Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo

Imagem: Cláudio Mubarak (Jornal de Resenhas)

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro do historiador Georges Duby.

Inglaterra, 14 de maio de 1219, por volta de meio dia: um cavaleiro de 73 anos, cercado de seus familiares, criados, religiosos e ainda bem lúcido de suas últimas ordens, despede-se daqueles que mais ama e põe fim a uma agonia que durou cerca de três meses. Nessa época, em que “o costume sustenta a ordem no mundo”,  as belas mortes se constituem em verdadeiras festas. O ritual da morte à maneira antiga não era uma partida furtiva, esquiva, e sim uma chegada lenta, regrada, governada – “um prelúdio, passagem solene de uma condição para outra, superior, mudança de estado tão pública quanto as bodas, tão majestosa quanto a entrada dos reis em suas leais cidades” (p. 10).

O acompanhamento do ritual da morte de um célebre cavaleiro medieval, ocupando todo um capítulo, dá início ao excelente livro de Georges Duby, Guilherme Marechal ou o Melhor Cavaleiro do Mundo. Professor do Collège de France (Paris), Duby é um historiador reconhecido internacionalmente pela sua capacidade de aliar sua extraordinária erudição à virtude de tornar o período medieval acessível ao grande público.

Duby segue o percurso de Guilherme Marechal através de um manuscrito em pergaminho, verdadeira canção de gesta encomendada pelos herdeiros de Guilherme. O objetivo: tornar o Marechal presente, vivo, uma vez que a dinastia que levava seu nome pouco perdurou após sua morte. O pergaminho tem 127 folhas com duas colunas de 38 linhas cada, perfazendo 19.914 versos. O autor do texto – que consumiu sete anos de trabalho – foi um trovador que assinou apenas como João (acredita Duby que tenha sido João de Early, amigo íntimo do Marechal). Sendo trovador, João não se informou em bibliotecas eruditas, fazendo um trabalho independente e original, bebendo em outras fontes que sem ele ficariam inacessíveis nos dias de hoje, pois pertencem à vertente profana da cultura do século XIII. Assim, o manuscrito explorado pelo historiador vem a ser “a memória da cavalaria em estado quase puro” (p. 48). Duby se vale ainda de duas obras eruditas, a saber, a edição de História (três volumes), organizada por Paul Meyer e publicada pela Sociedade Histórica Francesa (de 1891 a 1901) e, também, o livro do medievalista norte-americano Sidney Painter, William Marshall: Knight-Errant, Baron and Regent of England (Baltimore, 1933).

A partir dessas fontes Duby pretende esclarecer aquilo que ainda se conhece pouco, isto é, a cultura dos cavaleiros: “quero apenas tentar ver o mundo como esses homens o viam” (p. 55). Seguindo a trajetória de Guilherme Marechal (1145 (?) – 1219) ele reconstrói o cotidiano das sociedades inglesas e francesas nos séculos XII e XIII. É o mundo dos cavaleiros, dos torneios, das guerras constantes, da vida e da morte da nobreza na Idade Média. Praticamente relegado pela historiografia oficial, Guilherme foi provavelmente o último e o maior dos cavaleiros andantes. Quarto filho de família não inteiramente nobre, onde apenas o primogênito era um herdeiro legítimo, ele foi obrigado a participar de inúmeros torneios e batalhas para sobreviver, principalmente os que se realizavam no norte da França, ganhando um pouco de dinheiro, fama de bom combatente e honras por sua lealdade a algumas casas reais.

Em 1170, Henrique II o designou “para guardar e instruir o rei moço da Inglaterra”, que tinha apenas 15 anos. Depois de alguns anos o Marechal voltou aos torneios para ganhar o seu sustento. Retornou à corte de Henrique II com quase 50 anos e o defendeu até a morte dos ataques de seu filho Ricardo Coração de Leão, que estava aliado aos cavaleiros de França. Em combate, Guilherme derrubou Ricardo de seu cavalo, mas poupou-lhe a vida. Com a morte de Henrique II e a ascensão ao trono de Ricardo, mesmo a contragosto o novo monarca lhe concedeu como mulher a “donzela de Striguil”, riquíssima herdeira com mais de 65 feudos (ela era a segunda herdeira mais rica da Inglaterra). O Marechal tinha mais de 50 anos e a donzela apenas 17, tendo ela gerado 5 homens e 5 mulheres. Uma glória derradeira ainda esperaria pelo Marechal: em outubro de 1216, pouco antes de morrer, João sem Terra o designou regente do futuro rei da Inglaterra, Ricardo III, então com 12 anos.

George Duby produziu um “quase romance”, pois Guilherme Marechal se distingue dos trabalhos acadêmicos tradicionais. Escrito num estilo leve, despido de introduções teóricas e notas de rodapé, o livro é para ser devorado num fôlego só. A partir do estudo do professor francês, torna-se possível chamar a atenção para algumas constatações sobre a época. De início, observa-se que a maior parte das propriedades e dos bens das famílias nobres eram herdadas pelos primogênitos, cabendo aos demais filhos homens pequenas migalhas. A sociedade era eminentemente masculina, e quando se pronunciava a palavra amor, queria-se referir “ao ápice da amizade varonil”. As crianças praticamente não tinham existência, sendo a infância um mero “lugar de passagem” para a vida adulta. As mulheres eram, com frequência, dadas em casamento (acompanhadas do respectivo dote) aos filhos dos senhores amigos, bem como de ex-inimigos. Neste último caso, com a finalidade de se manter a paz numa determinada região, onde mais de um senhor predominava. Além disso, os reis podiam dispor das viúvas para entregá-las, com a finalidade de contrair novas núpcias, a cavaleiros que haviam prestado serviços relevantes à coroa. Apesar de a sociedade ser eminentemente masculina, ressalta o autor que nessa época o único poder autêntico é o dos homens casados. “O homem vale mil vezes mais do que a mulher, mas não vale quase nada se não possuir ele próprio uma mulher, legítima, na sua cama, no centro de sua casa” (p. 181).

Lendo Guilherme Marechal ou o Melhor Cavaleiro do Mundo nos empolgamos com a narrativa de Duby, e devemos dar graças aos céus que o cavaleiro andante encontrou na pessoa de um anônimo trovador um biógrafo à altura. Sua pena permitiu que todo um período histórico fosse resgatado, possibilitando que fenômenos quase milenares hoje nos influenciem nos míninos gestos. Aliás, não é por outra razão que Erwin Panofsky nos lembra que, quando alguém tira seu chapéu para cumprimentar, está reproduzindo, sem o saber, o gesto dos cavaleiros da Idade Média, que tiravam seus capacetes para manifestar suas intenções pacíficas.

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

Referência

Georges Duby. Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo (trad.: Renato Janine Ribeiro). Rio de Janeiro: Graal, 1988.

Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, Caderno 2, 27/03/1988, p. 6; Revista de Administração de Empresas (RAE), Fundação Getúlio Vargas, vol. 28, n. 3, p. 72-73, julho-setembro, 1988.