Segundo (o) bem-te-vi

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Por FLÁVIO R. KOTHE*

O que resta de uma existência: fumaça que se forma no ar, um jogo de estratégia cruel e os olhos curiosos de um pássaro que não compreende o luto

Dias depois do susto que o bem-te-vi tinha levado da água suja jogada janela afora pela faxineira, voltou a assumir seu posto no galho que espiava para dentro do quarto no andar de cima da casa. Era bom posto, não tanto pelo que se passava no quarto, mas porque dava para observar os insetos que voavam no gramado e entre as árvores. Ele tinha outro posto no lado de lá do gramado, mas que ficava mais baixo e permitia ver os insetos que voavam sobre o gramado ou pousavam na grama.

Não se assustava mais quando o idoso senhor da casa, arquiteto conhecido e reconhecido, autor do projeto de sua moradia, caminhava entre as árvores que ele mesmo havia plantado quarenta anos antes. Os dois se conheciam, mas não se cumprimentavam. O bem-te-vi saudava o sol da manhã, se alegrava com o grandioso fato de estar vivo; o ancião caminhava entre as árvores que havia plantado, a maioria frutíferas, que aos vinte anos já tinham vinte metros de altura.

Quando a casa foi construída, havia um terraço, que se separava do mezanino por seteiras fechadas com vidros blindados. Quando os bem-te-vis se assentavam no terraço, viam suas figuras refletidas nos vidros: achavam que seu território havia sido invadido. Chamaram parentes da vizinhança e, um a um, iam se jogando contra o inimigo que estava dentro do vidro. Eram pancadas violentas, acompanhadas de grunhidos raivosos, bem diferentes dos gritos álacres que deram o nome ao pássaro. O arquiteto ouviu a barulheira, deu uma risada e colou jornais nos vidros, até que ficasse pronta uma cortina que também impedia o reflexo dos pássaros.

Ouvindo ruídos no quarto do andar de cima, o nosso bem-te-vi voou até o galho ao lado da janela e espiou para dentro do quarto. O velho amigo não estava mais lá. Em compensação, dois amigos dele estavam armando as peças no jogo de xadrez, sobre uma mesinha iluminada pela luz da janela. Eram os mesmos que costumavam visitá-lo uma vez por semana, quando jogavam entre si, sendo substituído pelo reserva aquele que havia perdido.

Quatro castiçais sustentavam quatro velas grossas acesas pelos cantos da cama. Serviam para defumar o ambiente, expurgar micróbios de doenças, acabar com maus-olhados. O olhar agudo do pássaro notou que o centro de cada vela era escuro: a luz provinha da escuridão. O bem-te-vi inclinou a cabeça, trocou de lado para ver se não estava se enganando. A cama estava vazia, sem lençol ou travesseiros. A fumaça das velas subia, rodeava a cama, percorria o teto. Um cheiro forte impregnava o quarto.

O bem-te-vi coçou o peito com o bico e viu que, lá embaixo, sobre a folha que havia sido amarela e agora já estava marrom, uma lagarta gorducha e gostosa caminhava sobre dezenas de pés. Deu um mergulho, pegou o inseto no bico, repartiu-o em dois e daí engoliu um a um. Agradeceu à amiga folha por ter-lhe servido o almoço como se prato fosse.

Ela seguia o destino de se tornar adubo e promessa. Assumia tornar-se terra fértil, esperando que em nova gestação pudesse tornar-se melhor. Vivia de esperança e conformismo. Na agonia, servia de prato ao rival.

Para ela, não fazia sentido dizer tu és pó e ao pó hás de retornar. Era época das chuvas, não havia pó. Os egípcios, querendo preservar os corpos, haviam notado a semelhança de cor e consistência entre músculos e barro. Do barro fazer pó era dizer que bastava um sopro para se desaparecer, devendo o ouvinte grudar-se ao pastor. O que vem do pó e ao pó retorna são a poeira, a vassoura e o aspirador. Quem fosse apenas pó não ficaria de pé. Ficaria apenas prostrado, sequer ajoelhado.

O bem-te-vi voltou ao galho junto à janela. Dois amigos do falecido estavam arrumando as peças de um jogo de xadrez posto sobre uma mesinha redonda iluminada pela outra janela. Os três costumavam se reunir uma vez por semana para colocar a conversa em dia, beber um vinho e jogar xadrez. Quem perdia cedia o lugar para o parceiro que tinha ficado olhando e era chamado de Kiebitz, um quero-quero a vigiar o pampa.

Os dois remanescentes faziam uma homenagem ao falecido, como se o jogo fosse uma missa fúnebre. A luz da janela batia no tabuleiro, os dois contendores estavam tão concentrados no jogo que não percebiam nada mais ao redor. Era um jogo indecente, em que o bispo podia comer a rainha ao lado da torre, um jogo tão violento que ia acumulando cadáveres à beira do campo de batalha. Somente havia paz quando se via o rei no cadafalso.

O bem-te-vi conhecia os dois: já os havia visto muitas vezes. Quando o tempo estava bom, jogavam debaixo das árvores, fruindo a brisa que passava. Eram parceiros, antigos colegas de trabalho, amigos.

Enquanto eles se digladiavam, o bem-te-vi ficou olhando a fumaça que saía das quatro velas e viu que ela se juntava no alto, flutuava por cima da cama, configurando um corpo, como se o falecido tivesse retornado em forma de ectoplasma, a espiar o jogo dos amigos, olvidando que havia defuntado. Era como se, além do corpo, houvesse um equivalente psíquico e, além desses dois, uma energia espiritual que movesse todo o pensar, sentir, agir. Essa energia poderia, talvez, perdurar por alguns dias, pairando no ar, aparecendo ou não para raras pessoas próximas, mas também destinada a se desvanecer, como de uma lembrança se faz olvido.

Bem-te-vi e ectoplasma cruzaram os olhares. O pássaro meneou a cabeça, como se estivesse perguntando o que aquela fumaça ainda estava fazendo ali. O ectoplasma piscou um olho, depois o outro, sorriu como se dentes tivesse. Tudo bem, não mais sofria. Mas, se fosse espírita, teria de temer a longa viagem para os espaços em torno da Terra, passar frio durante anos a fio, à espera da oportunidade de ter abrigo no corpo quente de um recém-nascido.

O defunto gostava mais de olhar o jogo dos outros em vez de jogar. Quando ele próprio jogava, sentia-se tenso. O jogo era todo feito de armadilhas, astúcias, prepotência e morte. Ele planejava o seu jogo para que um peão se tornasse bispo, torre ou rainha. Querendo impor destino à história, perdia-se no caminho. O destino do jogo não era promover proletários, mas matar o rei inimigo.

O ectoplasma se sentou no ar para ver melhor o jogo. Parecia que só o bem-te-vi o via bem. Os dois jogadores estavam tão tomados pela política das peças que não queriam ver o mais evidente e perder a concentração. Nada viam ao redor: o mundo se reduzia às quatro linhas do tabuleiro. Fora disso, nada mais havia.

Quando o bem-te-vi ouviu um jogador gritar “xeque!” com o júbilo do vitorioso, o outro jogador, que havia previsto essa jogada e não alertara o adversário quanto à burrada que ele estava prestes a fazer, moveu o rei e assim desencobriu torre, ameaçando, ao mesmo tempo, o rei e a rainha do outro, forçando a troca da rainha pela torre. Daí o jogo mudou de lado, quem parecia prestes a perder se tornou implacável atacante, disposto a acabar com o outro. Não havia piedade. Nem comiseração com a fraqueza. Tudo era vontade de vencer.

Com uma lufada de vento que atravessou o quarto, as velas se apagaram, o ectoplasma se desfez. Logo o jogo acabou, as peças foram recolhidas numa sacola, os jogadores decidiram ir embora. A despedida havia se completado, nada mais havia a fazer. Começou a chover devagar.

O bem-te-vi voou até o seu posto de caça no outro lado do gramado. Havia notado que fêmeas de cupim estavam em revoada. Comeu até se fartar. Não havia nele a menor piedade pelos insetos devorados. Achava que estava fazendo um upgrade deles. Afinal, se achava uma espécie superior, o que se provava e comprovava no simples fato da devoração.

*Flávio R. Kothe é professor titular aposentado de estética na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Alegoria, aura e fetiche (Editora Cajuína). [https://amzn.to/4bw2sGc].


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