Revoluções Brasileiras: resumos históricos

Jack Bush, Low Sun, 1971
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Por DANIELLE CREPALDI CARVALHO, FRANCISCO FOOT HARDMAN & VERA LINS

Texto do Novo Prefácio a Revoluções Brasileiras: resumos históricos, de Gonzaga Duque, lançado pela Editora Unesp

          Já fazia certo tempo que a edição de Revoluções Brasileiras editada pela Editora Unesp e Cláudio Giordano, em 1998, estava esgotada e reclamava-se sua reimpressão. Aquela edição tentava fazer jus à relevância de Gonzaga Duque (1863-1911) como escritor, crítico literário e artístico, pensador libertário. Revoluções Brasileiras, depois de suas duas primeiras edições, na virada do século XIX ao XX (1898 e 1905), como que caíra em relativo esquecimento, seja como resultado da “conciliação conservadora” que predominou na política e na cultura brasileiras durante toda a República, seja pelo viés algo imediatista de nossos currículos escolares e universitários.

          Nesse sentido, a decisão editorial que nos leva, agora, a essa nova publicação da obra, apoia-se no desejo de que novas gerações de estudantes e pesquisadores se aproximem desse texto tão apaixonante quanto relativamente original em nossa galeria de ensaios críticos com clara intenção de ser instrumento paradidático de uma nova pedagogia. Para tanto, procedemos a uma revisão integral e cotejada do texto anterior, com ampliação da pesquisa de fontes bibliográficas primárias e secundárias.

Assim, a seção dedicada a resenhas e polêmicas contemporâneas às edições históricas da obra (1898 e 1905) ampliou-se significativamente, de 3 para 14 textos, selecionados aqui não só por sua importância histórico-cultural-literária, mas igualmente para indicar o relativo sucesso de sua recepção há mais de cem anos.

Decidimos incluir, também, a partir do trabalho pioneiro de Vera Lins sobre os diários inéditos de Gonzaga Duque, um excerto relativo a 1900 e às celebrações oficiais do 4º. Centenário do Descobrimento do Brasil. As referências do autor, aqui, excedem em ironia, que têm muito a ver com sua posição crítica em relação aos rumos da República, sobre a qual tantas esperanças e ilusões se sucederam, entre intelectuais e artistas, diante de seus rumos crescentemente oligárquicos e conservadores. A cena imprevista do negro anônimo escalando e tirando o véu do monumento cabralino é narrada com humor e realce, indicando uma outra perspectiva para nossa história.

E o que dizer de agora? Enredados que estamos em tempos de reação conservadora a mais violenta, no Brasil e no mundo, a reaparição de Revoluções Brasileiras, de Gonzaga Duque, pode servir de estímulo a tantos outros estudos reveladores de vozes silenciadas e reprimidas – em nossa história passada e em nossa vida presente.

Afinal, seu relato se inicia sob o signo do Quilombo dos Palmares e da liderança de Zumbi, ao final do século XVII. E, ao longo de 18 capítulos, repassa diferentes movimentos revolucionários, entre os quais a Guerra da Independência, na Bahia, a Confederação do Equador, no Nordeste, a Revolta da Cabanagem, no Pará. Termina com uma análise da Proclamação da República, onde parte significativa de nossa intelectualidade progressista, antiescravista e antimonárquica, depositou suas esperanças de um Brasil mais libertário, igualitário e solidário. Ilusões que em poucos anos soçobraram, inclusive no ideário de Gonzaga Duque: a República dos coronéis e dos oligarcas veio a vencer e dar as cartas.

          Na contracorrente das certezas precárias, comparece aqui novamente Gonzaga Duque. Que seu esforço nos ensine e nos mostre enredos de uma história a ser sempre recontada. Que seu exemplo nos revigore a continuar lutando. Como a professora Josefina Carmen Rocha, que adotou Revoluções Brasileiras na rede pública escolar do Paraná, em 1906, vamos nos inspirar em Gonzaga Duque para seguir as trilhas de uma nova pedagogia. O Brasil a deseja e a exige. Disso não podemos duvidar.

*Danielle Crepaldi Carvalho é pós-doutora pela ECA-USP em história do cinema no Brasil e autora, entre outros, de O Teatro da Modernidade: as artes na Exposição do Centenário da Independência (1922-1923) (Pedro e João, 2025).

*Francisco Foot Hardmané professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China tropical: crônicas de viagem (Unesp). [https://amzn.to/42nrjKN]

*Vera Lins é professora titular de Letras e Artes na UFRJ e autora, entre outros, de Gonzaga Duque: a estratégia do franco-atirador (Tempo Brasileiro, 1991). É pesquisadora pioneira, no Brasil, nos estudos sobre esse grande crítico de arte e escritor.

Referência


Gonzaga Duque. Revoluções Brasileiras: resumos históricos. Editora Unesp, 2ª edição, 2025, 304 págs. [https://amzn.to/4cLLWGn]

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