As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Um olho no peixe, outro no gato!

Imagem: Magali Guimarães
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

A frente superampla é importante para ganhar a eleição e, em caso de vitória, para governar

A arca de Noé do Lula é uma beleza, leitor. Tem sido merecidamente elogiada. Trata-se de uma construção brilhante e bem brasileira. O brasileiro é, entre muitas outras coisas, um eclético e um pragmático. E o nosso Noé, o ex-presidente Lula, é um brasileiro até a medula. E esta é, aliás, uma das razões da sua preeminência na política brasileira desde os anos 1970. Qualquer que seja o resultado desta eleição, Lula já se tornou, pelo muito que fez, pelo muito que sofreu, pela maneira como resistiu a uma perseguição implacável, uma figura lendária, uma verdadeira lenda brasileira.

Mas não era do Lula propriamente que queria falar um pouco hoje, e sim dessa sua construção – a frente superampla, que ele mesmo alcunhou de Arca de Noé. Essa arca, com tripulantes e passageiros muito heterogêneos, só poderia ser montada, insisto, num país de pragmáticos e ecléticos como o Brasil. E por um político pragmático e eclético como Lula. Por motivos evidentes, que não preciso recapitular agora, a frente superampla é importante para ganhar a eleição e, em caso de vitória, para governar.

Nada é perfeito, lamentavelmente. A Arca do Lula está ficando meio lotada e, vamos ser francos, com passageiros, às vezes, bem duvidosos. Tudo bem, queremos nos ver livres desse desastre chamado Jair Bolsonaro. E, desde 2021, estava claro e cristalino que Lula era o que tinha mais chances de derrotá-lo. Com algumas semanas pela frente até o segundo turno, todos sabemos que a vitória não está garantida.

O próprio Lula vinha avisando, há meses, que seria uma eleição muito difícil. Em almoço do qual participei, faz alguns meses, um dos integrantes mais proeminentes da Arca comentava com realismo que disputar a reeleição na condição de presidente, governador ou prefeito é “uma covardia”. Afirmação que dispensa explicações, mas que apesar disso vinha sendo esquecido pelos que davam a derrota de Jair Bolsonaro como certa. Outros, ao contrário – como o professor Marcos Nobre, da Unicamp –, advertiam desde 2021 que, apesar de tudo, Jair Bolsonaro chegaria competitivo às eleições presidenciais.

Portanto, a Arca do Lula é tudo menos excludente. Como coração de mãe, cabe todo mundo. Entra qualquer um, desde que comprometido com o antibolsonarismo. A frente ampla se define, portanto, fundamentalmente pelo negativo.

Disso decorre um problema: dentro da Arca temos a presença expressiva da poderosa direita ou centro-direita tradicional, órfã da terceira via. Sem querer pecar pelo excesso de didatismo, lembro que a política brasileira se divide, grosso modo, em quatro grandes blocos: (1) a centro-esquerda e a maior parte da esquerda, lideradas por Lula e pelo PT; (2) a direita ou centro-direita tradicional, que inclui a Faria Lima e a mídia corporativa e vinha sendo representada sobretudo pelo PSDB, hoje em frangalhos; (3) a direita ou centro-direita fisiológica, que inclui o Centrão e outros partidos ideologicamente indefinidos, em geral de base regional; e (4) a extrema direita bolsonarista, fascista ou protofascista, representada no Congresso pelo bancada BBB (bíblia, boi, bala). Existem outras forças, mas são periféricas. O bloco 4, antes totalmente inexpressivo no Brasil, saiu do armário com força e espalhafato em 2018.

A Arca de Lula inclui a maior parte do bloco 2. O bloco 3 está hoje majoritariamente com o bloco 4, mas pode desembarcar a qualquer momento e pleitear ingresso na Arca, dependendo, claro, do resultado do segundo turno.

Com as pressões incansáveis de integrantes do bloco 2, a Arca está adernando perigosamente para a direita. De novo, na conjuntura dramática que vivemos, só um radical louco pensaria em rejeitar ou hostilizar companheiros do bloco 2. São legítimos passageiros da Arca. Afinal, ela é ou não é coração de mãe? E digo mais: se ainda houver algum financista, algum neoliberal, algum fisiológico, até mesmo algum ex-bolsonarista, disposto a embarcar tardiamente, que seja recebido aos beijos e abraços.

No entanto, leitor, sem ilusões! E com uma dose saudável de hipocrisia, aquela mesma que La Rochefoucauld dizia ser a homenagem do vício à virtude. Os neocompanheiros, por mais simpáticos, por mais dedicados ao discurso da justiça social e da democracia, nem sempre são autênticos. De uma maneira geral, digamos diplomaticamente, a autenticidade não é seu forte. Também são discípulos de La Rochefoucauld.

Obviamente, o peso do bloco 2 aumentou com o resultado do primeiro turno. O bloco 1 precisa, mais do que nunca, do seu apoio, e de parte do bloco 3, para derrotar o 4. Política também é a arte de engolir sapos. Por outro lado, leitor, convenhamos: de que adianta ganhar as eleições e perder o governo? Temos que ser, sim, flexíveis, sutis e até delicados. Mas, cuidado: não vamos perder a alma.

Lembrei do verso de Rimbaud: “par délicatesse, j’ai perdu ma vie” (por delicadeza, perdi minha vida). Não digo que possamos perder a vida, mas a alma sim! No imediato, a luta é contra a destruição do Brasil, que será inevitável se Bolsonaro se reeleger. Mas logo em seguida a disputa será pela hegemonia na frente superampla que comporá o governo, em caso de vitória de Lula. Realismo acima de tudo, portanto!

No popular: um olho no peixe, outro no gato!

*Paulo Nogueira Batista Jr. é titular da cátedra Celso Furtado do Colégio de Altos Estudos da UFRJ. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai. Autor, entre outros livros, de O Brasil não cabe no quintal de ninguém (LeYa).

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Jean Pierre Chauvin Anselm Jappe Roberto Bueno Tarso Genro Walnice Nogueira Galvão Mariarosaria Fabris Benicio Viero Schmidt Airton Paschoa Fernando Nogueira da Costa Annateresa Fabris Igor Felippe Santos Dennis Oliveira Paulo Fernandes Silveira Marcos Aurélio da Silva Flávio Aguiar Manuel Domingos Neto Gilberto Maringoni Celso Frederico Everaldo de Oliveira Andrade Slavoj Žižek Leonardo Boff Thomas Piketty Eliziário Andrade Bernardo Ricupero João Adolfo Hansen Rafael R. Ioris Gerson Almeida Luiz Costa Lima Francisco Pereira de Farias André Singer Afrânio Catani Leonardo Avritzer Luis Felipe Miguel Eleonora Albano Flávio R. Kothe Lucas Fiaschetti Estevez José Raimundo Trindade Mário Maestri Vanderlei Tenório José Micaelson Lacerda Morais Luiz Werneck Vianna Heraldo Campos Eleutério F. S. Prado Tadeu Valadares Valerio Arcary Rodrigo de Faria Henri Acselrad Gabriel Cohn Tales Ab'Sáber Carlos Tautz Ricardo Musse Marilena Chauí Remy José Fontana João Feres Júnior Yuri Martins-Fontes Valério Arcary João Lanari Bo Luiz Carlos Bresser-Pereira Alysson Leandro Mascaro Samuel Kilsztajn Priscila Figueiredo João Carlos Salles Luiz Eduardo Soares Marilia Pacheco Fiorillo Manchetômetro Luiz Bernardo Pericás Marcus Ianoni Marcelo Módolo Roberto Noritomi Ari Marcelo Solon Jean Marc Von Der Weid Antonio Martins Julian Rodrigues José Geraldo Couto Andrew Korybko Ladislau Dowbor Jorge Luiz Souto Maior Juarez Guimarães Dênis de Moraes Milton Pinheiro Atilio A. Boron Michael Löwy José Dirceu Alexandre de Freitas Barbosa Otaviano Helene Sandra Bitencourt Paulo Nogueira Batista Jr Paulo Capel Narvai Salem Nasser José Machado Moita Neto Elias Jabbour Marjorie C. Marona Anderson Alves Esteves Claudio Katz Bento Prado Jr. Francisco de Oliveira Barros Júnior Luís Fernando Vitagliano Bruno Machado Kátia Gerab Baggio Sergio Amadeu da Silveira Henry Burnett Renato Dagnino Ronald Rocha Lincoln Secco Alexandre Aragão de Albuquerque Osvaldo Coggiola Carla Teixeira Luiz Renato Martins Antônio Sales Rios Neto Eduardo Borges Chico Alencar Paulo Sérgio Pinheiro Lorenzo Vitral Érico Andrade Marcos Silva José Luís Fiori Leda Maria Paulani Francisco Fernandes Ladeira João Paulo Ayub Fonseca Ronaldo Tadeu de Souza Alexandre de Lima Castro Tranjan Daniel Brazil Ronald León Núñez José Costa Júnior Luciano Nascimento Ricardo Abramovay Luiz Marques Jorge Branco Paulo Martins Rubens Pinto Lyra Boaventura de Sousa Santos Caio Bugiato Maria Rita Kehl Gilberto Lopes Bruno Fabricio Alcebino da Silva Liszt Vieira Fábio Konder Comparato Michael Roberts Ricardo Fabbrini Daniel Afonso da Silva Antonino Infranca Marcelo Guimarães Lima Eugênio Bucci Fernão Pessoa Ramos Luiz Roberto Alves Celso Favaretto Vladimir Safatle João Carlos Loebens Berenice Bento Leonardo Sacramento Plínio de Arruda Sampaio Jr. Denilson Cordeiro André Márcio Neves Soares Armando Boito João Sette Whitaker Ferreira Eugênio Trivinho Chico Whitaker Vinício Carrilho Martinez Ricardo Antunes Daniel Costa

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada