Pacheco Fiorillo Bernardo Ricupero Denilson Cordeiro Antonio Martins Elias Jabbour Michael Roberts Kátia Gerab Baggio Luis Felipe Miguel Claudio Katz José Machado Moita Neto José Dirceu José Raimundo Trindade Chico Alencar Paulo Sérgio Pinheiro Paulo Martins Paulo Nogueira Batista Jr Francisco Fernandes Ladeira Bruno Machado Ari Marcelo Solon José Costa Júnior Vanderlei Tenório Paulo Capel Narvai Luís Fernando Vitagliano Daniel Brazil Luciano Nascimento Airton Paschoa Jorge Branco Celso Frederico Heraldo Campos João Adolfo Hansen Michael Löwy Osvaldo Coggiola Walnice Nogueira Galvão Luiz Bernardo Pericás Yuri Martins-Fontes Liszt Vieira Afrânio Catani

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada