Vitória

Imagem: divulgação
image_pdf

Por HOMERO SANTIAGO*

Comentário sobre o filme dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira, em exibição nos cinemas.

1.

Que filme bonito! Foi o que pensei logo ao sair da sessão de Vitória, dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira.

A filmagem segura e o ritmo tranquilo, sem solavancos nem cortes apelativos, imprimem à narrativa uma calma que contrasta fortemente com o narrado. O descompasso gera uma tensão que se avoluma até tomar conta da alma de Dona Nina, a protagonista magistralmente interpretada por Fernanda Montenegro – detalhe formidável: já bem entrada na nona década, a gente não sabe se ela interpreta ou se são reais o andar cambaleante, as olheiras monstruosas e uma implicância caricata.

Que beleza tudo isso! Para ser melhor, só se fosse uma história não acompanhada da advertência “baseada em fatos reais”. Não tenho dúvida que a arte possui uma função cognitiva, só que esta certamente não reside na transmissão de informações. Quem quiser saber algo sobre o tráfico de drogas, horizonte geral do filme, que vá ler um livro ou assistir a um documentário. O verdadeiro tema de Vitória não é esse, mas o estraçalhamento de um modo de vida.

Ao longo de anos de trabalho em casas de família (com todos os horrores que, no Brasil, isso costuma envolver), Dona Nina economiza e consegue comprar um lar numa ladeira que outrora parecia “uma floresta”, como ela saudosamente lembra. Só que o morro virou uma favela dominada por traficantes que estão logo ali, à beira da janela de sua sala de estar e ao alcance de suas retinas curiosas.

Ela sofre com o barulho, as brutalidades e, sobretudo, com os tiros que perfuram janelas e chegam a atingir uma vizinha de que ela gostava muito. O seu imenso sofrimento é ignorado pelos vizinhos, que com muita razão alegam nada poder fazer.

A vida de Dona Nina se vai esvaindo; ela não dorme, vive amedrontada; suas relações tornam-se impossíveis: a caixa do mercado, com quem conversava, é assassinada diante de seus olhos; o menino Marcinho, que lhe ajudava e compartilhava o café da tarde, é tomado pelos entorpecentes, pego em delito e logo aliciado pelo tráfico. A pior tristeza se instala em sua alma e de tudo toma conta.

Num filme tão belo quanto do ano retrasado, Dias perfeitos, Wim Winders narrava o abalo de uma rotina feliz cuidadosamente forjada e cultivada. Em Vitória, de maneira bem mais carioca do que toquiota, nem chegamos aos perfeitos dias nem a abaladura é familiar: em vez da chegada repentina de uma sobrinha, trata-se do tráfico, da polícia, dos tiroteios, da insensibilidade humana, da bruteza do cotidiano; tudo o que fratura uma vida, a tal ponto que esta, arremessada ao fundo do poço, seja coagida a reagir, reunindo e mobilizando as suas forças restantes. É o que decide fazer Dona Nina após um episódio decisivo.

2.

Para o café da tarde, ela escolhe a dedo uma xícara. Serve-se, e sorve prazerosamente o líquido. De repente, estampidos a desequilibram. a mão deixa cair o objeto; a chávena se esfrangalha; tiros atravessaram a janela. Ato contínuo, ela conclui que precisa fazer algo. A primeira ação é uma denúncia no batalhão da PM; sem sucesso. A polícia diz que faltam provas. Dona Nina decide então produzi-las.

Cogita comprar uma filmadora e, na loja, após tomar informações sobre o apetrecho, significativamente despede-se perguntando ao atendente onde se vende “cola tudo”. Em sua cabeça é uma só coisa: recompor a xícara, gravar provas, salvar a vida. Não poderia ser mais clara a linha de etapas que dá sentido à história. O curso narrativo do filme é estruturado pela tentativa de colar os pedaços da xícara, como a refazer a unidade da alma divisa em cacos.

Todavia, quando tudo parece que vai bem, a xícara finalmente recomposta voltará a ser usada, as denúncias estão bem encaminhadas, em suma, quando a vida parece poder voltar a ser vivida, vem a triste surpresa: o café escorre pelas rachaduras. O signo é claro. O perigo é iminente; urge fazer algo, dar vazo a um último e desesperado ato. Fugir.

No correr da projeção, fui várias vezes à tese basilar de Bento de Espinosa de que todo coisa é um conatus, isto é, um esforço de perseveração que a define. “O esforço pelo qual cada coisa se esforça para perseverar em seu ser não é nada além da essência atual da própria coisa.” Essa afirmação da Ética espinosana não deve ser lida de maneira demasiado chã, como a indicar um instinto de autopreservação; isso não resume a tese nem colhe o que nela, para nós, é fundamental.

Aos seres humanos, a noção de vida ultrapassa a de mera existência biológica mantida a qualquer custo e sob quaisquer circunstâncias. Não fosse assim, não teriam sentido ideias tão corriqueiras como de sacrifício, suicídio, heroísmo. Para nós, além da vida biológica, está aquela que se conforma a um modo de existir e vivenciar o mundo, as pessoas e as coisas. Tudo isso integra o conatus que cada um é.

Vitória é uma excepcional ilustração das tensões envolvidas nessa tese filosófica ao mesmo tempo que a ilumina, sugerindo uma compreensão particular e desafeita ao simplismo. Dona Nina não quer somente manter-se viva. Entristecida, em seus piores dias, ela se esforçar em recobrar a vida, o seu modo de vida; e daí tanta reluta em abandonar a casa que comprou e onde mantém as suas coisas, recebe Marcinho, e que serve de ponto de referência a pessoas e lugares que ainda a fazem sentir-se Dona Nina, ou seja, sentir-se si mesma. Mas tudo irá, literalmente, xícara abaixo.

O escorrer do café é o signo do despontar de outra dimensão do mesmo problema, a qual ela terá de enfrentar e o fará de modo inesperado. A fuga final, a bem dizer, vem na contramão de todas as ranzinzices; era o que ela abominava, o que ela se recusava a fazer… Ainda assim, uma surpreendente e vigorosa coerência se desvela em sua atitude.

Virtuosamente, no curso desses dias tristíssimos, Dona Nina levanta-se, compreende e agarra a fortuna. Daí provém, sem tirar nem pôr, a sua suprema Vitória.

*Homero Santiago é professor no Departamento de Filosofia da USP.

Referência

Vitória

Brasil, 2025, 113 minutos.

Direção: Andrucha Waddington e Breno Silveira.

Roteiro: Paula Fiúza.

Elenco: Fernanda Montenegro, Silvio Guindane, Jeniffer Dias, Linn da Quebrada.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES