Uma agenda para a esquerda no mundo novo

Imagem: Silvia Faustino Saes

Por LUÍS FERNANDO VITAGLIANO*

Atualizar a agenda do Brasil, provocar o debate, olhar para a sociedade do futuro (futuro próximo) é atualizar a agenda da democracia

“Ó, maravilha! / Que adoráveis criaturas aqui estão! / Como é belo o gênero humano! / Ó Admirável Mundo Novo / Que possui gente assim!” (William Shakespeare, A Tempestade, Ato V)

Quando definir os setores de extrema-direita ligados ao bolsonarismo como obscurantismo e negacionistas, não estamos apenas apresentando uma classificação moral, mas também definindo uma agenda que pode ir além da simples categorização dos costumes. Para além do Ministério da Família ou da negação da ciência, o bolsonarismo simplesmente ignora as formas de inserção no mundo de hoje. Mas, não é simples assim, porque ao ignorar permite que seus comparsas trabalhem por transformações de grupos específicos. É assim que o lobby do agronegócio assume a modernização do sistema e os bancos de investimento tem primazia sobre os setores clássicos do varejo. A luta contra isso não pode se limitar a uma série de classificações e interpretações do julgamento moral, de simplificações da aliança com o neoliberalismo. O modo com que o sistema econômico brasileiro se adapta aos novos tempos é tão caótico quanto a gestão da pandemia pelo governo e, entre negações e favorecimentos, temos um futuro comprometido porque essa forma de inserção no sistema internacional em transformação será definido de modo decisivo.

Do ponto de vista estrutural a definição de Edmar Bacha ainda nos anos 1970 demonstra com maior clareza características marcantes do que é o Brasil. Nas palavras de baixa somos a Belíndia: uma mistura de Bélgica desenvolvida e de alto padrão de consumo com a Índia de extrema pobreza, com alta densidade populacional e aprisionada em condições degradantes de produção. O conceito de subdesenvolvimento de Celso Furtado também exprime essa interpretação através de uma das mais clarividentes interpretações do nosso desequilíbrio. Subdesenvolvimento não é um estágio anterior ao desenvolvimento, mas a convivência do moderno e do arcaico na mesma sociedade; da capacidade de produção de uma Embraer ao uso do burro de carga para sobrevivência. Podemos citar ainda Caio Prado Jr, que defende que temos dois modos de produção no Brasil do século XIX. Um ligado à monocultura exportadora desenvolvida e de alta produção e outro país, interno, de economia de subsistência, de baixo valor agregado e sem uso de tecnologia de produção.

Com o agrobusiness a tendência é que essa dualidade estrutural permaneça causando instabilidade na sociedade brasileira e agravando as disparidades da desigualdade social e de oportunidades. Por isso, é preciso perceber que a agenda dessa sociedade baseada na nova onda de exportações de commodities agrícolas e minérios vai colocar a parte ligada ao capital internacional da nossa sociedade em outro patamar. Também pode criar condições para uma nova fase de desenvolvimento e inovação em várias áreas sensíveis; como tecnologia, construção civil, combustíveis, etc. A revolução digital e a sociedade de serviços afeta tanto a base da sociedade brasileira quanto a estrutura elitizada. As elites, mesmo sem um projeto, acumulam capital o suficiente para elevar seu patamar de consumo aos padrões e benesses internacionais. Os estratos médios e pobres vão ficar com as consequências pesadas do capitalismo digital e as migalhas da inovação e segunda linha. Os serviços de um capitalismo digitalizado com serviços autômatos e de inteligência artificial agora vão ampliar as desigualdades diante dos serviços baseados em cálculos primários de nossa economia doméstica para o mercado interno.

Enquanto tudo que é sólido se desmancha no ar, a modernidade acontece a despeito de qualquer debate público, transparente e democrático temos que as esquerdas e os setores progressistas da sociedade brasileira entram em um conflito quixotesco com o obscurantismo bolsonarista. Enquanto isso, a associação ao capital internacional e a inserção dependente da economia internacional é realizada quase que por osmose e respeita os interesses das classes dominantes.

A agenda social a que estamos ligados é apenas parte do debate econômico. E, diga-se de passagem, é a parte elementar. Políticas redistributivas, combate a inflação, geração e manutenção do emprego e da renda são politicas endógenas de atuar sobre parte capitalismo brasileiro, digamos o andar de baixo. Mas, há um segundo nível neste debate; que tem alterado inclusive a correlação de forças que os autusserianos das esquerdas tanto se apoiam para uma análise de conjuntura.

Veja que de um lado temos os tradicionais bancos de varejo no Brasil. Carterizados, familiares, elefantes que se apoiam na política de juros e transferência de renda financeira. O que restará deles quando Google lançar seu formato de investimentos via banco virtual? Quando as corretoras de investimentos atuarem nos mercados, quando as moedas digitais atuarem a partir da pulverização do sistema financeiro? Vão virar elefantes brancos que se apoiam na tratativa com o correntista pobre e endividado. Outro exemplo é a agenda de combustíveis renováveis. Temos a Petrobrás: vamos preservar a Petrobras da privatização e depois? Vamos transformá-la em uma empresa de energia, e não apenas de queima de carbono? Porque o restante do mundo já discute e investe na substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis.

Das possíveis privatizações que o Governo pode fazer a escolha da Embraer não é trivial. Candidatos a privatização como a Caixa Federal, o Banco do Brasil e a própria Petrobrás não foram cegamente depreciados sem motivos em detrimento a Eletrobrás. Para esse novo sistema baseado no consumo e manipulação de dados a questão da ampliação das fontes de energia é fundamental. O sistema Eletrobrás controla o sistema de distribuição de energia no Brasil, além das fontes de produção. Esse é um gargalo fundamental que faz com que as empresas dependentes de fontes energéticas sejam atendidas em suas prioridades.

Grandes representantes da burguesia financeira dos anos 1990, auge do neoliberalismo do mercado financeiro como Bradesco, Itaú etc; são conglomerados que servem ao propósito bancário do século XX e já não se relacionam organicamente com o sistema de investimentos de hoje. Esses bancos não são mais decisivos para os grandes negócios e estão estagnados. As inovações no sistema financeiro ocorrem por fora dos bancos tradicionais. Assim como as inovações no setor de energia estão fora das empresas de combustão. Ainda estamos discutindo com a rede Globo enquanto o maior inimigo daquela empresa não é o governo, mas sua incapacidade de lidar com as empresas de streaming que estão acabando com sua audiência. Se em 1989 o Jornal Nacional foi decisivo para as eleições, em 2014 ou 2018 não tiveram capacidade de formar opinião popular.

Nosso sistema logístico é primário, caro e ineficiente. O sistema ferroviário serve quase que exclusivamente para transportar minério de ferro da Vale. O agrobusiness é o único setor que está ligado à cadeia mundial e que interessa ao sistema internacional a participação brasileira. E quando a Amazon se interessar pelo escoamento de commodities brasileiros? Estamos preparados para essa conversa?

Carros autônomos, casas inteligentes, automação, plataformas de negócios com inteligência artificial tomando decisões. Esse mundo novo de uma sociedade em plena transformação digital não vai existir no Brasil? Sim, vai existir, mas hoje ela está destinada a poucos e a sociedade de modo geral, para manter isso vai precisar reproduzir e ampliar as desigualdades sociais existentes. Alguns poucos brasileiros terão casas inteligentes porque algumas poucas construtoras vão estar preparadas para oferecer esse serviço.

Enquanto se manter nossa dualidade estrutural, a maior parte da sociedade brasileira que conseguir uma casa vai agradecer por ter uma casa de alvenaria feita por um pedreiro semianalfabeto (absolutamente analfabeto digital) que aprendeu seu ofício no exercício da profissão e não tem o menor preparo para apoiar-se em modernas técnicas de construção. Entre outras coisas, porque não discutimos nas esquerdas cursos técnicos, cursos de formação profissional, atualização de currículos e nos embebedamos em preservar uma universidade arcaica, elitizada e desconectada com a realidade que nos cerca.

As classes dirigentes que tradicionalmente rivalizaram a agenda do país com as esquerdas já não têm a consistência que tinham em poucos anos. Isso explica a vitória de Bolsonaro apoiada por empresários que não seguem o padrão tradicional. Pelo capitalismo brasileiro do século XX, o presidente teria vindo do PSDB.

A decepção em torno disso é a incapacidade do Governo Bolsonaro em atualizar a agenda é diretamente proporcional a capacidade de planejamento do Estado brasileiro. Atualizar a agenda do Brasil, provocar o debate, olhar para a sociedade do futuro (futuro próximo) é atualizar a agenda da democracia. Não debater, não considerar ou ignorar esses assuntos porque ainda não temos respostas preparadas é permitir que o Brasil siga no seu caminho de excluir a quase totalidade dos brasileiros do século XXI e permitir que poucos setores ligados ao capital internacional assuma a primazia da agenda econômica brasileira absolutamente desconectado de qualquer compromisso com a sociedade que coabita.

*Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.