O lábaro estiolado

Clara Figueiredo, cabra cega, fotomontagem digital, 2020
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EUGÊNIO BUCCI*

Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem

No feriado de 15 de novembro, data da Proclamação da República, subiu um pouco o número de pedestres que se concentram em frente a quartéis de algumas cidades brasileiras para requisitar um golpe de Estado. Tem sido assim desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou o resultado das urnas, dando a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva. A turma que não se conforma exige que as baionetas anulem a eleição. Uma das faixas desfraldadas em São Paulo, diante da sede do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa, resumiu bem o espírito do pessoal: “Nação brasileira implora por socorro – SOS Forças Armadas”.

Como nomear esse tipo de coisa? Com acerto, a imprensa vem se valendo de adjetivos precisos: “atos golpistas”, “manifestações antidemocráticas” ou “inconstitucionais”. É o que são, de fato. Na linguagem do jornalismo, o emprego de qualificativos criteriosos dá mais objetividade, e não menos, ao que se descreve. Um ato público que solicita uma ruptura violenta da ordem democrática só pode ser definido como golpista, assim como um cidadão que tem nacionalidade brasileira e dispõe de passaporte brasileiro só pode ser definido como um cidadão brasileiro.

As aglomerações às portas dos quartéis trazem uma pauta de reivindicações inconstitucionais e ilegais. Logo, são golpistas. Dar o devido nome aos fatos, com substantivos e adjetivos, é um dos deveres mais valiosos da imprensa – e é exatamente esse dever que a imprensa está cumprindo quando chama de golpistas as manifestações golpistas.

Não adianta dizer que são apenas reuniões “pacíficas” e “ordeiras”. Não são, não senhor. Do mesmo modo que uns minguados caminhoneiros bloquearam estradas pelo país afora, num levante criminoso e até agora muito mal explicado, esta turma quer estrangular as vias do Estado Democrático de Direito. Mais do que os caminhoneiros sabotadores, querem inviabilizar o país. O seu propósito não tem nada de “pacífico”, não tem nada de “ordeiro”. Quanto aos quartéis, em vez de se esgueirar na ambiguidade melíflua, deveriam se considerar ofendidos com o assédio da barbárie que se amontoa ao redor de seus muros.

O que mais chama a atenção, contudo, é o mau gosto infantiloide que há nisso tudo. As imagens mostram adultos em trajes auriverdes perfilados sobre o asfalto para brincar de “marcha-soldado”. O golpismo da temporada tem uma nota pueril, por mais que seja perverso. Uns batem continência. Outros marcam passo, desengonçados e balofos, como escoteiros da terceira idade. Sempre aparece alguém tocando corneta (e mal). Como crianças amedrontadas, pedem “socorro” à força bruta para dar cabo de assombrações que não existem. Um lá fez discurso e disse que os apartamentos de mais de 60 metros quadrados serão ocupados e repartidos pelo novo governo. Delírios imobiliários. O atual presidente (agora empenhado no abandono de emprego) se reuniu com Geraldo Alckmin e pediu a ele que ajudasse a livrar o Brasil do “comunismo”. Delírios reacionários. Um fantasma ronda a imaginação devastada dos crianções envelhecidos: o fantasma do fantasma do fantasma do comunismo.

A vestimenta dos circunstantes também merece registro. O pendão nacional virou um adereço prêt-à-porter que as senhoras mais ricas usam como um lenço, uma écharpe tropical. Os homens tendem a vestir a mesma peça como se fosse uma capa de super-herói, e há os que improvisam um capuz quando chuvisca. O lábaro emoldura o bárbaro estrilado.

Que espetáculo desconcertante. Quando vemos as vagas em verde-amarelo pela televisão, a cena parece saída de um daqueles filmes de zumbis. Os tipos que se movem na tela, implorando a intercessão da brutalidade, lembram mortos-vivos políticos adornados pelo estandarte pátrio e armados de telefones celulares. Deserdados pela ditadura militar extinta, transitam num limbo entre a tirania defunta e a ordem democrática em formação. Eles não souberam se desprender do que a história já cuidou de sepultar e não se sensibilizam com o que a nação presente tenta construir.

Com ares de comédia, o que vem se desenrolando é uma tragédia. Seria um erro zombar da situação. Dia destes, em Nova York, ao ser importunado por alguém que o perseguia na calçada com um celular dizendo frases de morto-vivo político, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso virou o rosto para trás, sem diminuir o passo, e disparou: “Perdeu, mané. Não amola”. A tirada do magistrado soa sardônica, mas o impasse é grave. As forças que procuram fazer regredir a roda da História nacional não estão aí a passeio. Por um triz, não ganharam as eleições. Suas performances são cafonas, sua estética é jeca e seu discurso, infantil, mas nunca, desde a redemocratização, estiveram tão organizadas e tão determinadas como agora.

As pequenas multidões de camisa amarela que agora acampam nas cercanias da soldadesca têm lá o seu quê de ridículo, mas o que elas expressam é mais profundo e ameaçador. Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Mariarosaria Fabris José Dirceu Vinício Carrilho Martinez Matheus Silveira de Souza Francisco Pereira de Farias Ricardo Antunes Francisco de Oliveira Barros Júnior Berenice Bento Sandra Bitencourt João Carlos Loebens Tarso Genro Marjorie C. Marona Valerio Arcary Boaventura de Sousa Santos Sergio Amadeu da Silveira Gerson Almeida Michael Löwy Marcus Ianoni Luís Fernando Vitagliano Alexandre Aragão de Albuquerque Gilberto Lopes Tadeu Valadares Slavoj Žižek Armando Boito Ricardo Fabbrini Caio Bugiato Henry Burnett Érico Andrade José Raimundo Trindade Marcos Aurélio da Silva Paulo Nogueira Batista Jr Manuel Domingos Neto Antonino Infranca Luis Felipe Miguel Salem Nasser Elias Jabbour José Luís Fiori Liszt Vieira Gabriel Cohn Paulo Martins José Geraldo Couto Dennis Oliveira Chico Alencar Daniel Afonso da Silva Ricardo Musse Henri Acselrad Flávio R. Kothe Jean Marc Von Der Weid José Micaelson Lacerda Morais Manchetômetro Tales Ab'Sáber Bruno Fabricio Alcebino da Silva Juarez Guimarães Marcos Silva Eleonora Albano Eugênio Trivinho Chico Whitaker Luiz Werneck Vianna Fernão Pessoa Ramos João Feres Júnior Daniel Brazil Bernardo Ricupero Luiz Carlos Bresser-Pereira Alexandre de Lima Castro Tranjan Flávio Aguiar Dênis de Moraes Marilia Pacheco Fiorillo Ari Marcelo Solon Leonardo Boff Atilio A. Boron Milton Pinheiro Vladimir Safatle Bento Prado Jr. Eduardo Borges Paulo Sérgio Pinheiro João Sette Whitaker Ferreira Mário Maestri Yuri Martins-Fontes Maria Rita Kehl Leonardo Avritzer Michael Roberts Bruno Machado Priscila Figueiredo Julian Rodrigues Luiz Marques Paulo Capel Narvai Rodrigo de Faria José Costa Júnior Remy José Fontana Rubens Pinto Lyra Osvaldo Coggiola João Adolfo Hansen José Machado Moita Neto Jean Pierre Chauvin Ronald Rocha Luiz Eduardo Soares Valerio Arcary Walnice Nogueira Galvão Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Jorge Branco Carlos Tautz Denilson Cordeiro Lucas Fiaschetti Estevez Fábio Konder Comparato Igor Felippe Santos Michel Goulart da Silva Ladislau Dowbor Antonio Martins Leda Maria Paulani Benicio Viero Schmidt João Lanari Bo Lincoln Secco Afrânio Catani Paulo Fernandes Silveira André Márcio Neves Soares João Paulo Ayub Fonseca Airton Paschoa Ricardo Abramovay Rafael R. Ioris Gilberto Maringoni Luciano Nascimento Anselm Jappe Lorenzo Vitral Samuel Kilsztajn Celso Favaretto Luiz Roberto Alves Ronald León Núñez Vanderlei Tenório Kátia Gerab Baggio Claudio Katz Plínio de Arruda Sampaio Jr. Ronaldo Tadeu de Souza Otaviano Helene Daniel Costa Eleutério F. S. Prado Francisco Fernandes Ladeira Marilena Chauí Luiz Renato Martins Jorge Luiz Souto Maior Marcelo Guimarães Lima Carla Teixeira Heraldo Campos Alysson Leandro Mascaro Everaldo de Oliveira Andrade Andrés del Río Renato Dagnino Thomas Piketty Eliziário Andrade Alexandre de Freitas Barbosa Celso Frederico Antônio Sales Rios Neto André Singer Marcelo Módolo Fernando Nogueira da Costa Eugênio Bucci Andrew Korybko Annateresa Fabris Leonardo Sacramento João Carlos Salles Luiz Bernardo Pericás

NOVAS PUBLICAÇÕES