Uma mulher transparente

Fritz Wotruba, Vrouwelijke rots, 1947-1948.
image_pdf

Por ARNALDO SAMPAIO DE MORAES GODOY*

Comentário sobre o romance de Edgard Telles Ribeiro

“A melhor maneira de lidar com o absurdo é transformá-lo em ficção”. Essa frase, de Edgard Telles Ribeiro, em forma de postulado, é o mote que anima Uma mulher transparente, romance de certo modo histórico, mas que é forte demais para ser apenas histórico, e que é histórico demais para ser meramente um romance. É um livro rico de observações psicológicas instigantes, que revelam um autor que diz muito em poucas palavras. Creio que essa simbologia do qualitativo, e não do quantitativo, é o que mais impressiona o leitor de Edgard Telles Ribeiro.

O absurdo vivido por uma juventude violentada e perdida, a quem quis se dar voz em comissões de verdade, transformado em ficção, ainda permanece absurdo, porque há absurdos que não se reconstroem de outra forma. A cena da tortura, na qual o autor descreve a personagem em um caixão, resume uma morte cruel, porque substancialmente ocorrida na alma, ainda que não projetada no corpo, caso a dicotomia platônica possa fazer algum sentido em nossa cultura. A página da tortura é uma página assustadora. É emocionalmente claustrofóbica.

Uma mulher transparente é um livro belíssimo que fixa dilemas de três gerações; isto é, se posso trocar o quarto de século por quatro lustros, como forma de contagem. Se possível a analogia, o livro sugere um ábaco inovador. O tempo histórico é mediado pelo intelectual com a pistola na cintura, um dos mistérios do livro, pelo corpulento professor de história, que se casou com a aluna vinte anos mais nova e pelo tempo da mulher transparente, que dá título ao livro, e que está em todas as páginas e ao mesmo tempo em página alguma. Uma personagem vaporosa, cuja olência o autor sugere em duas passagens. O leitor imagina que se a personagem-título é uma mulher discreta e ao mesmo tempo deliciosamente perfumada.

Um fato definido e impreciso, num fim de tarde de maio de 1962, é o ponto de partida para um enigma, que liga três mulheres substancialmente distintas, que se unem, e se completam, no desate de suas vidas complicadas. 1962 (faltavam dois anos para o golpe), 1982 (passaram-se dezoito anos do golpe) e 2002 (quando os tempos de ressentimento supostamente teriam chegado ao fim, e quando equivocadamente imaginávamos que não haveria mais golpes) são as balizas históricas do plano narrativo.

Cada uma dessas datas assinala pontos de inflexão das personagens centrais, presas a seus respectivos tempos, até porque, na narrativa o poder de escolhas é do narrador. Nesse passo, o livro traz um pouco de teoria literária, com digressões inteligentíssimas sobre o poder dos autores, que se qualifica pela cáustica lembrança de que “(…) brincar de Deus tem seus limites (…) cedo ou tarde todos os livros acabam no sebo”.

Uma mulher transparente é um romance que enfrenta cicatrizes da ditadura (físicas e emocionais), e que trata de estados psicológicos de sofrimento permanente, de dúvidas (machadianas, há indícios esparsos de adultério), de coincidências, de segredos, da Casa do Barão (na antiga Rua Larga) e, nesse último caso, o leitor colhe as reminiscências do autor, que atuou como diplomata de carreira.

O Correio da Manhã e Paulo Francis fazem uma ponta na narrativa. Tem até um labrador, Astor, que a exemplo do Cão das Lágrimas, de Saramago, não pode faltar em uma história carregada de humanidade.

O narrador (como se chama mesmo?) é perseguido pelo inusitado acidente da moça do vestido vermelho (cujo nome se revela quase no fim do livro). É também  acuado por outro incidente, marcado por aquela que divulgava de sua família o que o marido tentava esconder da família dele.

O narrador é refém do “corpo na calçada [que] o transportara para mundos distantes”. Pode ser nada simbólica a diferença entre cair no mar e cair na calçada, especialmente quando as quedas resultam na irreversibilidade da experiência humana. De fato, lê-se no início do capítulo 3, “nada como a morte para nos levar a celebrar a vida…”.

O narrador é atormentado por uma ideia fixa, que conduz o enredo, nas ruas de um Rio de Janeiro que perdia a majestade. Era a capital da Guanabara, já não era mais a Capital Federal. Uma personagem estudara na antiga UEG (“que ficava no Catete e era de graça”). Um certo saudosismo ronda a narrativa; os trilhos do bonde eram cobertos pelo asfalto (“bondes… conseguiram sobreviver até o final dos anos sessenta (…) depois foram vendidos como ferro-velho para sucata”). As máquinas de escrever do Itamaraty eram pesadas, precisavam de uma carriola quando iam para as oficinas, faziam barulho. As máquinas novas, elétricas, estavam em Brasília…

Há um jantar num certo restaurante Alvaro’s. Será o clássico da Ataulfo de Paiva, 500, que ainda deveria ter a porta de madeira e as paredes escuras? Só pode ser. No caminho do jantar que define o livro, Gilda e o narrador observavam as lojas do Leblon, “que desfilavam a sua direita pela Ataulfo de Paiva”.

A descrição de ambientes urbanos reais comprova que as cidades mudam e que as memórias ficam. Imagino que, em alguns anos, o leitor precisará de um mapa do Rio da época da narrativa, exatamente com hoje lemos Quincas Borba com um prévio detalhamento topográfico do Rio de Janeiro do tempo de Rubião, de Palha, de Sofia, de Camacho e de D. Tonica: o largo da Carioca (que nenhum deles reconheceria), as ruas do Rosário, do Hospício, do Ouvidor, e tantas outras.

Machado de Assis também não as reconheceria, exatamente como Sérgio Rodrigues fixou em outro impactante romance brasileiro contemporâneo, que é A vida futura. Nesse sentido, Uma mulher transparente, além disso é um romance de cidade. Tem (a propósito) cena na calçada da Siqueira Campos, a par de uma aliciante perspectiva do autor, no sentido de que as Ruas de Lisboa têm nomes evocativos (Salitre, Prata, Arsenal, Moinho de Vento) enquanto nossas ruas têm nomes de quem não sabemos de quem se trata, como a rua Cupertino Durão, no Leblon. Descobri que foi um engenheiro civil, secretário de obras e viação, no tempo do Prefeito Carlos Sampaio, cujo mandato ocorreu de 1920 a 1922. Está na placa azul.

Uma mulher transparente mesmeriza o leitor com momentos de chuva fina e de névoa rala. Parece que a intimidade dos personagens esfria o “calor próprio da vida”, na indefinível significação de Astrojildo Pereira. Essa tensão, entre o calor externo da rua e a frieza interna das personagens, que o autor inverte nos momentos mais fortes do livro, é que encanta e que, na leitura da última frase, faz o leitor sentir-se mais elevado, milímetros antes do ponto final.

*Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).Foi Consultor-Geral da União.

Referência

Edgard Telles Ribeiro. Uma mulher transparente. São Paulo, Todavia, 2018, 128 págs. [https://amzn.to/3SZVBie]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
6
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
14
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES