Por LUIZ GONZAGA BELLUZZO & MANFRED BACK*
O diálogo com Marx sobre o escândalo de 1856 revela o óbvio que a ciência econômica insiste em ignorar: na financeirização, fraude e especulação não são acidentes, mas a própria alma do negócio
1.
Os escribas deste artigo tiveram a oportunidade de conhecer e entrevistar Karl Marx, colunista do New York Daily Tribune, Marx denunciou o escândalo financeiro que abalou os súditos de sua majestade britânica em 1856. O Banco Master? Não, o Royal British Bank.
Aqui vamos transcrever partes da conversa com o colunista Karl Marx:
Nós: o senhor considera como um fato novo a fraude ocorrida no Royal British Bank?
Marx: O que distingue o período atual de especulação na Europa é a universalidade da febre. Já houve manias de jogos de azar antes das manias do milho, das ferrovias, da mineração, dos bancos, da fiação de algodão… embora todos os ramos da atividade industrial e comercial tenham sido afetados, uma mania principal conferiu a cada época seu tom e caráter distintos. Com todos os setores invadidos pelo espírito da especulação, cada especulador ainda se limitava ao seu próprio setor.
Nós: no seu entendimento, houve algo de novo no sistema?
Marx: ao contrário, o princípio fundamental no Crédit Mobilier, representante da atual mania, não é especular em uma linha específica, mas sim especular na especulação, e universalizar a fraude na mesma medida em que a centraliza.
Nós: vamos insistir para que nosso leitor entenda, por que os experts não conseguem explicar a crise do Crédit Mobilier?
Marx: Para que um grupo de diretores consuma o capital de uma empresa, enquanto anima os acionistas com altos dividendos e seduz depositantes e novos acionistas com demonstrações financeiras fraudulentas, não é necessário muito requinte. Basta a lei inglesa… Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de £50.000 e, mesmo assim, os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade.
Dividendos de seis por cento eram pagos trimestralmente, embora, segundo declaração do contador oficial Sr. Coleman, os acionistas jamais tenham sido pagos trimestralmente…
Quando o banco estava completamente insolvente, novas ações foram emitidas, em meio a relatórios otimistas sobre seu progresso e voto de confiança aos diretores. Essa emissão de novas ações não foi, de forma alguma, concebida como uma medida desesperada para aliviar a situação do banco, mas, simplesmente, para fornecer material para fraudes da diretoria. Embora uma das regras do estatuto social proibisse o banco de negociar suas próprias ações, parece ter sido prática constante onerá-lo, a título de garantia, com suas próprias ações sempre que estas se desvalorizavam nas mãos dos diretores.
Nós: o senhor tem conhecimento de envolvimento de altos funcionários do banco e o uso do que chamamos hoje de “laranjas”?
Marx: Havia dois grupos de diretores: um que se contentava em embolsar seu salário de £10.000 por ano sem saber nada sobre os negócios do banco e, assim, manter a consciência tranquila; e outro que se preocupava com a verdadeira direção do banco, mas que se tornava seu primeiro cliente, ou melhor, seu saqueador. Este último grupo, dependendo do gerente, começava por deixar o gerente se acomodar sozinho.
Além do gerente, eles também tinham que manter em segredo o auditor e o advogado da empresa, que, consequentemente, recebiam subornos em adiantamentos. Além dos adiantamentos feitos a si mesmos e a seus familiares em seus próprios nomes, os diretores e o gerente passaram a nomear vários laranjas, em nome dos quais embolsaram novos adiantamentos. O capital integralizado totaliza agora £150.000, dos quais £121.840 foram absorvidos direta e indiretamente pelos diretores.
O fundador da empresa, Sr. McGregor, membro do Parlamento por Glasgow e renomado escritor de estatísticas, deixou um empréstimo de £7.362 para a empresa; outro diretor e membro do Parlamento, Sr. Humphrey Brown, de Tewkesbury, que utilizou o banco para pagar suas despesas de campanha eleitoral, chegou a ter um débito de £70.000 com a instituição e parece ainda estar devendo £50.000. O Sr. Cameron, o gerente, recebeu adiantamentos no valor de £30.000. Não deveriam ter recebido dividendos. No verão passado, demonstrações contábeis fraudulentas no valor de mais de £370.000
Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de £50.000, e mesmo assim os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade”.
Nós: houve algum tipo de triangulação com setores da indústria inglesa? Há indícios claros de que se trata de “lavagem de dinheiro”?
Marx: “Uma das transações mais extraordinárias e características do Royal British Bank foi sua ligação com uma siderúrgica galesa. Na época em que o capital integralizado da Companhia era de apenas £50.000, os adiantamentos feitos somente a essa siderúrgica totalizaram £70.000 a £80.000. Quando a Companhia tomou posse dessa siderúrgica, ela estava inviável.
Após se tornar viável com um investimento de cerca de £50.000, a propriedade ficou nas mãos de um Sr. Clarke, que, depois de explorá-la “por algum tempo”, a devolveu ao banco, “expressando sua convicção de que estava desperdiçando uma grande fortuna”, deixando, no entanto, o banco com uma dívida adicional de £20.000 referente à “propriedade”.
Assim, essa empresa saía das mãos do banco sempre que havia perspectivas de lucro e retornava ao banco quando novos adiantamentos eram necessários. Essa brincadeira de mau gosto que os diretores tentavam levar adiante até o último momento de sua confissão, ainda exaltando a capacidade lucrativa das instalações, que, segundo eles, poderiam render £16.000 por ano, esquecendo-se de que custaram aos acionistas £17.742 durante cada ano de existência da empresa.
Os negócios da empresa serão agora liquidados no Tribunal da Chancelaria. Muito antes que isso possa ser feito, porém, todas as aventuras do Royal British Bank terão sido afogadas no dilúvio da crise europeia generalizada”.
2.
Nunca é um caso isolado, como a economia das expectativas racionais brada aos sete ventos. “Racional” na economia monetária-financeira capitalista é a ganância. Há quase uma correlação perfeita entre dinheiro e ganância: são estes os “fundamentos” que sustentam a relação entre especulação e alavancagem. A fraude é só uma extensão.
Nossos experts da ciência triste, a economia, insistem que o mercado financeiro e a especulação seriam uma espécie de tumor do sistema, um planeta distante na galáxia. Não teria importância nem qualquer efeito no dia a dia do mundo produtivo real da dita “economia racional”. Outros Masters virão, previsão mais do que certa!
*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]
*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.






















