Sangue no asfalto, corpos estendidos no chão

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Por EMILIANO JOSÉ*

A carnificina no Rio não é falha de um plano, mas seu êxito macabro: corpos pobres como moeda em um jogo político que instrumentaliza a guerra às drogas para servir a agendas de poder local e internacional

1.

Enquanto o sangue ferve, falar um pouco sobre o massacre do Rio de Janeiro, levado a cabo pelo bolsonarismo. A mim, não é possível escrever sem indignação. Sem me comover. A sociedade do espetáculo tenta a todo instante naturalizar violências de quaisquer naturezas, tratá-las como da rotina e por ser da rotina considerá-las da normalidade da vida. Não é.

O sangue de mais de 120 jovens inunda a Cidade Maravilhosa, a tentar e conseguir retirar-lhe o título antes tão apropriado. Não é possível, a mim ao menos não é, ficar insensível com aquela fileira de corpos na rua, e eram apenas parte da chacina. Havia outros tantos, oficializados.

Tentação às vezes de dizer o Haiti é aqui. Ou parece Gaza. Nada disso: é o Brasil. Não é massacre inédito. O maior da cidade do Rio, no entanto. Uma parte de nossa juventude está sendo assassinada à luz do dia.

Os cadáveres sobre o asfalto, resgatados pela própria população do meio da mata, onde haviam sido conscientemente encurralados, e mortos. Comando da operação revelou: havia sido planejado o cerco da mata para matá-los, uma pena de morte coletiva, assim decretada. O governo do Rio implantou tal pena de morte. Tiros na cabeça, corpos mutilados, cabeças cortadas, facadas, o diabo. E, também, policiais mortos – houve mãe criticando o governador Cláudio Castro pela operação, ela no enterro do filho. Horror.

Familiares fizeram valer o direito do pranto, da lágrima sentida, abraçados aos corpos dos entes queridos estendidos no chão. Comovente, ver mães, irmãos, parentes chorando copiosamente sobre os cadáveres. Ou sobre os corpos dos policiais mortos.  Barbárie, assassinato a sangue-frio de jovens. Nada, absolutamente nada justifica tal massacre.

Só pode ser explicado, jamais justificado, por uma orientação política, primeiro, da extrema direita mundial, Donald Trump à frente, numa aparente cruzada contra as drogas, e digo aparente porque os EUA são o maior consumidor de drogas da humanidade. Segundo, até porque da mesma corrente, súdita do presidente americano, da orientação bolsonarista, pretendendo atender à estratégia trumpista de agressão à América Latina, e atingir o governo do presidente Lula.

Não é pura especulação dizer da identidade do bolsonarismo com Donald Trump na operação. O governo de Cláudio Castro enviou relatório a Donald Trump classificando o Comando Vermelho como grupo de atuação internacional com características de grupo terrorista, tudo de acordo com o pensamento trompista, cuja ação contra barcos no mar do Caribe mostra a disposição do império em decadência de buscar argumentos para reforçar a agressão à América Latina – cerco a Venezuela, ameaças à Colômbia, sobretaxas ao Brasil.

2.

Não me parecem sensatas nem inteligentes análises a falar simplesmente de operação tresloucada. Não foi. Teve objetivos nítidos, a envolver os caminhos do mundo e do Brasil. Atribuir o massacre a uma loucura momentânea do governador é fazer debate raso. Nossa mídia empresarial não quer ir fundo. Evita tratar o massacre no âmbito de uma operação pensada, com objetivos nítidos.

Nenhuma dúvida: o crime organizado é um problema muito sério. Há de ser combatido. O bolsonarismo, a rigor, não quer combatê-lo. Quer apenas tentar garantir a caracterização das facções criminosas como terroristas, e com isso, insista-se, atender às expectativas do presidente americano, doido para ter argumentos para ações letais em quaisquer territórios da América Latina.

Há uma correta PEC da Segurança em tramitação, originária do governo Lula, a pretender coordenação entre todas as forças envolvidas no combate ao crime organizado. Tal PEC é objeto de ataque cerrado do bolsonarismo, a pretender a continuidade dessa insana guerra contra as drogas, necessária para os objetivos dessa corrente, a cultivar o amor às armas, à violência, e à cumplicidade entre o Estado e o crime.

O caminho para o enfrentamento do crime organizado não é o da violência. É o da inteligência. Recentemente, o governo federal demonstrou o quanto isso é possível ao desencadear uma grande operação destinada a combater, aí sim, os cabeças do crime organizado.

Naquela empreitada, evidenciou-se a íntima conexão entre o capitalismo, por óbvio, e o crime organizado. Na Faria Lima, os cabeças. Não na favela. Trocados circulam nos morros e periferias. O dinheiro grosso advindo do crime organizado, das facções e das milícias, é lavado em ambientes requintados, onde verdadeiramente circulam os chefes. É o capitalismo, estúpido!  Aquela operação, muito bem-sucedida, não disparou um único tiro. É possível, portanto, combater o crime usando a arma da inteligência, sem violência.

Nesse combate, a PEC da Segurança ajuda muito. A ver como ela se desdobrará. Toda essa discussão, vou insistir nisso, e de certa forma assombrar alguns, diz respeito a uma situação contingente, emergencial, a reclamar medidas urgentes.

Há um lado estratégico, eu diria civilizatório: como tratar o problema da droga. Subestimamos tal debate. Como se houvesse alguma chance de o Estado vencer essa guerra. Não vence, não vencerá. Sei tratar-se de uma discussão controversa. Há medo de tocar nesse assunto. Toco.

3.

A sociedade mundial, se não o fez ainda, há de compreender a impossibilidade de a civilização viver sem droga. Ouvi um dia um especialista dizer da essencialidade da droga por uma coisa muito simples: o ser humano necessita dela para enfrentar a finitude. Inventou a droga para encarar a morte. O fato: não vive sem ela. Nunca viveu. E nem viverá.

Então, regular o mercado, legalizar, fiscalizar. Tornar as drogas mercadorias legais. Mercadorias, já são. Incorporadas ao mundo do capitalismo. As ilegais, regadas a sangue. Melhor seja possível comprá-las na farmácia. As legais, e tão letais quanto ou mais, como o álcool, estão aí, a produzir bilionários e a causar irreversíveis problemas de saúde. Circulando por todos os cantos, hoje sem repressão – tempos atrás, a proibição do álcool alimentou a expansão da máfia.

Enquanto não se legalizar todas as drogas, regulando-as, reduzindo danos no que for possível, dando-lhes estatuto de mercadoria legal, enquanto não se fizer isso, e já disse não desprezar as medidas contingentes fundadas na inteligência, estaremos enxugando gelo.

O massacre do Rio, lado a lado com tantos outros, com uma gigantesca fileira de corpos a nos assombrar, a nos indignar, o massacre do Rio é resultado de um desastre político continuado no Estado, mas é, também, a evidência do caminho seguido nessa guerra insana, sem saída.

Como não sei rezar, como sou ateu, torço para o avanço da razão, da reflexão mais profunda, um mergulho do pensamento progressista, capaz de ir às raízes da civilização, e à compreensão de uma convivência pacífica com as drogas. Se isso não se faz, a guerra continua, corpos estendidos no chão, sem chance de vitória.

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]

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