Um Jesus? ou uma multidão de disfarces?

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Um Jesus? ou uma multidão de disfarces?

Por MARILIA PACHECO FIORILLO*

Pequeno dicionário de versões e contrafações de um mito sequestrado

“O crente não se deixa despojar de sua fé, nem com argumentos nem com proibições. E se isso porventura fosse conseguido, seria uma crueldade. Uma pessoa habituada a tomar narcóticos não conseguirá dormir se a privarmos deles” (Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão).

1.

O cristianismo atual – católico, evangélico, luterano, calvinista, anglicano, pentecostal e neopentecostal, presbiteriano, adventista… do Templo Bola de Neve (cujo altar é uma prancha de surfe) ou do de Aparecida (imbatível) – pode parecer multifacetado, mas tem muito, mas muito menos denominações, cismas e disputas do que teve o cristianismo primitivo, ou “paleocristianismo” (séculos II, III e início do IV, até o imperador Constantino oficializar uma de suas vertentes como religião do Império). A pretensa unidade e unanimidade da Igreja primitiva é a mais mirabolante e insidiosa ficção.

Como fato, é comprovadamente falso: havia, no mínimo, 53 evangelhos espalhando cada qual sua boa nova, a partir de uma tradição oral que foi tomando contornos e edições distintas conforme a geografia dos seguidores de certo profeta excêntrico, que pregava a humildade (algo inédito) e o ‘dar a outra face’ (nem tanto).

E mesmo como dogma a tal unanimidade do cristianismo é discutível, pois as três premissas magnas em que se pautam seus executores católicos – o cânone das escrituras, o credo e a estrutura institucional – só foram instauradas depois que um bispo de Alexandria mandou queimar todos os evangelhos que não fossem os quatro que constam até hoje, e Constantino resolveu que o catolicismo seria uma pedida mais adequada do que o arianismo ou mitraísmo, este último muito popular nas legiões de soldados romanos.[i]

Dois mil e tantos anos passados, até mesmo alguns relutantes teólogos se convenceram da inconsistência da teoria da unidade originária da Igreja, o que resultou numa nova fornada de interpretações sobre seu presumido fundador, isto é, o Jesus histórico – se ele existiu em carne e alma, ou não, seria uma questão secundária, segundo o teólogo Rudolph Bultmann, pois o que prosperou foi a mensagem do professor de sabedoria. A única referência direta ao nome Jesus foi feita pelo historiador judeu Flavio Josefo, nascido em 37 na Palestina, e que o menciona em Antiguidades judaicas, escrita nos anos 90.

Só esse pormenor (teria sido Jesus um anônimo inspirado ou Deus encarnado, ou filho de Deus, ou…) demandaria uma torrencial pilha de páginas, como à época instigou muita perseguição, e no correr dos séculos banhos de sangue. Mas voltemos ao tema do mito Jesus. Após a descoberta, em papiros e códices, de evangelhos apócrifos (um deles, o de Tomé, cuja cópia, submetida a testes de carbono 14 e outros, provou ser mais antiga que as cópias sobreviventes dos canônicos), dois novos consensos se insinuaram.

O primeiro: Jesus, quem quer que tenha sido, nunca se arrogou o papel de Deus (e muito menos de segunda pessoa da Trindade ou algo do gênero). O segundo: fosse quem fosse, ele jamais pretendeu fundar uma Igreja burocratizada à parte – e muitíssimo menos designar sucessores ou apóstolos.

Foram dois significativos saltos à frente, dos anos 70 em diante, no século passado: Jesus não se achava Deus, nem nomeara herdeiros. E um claro golpe assestado na doutrina da “sucessão apostólica”, aquela segundo a qual legítimos são apenas os bispos que aprenderam pessoalmente com outros que aprenderam com outros que, por sua vez, aprenderam com… aqueles apóstolos nomeados pelo próprio Jesus. Dois passos à frente e um atrás, porém. Em vez de levar essas conclusões à sua previsível exasperação (se Ele não queria fundar uma nova Igreja, o quanto as que se dizem d’Ele são legítimas?), o debate rodopiou sobre si mesmo e estacou num detalhe. O de sempre. A pergunta que se faz desde o primeiro concílio, de 325, em Nicéia: qual a natureza de Jesus?

2.

O primeiro Concílio, sob a égide do novo convertido Constantino, havia mostrado muito mais rivalidade que fraternidade. A principal divisão foi entre os arianos e os trinitaristas (futuros católicos). O pretexto era a natureza de Jesus. Os arianos, frequentadores mais assíduos da lógica, sustentavam que o Pai estava acima do Filho, mesmo que ambos partilhassem da mesma natureza, e adotaram o termo homoiousia (substâncias parecidas) para explicar as sutilezas dessa identidade dessemelhante. Os trinitaristas discordavam: o cristianismo de viés católico tinha chegado para vingar triplamente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo – numa súbita promoção deste último, antes coadjuvante. Preferiram adotar o termo homoousia (mesma substância), que tornava as três figuras imediatamente consubstanciais, idênticas.

A mútua animosidade do congresso em Nicéia, escreveu o genial (e antiquado) Edward Gibbon, foi temperada por compungidas afetações de modéstia, uma virtude que é em geral louvada por aqueles que se sentem fracos. A maioria dos bispos do Egito e da Ásia, inclusive o douto Eusébio de Cesárea, autor da História eclesiástica, estava com Ário (250-336) — além de sete presbíteros, 12 diáconos e, segundo os próprios arianos, 700 virgens.

Os católicos de Atanásio, menos excitáveis com conceitos rebuscados e nada propensos a filosofar, interpretaram com maior singeleza o termo substância. Para eles, dava na mesma falar em substância ou essência: se um padeiro, um ferreiro e um marceneiro pertencem à mesma espécie humana (ou têm a mesma essência), segue-se que têm a mesma substância e as mesmas propriedades. Assim, o padeiro é igual ao ferreiro que é igual ao marceneiro. Idem para as expressões do divino, pois.

A singeleza dos atanasianos (precursores dos católicos) conquistou Constantino, que não era muito versado em filosofia. Deu-lhes o troféu da vitória, e os brindou com o termo “católicos”, isto é, universais. Eusébio de Nicomédia, derrotado, mas sagaz, vacilou e encontrou um modo de concordar ambiguamente, com isso adiando por alguns meses o exílio. Ário, mais intempestivo, insistia que a homoousia era uma usurpação de sentido, e foi banido e tachado de porfiriano, isto é, de ignóbil neoplatônico.

Três anos depois, porém, foi chamado de volta pelo imperador, tratado como um injustiçado, e suas teses foram aceitas num outro sínodo em Jerusalém. Foi então que Constantino exigiu, num ato de reparação, que ele fosse solenemente admitido para a comunhão na catedral de Constantinopla. Curiosamente, no mesmo dia da reparação… Ário morreu. As estranhas circunstâncias que envolveram sua morte, como escreve Edward Gibson, “poderiam despertar a suspeita de que os santos ortodoxos tinham contribuído de maneira mais eficaz que com suas preces para livrar a Igreja do mais temível de seus inimigos”.

Apesar de protagonizada por um mero ditongo (homoousia x homoiousia), a disputa não era nada fátua. A controvérsia trinitária reacendia uma velha discussão, aquela dos gnósticos. Como admitir que Jesus era humano, frágil e vulnerável e, simultaneamente, o Deus onipotente e inviolável? Não era só a cândida índole cristã que se atrapalhava. Até a calejada dialética se veria em apuros para ajeitar os termos desta controvérsia num silogismo passável.

3.

Nicéia, ainda no século XXI, pode e deve ser revisitada. Notem que católicos contemporâneos recorrem ao Pai (com maiúsculas), enquanto evangélicos preferem o Filho. Só Jesus salva.

Um levantamento feito por Marcus Borg evidencia o estado atual desta vetusta querela. Marcus Borg consultou seus colegas, aparou diferenças e alinhavou concordâncias, e concluiu que já se podia falar, sem temor, nesta virada do milênio, de seis retratos correntes (e plausíveis) de Jesus. Todos, só para efeito de memorização, poderiam começar, por exemplo, com a letra E:

(i) Escatológico. Jesus poderia ter sido um profeta de Israel, com a missão de anunciar o fim dos tempos (escatologia) e a instauração de uma era messiânica – essa é a tese de E. P. Sanders. Por isso os apóstolos costumam ser contabilizados em doze – eco das doze tribos de Israel, finalmente reunificadas. Por isso também a cólera de Jesus ao virar a mesa no Templo, um alerta sobre a necessidade de reerguer um terceiro santuário, impoluto. Ele, claro, não se achava Deus, mas futuro rei de Israel.

(ii) Excêntrico. O segundo retrato é o de alguém deslocado de sua cultura e de suas raízes, um estrangeiro na própria pátria, um judeu mais próximo de Atenas que de Jerusalém. Jesus teria sido um sábio-cínico helenístico, um filósofo que falava aramaico, mas pensava em grego. É assim que o vê Burton Mack em The lost gospel e A myth of innocence. Burton Mack é um especialista na fonte Q, o texto perdido que serviu de base para os trechos comuns a Lucas e Mateus que não constam em Marcos (em Q só há ditos sapienciais e parábolas, nenhuma narrativa). Para Mack, a Galiléia do século I estava profundamente imersa na tradição helenística, e muito propensa a ter seu Sócrates judeu. Esse retrato é o que melhor convém aos textos comprovadamente mais antigos, que são os ditos sapienciais de Jesus, aforismas que atacam as convenções judaicas.

(iii) Ecumênico. Sobretudo com as mulheres, na época consideradas a léguas do sapiens. Esse é o perfil traçado por Elisabeth Schüssler Fiorenza, uma teóloga feminista que publicou, em 1983, In memory of her. Jesus seria um feminista avant-la-lettre, um entusiasta do igualitarismo sexual. Isso explica por que, em tantas ocasiões, sobretudo as dos evangelhos apócrifos, ele demonstra uma clara predileção por Maria Madalena, em detrimento de Pedro. Idem, quando se apresenta como porta-voz de Sophia, a sabedoria de Deus, uma figura feminina. Seu antipatriarcalismo estaria visível no fato de acolher discípulos sem distinção de sexo, melhor, expondo a superioridade espiritual (intelectual?) das mulheres, como Maria de Magdala, considerada em muitos destes textos (apócrifos) a discípula favorita.

(iv) Engajado. A quarta descrição, proposta por Richard Horsley, politiza a figura de Jesus: ele teria sido um reformista radical com acentuadas preocupações sociais. A favor dessa caracterização estão sua ênfase nos humildes e desassistidos e a grande frequência, nas parábolas, de temas como “dar sem esperar retorno”, ou o “mútuo perdão de dívidas”, ou o conselho de “emprestar sem olhar a quem”, para Richard Horsley frases nada metafóricas, e sim palavras de ordem a serem praticadas em um programa em prol dos explorados galileus.

(v) Espoliado. O quinto desenho de Jesus é o de John Dominic Crossan. Judeu, sim, sábio influenciado pela doutrina resignada dos cínicos, também, mas antes de tudo um camponês pobre – com as aflições e as esperanças de todo camponês espoliado do Mediterrâneo. O livro de John Dominic Crossan The historical Jesus, de 1991, foi um imediato best-seller, com mais de 50 mil exemplares vendidos em um ano e meio. John Dominic Crossan é adepto da abordagem interdisciplinar, e mescla sociologia, história, antropologia, teologia, crítica bíblica e a técnica de estratificação nos textos. O Jesus que emerge desse conclave interdisciplinar é bastante convincente, sobretudo pelo realismo das expectativas que teria alimentado. Não é um profeta do Apocalipse, nem da Israel renascida, nem da minoria galiléia, e muito menos da igualdade sexual. É um homem da prática, um gestor das crises do dia-a-dia.

O conhecimento que ele transmite não é o da Gnose ou o do Logos encarnado de João, mas o da métis, a sabedoria pragmática, que resolve as encrencas cotidianas. Sua pregação funcionou graças a duas táticas: o convívio com seus seguidores – seus comensais nas refeições ritualísticas – e a magia. Foi um mágico porque curava à margem dos procedimentos habituais. A fronteira entre magia e milagre é uma zona nebulosa, como lembra John Dominic Crossan. “Nós praticamos religião, os outros praticam mágica.” As refeições comunitárias seriam uma amostra simbólica do paraíso antecipado, sem distinção de raça, classe, educação, gênero, poder ou dinheiro.

(vi) Espiritual. O sexto semblante possível é o delineado pelo próprio Marcus Borg. Jesus teria sido uma “pessoa espiritual”, um místico, um frequentador assíduo de Deus. Como um bom místico, claro, o Jesus de Marcus Borg jamais quis virar chefe de uma nova Igreja. Pretendia apenas limpar o corrompido judaísmo. Poderíamos acrescentar um sétimo retrato de Jesus, um oitavo e um nono, todos atuais:

(vii) Errante. Essa é a descrição do Evangelho de Tomé. Jesus teria sido um andarilho, um pregador itinerante, um radical sem teto e sem posses. Daí a famosa frase de que um profeta nunca é reconhecido em sua cidade. Ou a insistência em não cobrar pelo auxílio prestado, ou o conselho de não ficar muito tempo num mesmo lugar. Partidário da gnose, esse Jesus pede a seus seguidores que sejam solitários como ele.

(viii) Existencialista. Esse é o Jesus de A última tentação de Cristo, livro de Nikos Kazantzakis que virou filme. É uma figura trágica e cheia de dúvidas, medos e culpas, alguém dividido entre o senso de dever e o humano desejo pelos pequenos prazeres da vida. Em luta constante consigo próprio, como não é nem infalível nem desapaixonado, só pode ser o Jesus preferido dos artistas.

(ix) Encantador. Ilusionista, prestidigitador. Assim o trata Morton Smith, em Jesus the magician. Morton Smith o compara a Apolonio de Tyana, cuja vida foi relatada por Flavius Philostratus na obra Vida de Apollonius, do início do século III. Nascido na Anatólia, Apolonio foi mandado pelos pais para estudar na cidade grega de Tarso (Ásia Menor), na mesma época em que Saulo, ou Paulo, saía de Tarso para estudar em Jerusalém. Saulo, um fariseu, tornou-se cristão. Apolonio se tornou pitagórico e passou a frequentar os cultos de mistério. Mais tarde teria ido a Babilônia para aprender com os magos zoroastristas, depois à Índia para conhecer os ensinamentos dos brâmanes. Voltou para pregar pela Síria, Anatólia e Grécia, curiosamente os mesmos locais onde Paulo havia vertido seu verbo, anos antes.

Apareceu em Roma durante o reinado de Nero, depois viajou para a Espanha, Sicília, Grécia e Alexandria, cidade onde teria sido consultado, em 69, por ninguém menos que o imperador Vespasiano. Algumas peripécias depois, entre elas sua estada com os “sábios nus”, ascetas do alto Egito, Apolonio caiu em desgraça e foi julgado, em Roma, por conspirar para assassinar o imperador Domiciano. Mas, como mago que era, conseguiu evaporar-se em pleno recinto do tribunal na hora do veredicto. Reapareceu na Ásia Menor, onde, conta a lenda, continuou a pregar e perpetrar milagres até sua morte, e, dizem, subida imediata aos céus. A lenda diz que ele ressuscitou e apareceu a um jovem incrédulo.

De todos os semblantes possíveis (desenhados por eruditos) desta enigmática figura que nomeiam Jesus, nenhum combina muito com o atual. O atual , conclamado nas carreatas , garranchado em cartazes ofensivos, invocado para espancar a outra face, retrógrado, adulador, ignorante, ímpio e idolatrado pela extrema direita, é o avesso de todos eles.

Ai, Jesus! Quem te fez miliciano?

*Marilia Pacheco Fiorillo é professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Deus exilado: breve história de uma heresia (Civilização Brasileira).

Nota


[i] FIORILLO, M . O deus exilado, breve história de uma heresia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008, posfácio de Leonardo Boff. Vários tópicos mencionados neste artigo são extensa e minuciosamente tratados no livro.

Todos os autores aqui citados constam da vasta bibliografia do livro. Há nele, também um índice onomástico, mapas, reproduções fotográficas de códices e uma linha do tempo da expansão do cristianismo.


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