Sobre a contratação de transportes públicos

Imagem: Kseniya Kopna
image_pdf

Por LÚCIO GREGORI*

O sistema é erradamente remunerado como se passageiro fosse um custo

A questão dos transportes coletivos urbanos é assunto que apresenta vários aspectos interessantes. Por vivermos num país capitalista, pelo menos em tese e princípios, muitos pensam que o transporte coletivo também deveria ser submetido à livre concorrência. Margareth Thatcher e Pinochet fizeram isso a seu tempo e o resultado foi que nas áreas com grande número de usuários havia disputa feroz pelos passageiros e nas áreas suburbanas de baixa demanda, não havia prestadores do serviço.

Claro, tudo voltou a ser com as áreas onde só um prestador faz o serviço. A isso se chama um mercado monopsônio, digamos o inverso do monopólio. A quantidade de passageiros não aumenta e nem as tarifas ficam menores em geral, pela concorrência. Simplesmente desaparece o serviço onde existem poucos passageiros relativamente a outras com grande número destes.

Resumindo, o mercado monopsônio permite apenas a operação de uma só empresa concessionária por área em que é dividida a cidade. Cada área deverá ter linhas com baixo rendimento inclusive. Daí é que surgiu um indicador muito difundido que é o IPK, índice de passageiros por quilômetro, a forma de se classificar as linhas ditas mais eficientes sob o ponto de vista de passageiros transportados. Então a concessionária monta sua garagem na área de operação e busca ter o maior número de linha de alto IPK e o mínimo possível das com baixo IPK. E por essa razão existem áreas da cidade mais cobiçadas do que outras, que são as que têm maior densidade de usuários.

E mais, como o sistema é erradamente remunerado como se passageiro fosse um custo, quando é receita, além de áreas com maior IPK, ônibus mais lotados significam maiores ganhos e menores gastos. Incrível, mas até o vírus da Covid sabia que passageiro é receita, tanto que com a pandemia, desabou a receita das empresas prestadoras e não, seus custos.

Não é por nada que, com a questão da garagem aí incluída, empresas dominam certas áreas por anos a fio, havendo casos de quase cem anos e assim por diante.

Tudo parece estar estabelecido dessa forma, com as concessões clássicas com remuneração por passageiro transportado desde 1817, quando D. João VI fez a primeira concessão ao sargento-mór do palácio imperial.

Mesmo com o sistema de contratação por fretamento, ou seja, pagando-se os custos operacionais e deixando a tarifa desligada da remuneração do contratado, se manteve e se mantém no geral, o sistema por áreas exclusivas e garagens das operadoras.

Eis que de repente, não mais que de repente, se evidencia que as garagens desempenham papel estratégico facilitando muito os operadores que já as têm daqueles que precisarão montá-las. Não por outra razão as concorrências exigem a existência de garagem pelo concorrente. Mais um obstáculo para a entrada de novos concorrentes.

Assim sendo, se as garagens fossem do município e alugadas aos vencedores, poder-se-ia aumentar bastante os números de empresas concorrentes, pois é na licitação que ela se pode dar, uma vez dado o mercado monopsônio.

Podemos ir mais longe. Com as garagens municipais e fazendo-se concorrência apenas de fretamento, acaba-se com as áreas exclusivas, podendo-se contratar vários fretadores, independentemente de área de operação, claro que mantendo-se um bom nível de eficiência do sistema.

Assim é que se acaba com as empresas “especializadas” em transportes de passageiros e pode-se ter um enorme mercado concorrencial de fretadores de veículos.

No Rio de Janeiro, recentemente em concorrência de BRT, foram estabelecidas as garagens municipais, ficando a concorrência em termos do custo de fretamento e adicionalmente se separou o projetista do sistema e contratante do fretamento, do controlador da prestação de serviço e claro, dos fretados.

Fica aí colocada a verdadeira forma de se aumentar a concorrência na contratação de prestadores do serviço dentro de um sistema de mercado monopsônio.

E me perdoem os leitores, com a tarifa zero na outra extremidade se terá, de fato, as condições para um sistema de transportes públicos como direito social, tal com está escrito no artigo sexto da Constituição Federal. Simples assim.

*Lucio Gregori, engenheiro pela USP, foi secretário municipal de transportes no governo de Luiza Erundina.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
6
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
14
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES