As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Biodiversidade e agricultura

Marcelo Guimarães Lima, Passarinho / Young Bird II, pencil on paper, 29x21cm, 2022
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por RICARDO ABRAMOVAY*

Satisfazer necessidades alimentares apenas por meio de técnicas rigorosamente padronizadas é colocar-se na contramão das mais importantes exigências socioambientais e também culturais do século XXI

“O reducionismo foi a força motriz subjacente à maior parte da pesquisa científica do século XX. Para compreender a natureza, diz o argumento reducionista, precisamos, em primeiro lugar, decifrar seus componentes. O pressuposto é que, uma vez entendidas as partes, será fácil apreender o todo. Agora estamos próximos a saber quase tudo sobre as partes. Mas estamos tão longe quanto sempre estivemos de compreender a natureza como um todo”.

Foi exatamente há vinte anos que Albert-László Barabási, um dos mais importantes físicos da atualidade, publicou Linked, livro com a ambição de mostrar o papel decisivo das redes, das conexões (mais que dos componentes destas conexões) na emergência dos fenômenos naturais, sociais e nos negócios. Seu ponto de partida só podia ser, como mostra a citação acima, a crítica ao método até então predominante no pensamento científico e que ele não hesita em chamar de “reducionismo”.

A natureza fragmentária do conhecimento que dominou a formação científica até quase o final do século 20 não é um tema importante apenas para a filosofia da ciência. Essa fragmentação se exprime também nas consequências práticas da atividade científica.

A pesquisa agronômica, sobretudo a partir da revolução verde dos anos 1960, é talvez o mais emblemático exemplo do método reducionista que Barabási denuncia. É verdade que a criação de variedades de sementes de trigo e arroz, cujos potenciais eram revelados com o uso em larga escala de fertilizantes nitrogenados (e de agrotóxicos), contribuiu de forma decisiva para ampliar as safras e, por aí, a redução da fome no mundo, desde o início dos anos 1970.

Mas o próprio Norman Borlaug, protagonista da revolução verde e ganhador do Nobel da Paz, em 1970, reconhecia os limites de sua criação. Por um lado, ele tinha consciência de que a capacidade de aumento da produção resultante das tecnologias por ele estimuladas era limitada. A revolução verde correspondia a “comprar tempo” (25 ou 30 anos, a partir de 1970), até que a população mundial parasse de crescer. Aumentar a produtividade era a premissa básica para que ambientes naturais fossem poupados das atividades produtivas e, portanto, preservados. Nada mais distante do espírito do fundador da revolução verde do que, por exemplo, derrubar florestas para plantar soja.

Além disso, em discurso pronunciado trinta anos após sua premiação (ou seja, no ano 2000), Borlaug fez uma observação decisiva. Se a produção alimentar global fosse distribuída de forma equânime, isso permitiria alimentar um bilhão de habitantes a mais do que a população existente à época. Combater a fome, em sua visão, exigia então, antes de tudo, combater a pobreza.

Mas Borlaug tinha consciência também de que o padrão alimentar predominante nos países mais ricos do mundo não podia ser ampliado ao conjunto da sociedade global, por maior que fossem os avanços tecnológicos por ele concebidos. Se os povos dos países em desenvolvimento ingerissem a mesma quantidade de carnes que os dos países ricos, a produção alimentar seria suficiente para alimentar não um bilhão de pessoas a mais que a população existente no ano 2000, mas apenas metade da humanidade à época.

Ora, é em torno da produção de carnes que a agropecuária global hoje se organiza e, com exceção do sul da Ásia e da África Subsaariana, o consumo global médio de carnes é bem superior às necessidades de ingestão de proteínas. É a carne que usa a maior parte das áreas de produção, não só pelas pastagens, mas sobretudo pelos grãos (onde a soja tem papel central) destinados à alimentação animal. E esses grãos provêm de ambientes altamente artificializados, resultantes do domínio de técnicas padronizadas, homogêneas e cuja suscetibilidade aos eventos climáticos extremos é cada vez mais evidente.

A vulnerabilidade dos padrões produtivos simplificados, homogêneos, territorialmente concentrados, e o reconhecimento de que hoje, a agropecuária é o principal vetor de erosão da biodiversidade, tornam o recém-publicado livro de Don Saladino, Eating to extinction, leitura indispensável. Jornalista da BBC e estudioso da relação entre agricultura, alimentação e saúde, Saladino não se limita a denunciar o “reducionismo” a que foi convertido o sistema agroalimentar global.

Por um lado, ele mostra que esse reducionismo é altamente lucrativo: quatro corporações controlam a maior parte das sementes hoje utilizadas no mundo. Metade dos queijos é produzida por bactérias ou enzimas vindas de uma só companhia. Cerveja, porcos, bananas, vinhos ou aves: para onde quer que se olhe, a redução na diversidade do que se cultiva e o domínio corporativo sobre essa monotonia dão o tom do crescimento agroalimentar atual.

Eating to Extinction é um gigantesco trabalho de reportagem em busca de iniciativas de indivíduos e grupos voltados a salvar e dar nova vida a alimentos raros. Alimentos da vida selvagem, cereais, vegetais, carnes, peixes, frutas, queijos, bebidas alcoólicas, estimulantes e doces, Saladino visitou trinta e quatro iniciativas em que pessoas e grupos, muitas vezes contra poderes dominantes e até em situações de guerra, dedicam a vida a recuperar alimentos, tradições, habilidades culinárias e o que pode ser rigorosamente denominado de cultura material que o avanço da Revolução Verde sistematicamente vem destruindo.

Satisfazer necessidades alimentares apenas por meio de técnicas rigorosamente padronizadas é colocar-se na contramão das mais importantes exigências socioambientais e também culturais do século XXI. Muito mais que simplesmente aumentar as safras, valorizar a diversidade e a imensa contribuição das culturas negras, indígenas, das tradições culinárias variadas, do prazer, dos rituais e do respeito ligados à alimentação é missão fundamental para quando desabar o poder dos que não conseguem desvincular veneno de comida e vivem na ilusão nefasta de que um vasto campo de soja é o que de melhor o Brasil pode oferecer ao mundo.

*Ricardo Abramovay é professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Autor, entre outros livros, de Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza (Elefante/Terceira Via).

Publicado originalmente no portal UOL .

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Boaventura de Sousa Santos Plínio de Arruda Sampaio Jr. Chico Whitaker Luis Felipe Miguel Dennis Oliveira Paulo Martins Manuel Domingos Neto Rafael R. Ioris Vladimir Safatle Mariarosaria Fabris Manchetômetro Claudio Katz Marcus Ianoni Francisco Pereira de Farias Antonino Infranca Sandra Bitencourt Eleonora Albano Otaviano Helene Eliziário Andrade Benicio Viero Schmidt José Costa Júnior José Geraldo Couto Marcelo Módolo Walnice Nogueira Galvão Ricardo Abramovay Thomas Piketty João Sette Whitaker Ferreira Lorenzo Vitral Leda Maria Paulani Marilia Pacheco Fiorillo Antonio Martins Ricardo Antunes Jean Pierre Chauvin Ronaldo Tadeu de Souza Dênis de Moraes Fábio Konder Comparato Celso Favaretto Luiz Costa Lima Paulo Nogueira Batista Jr Carla Teixeira Rubens Pinto Lyra Gilberto Maringoni Francisco de Oliveira Barros Júnior Yuri Martins-Fontes Elias Jabbour Leonardo Avritzer Vanderlei Tenório Michael Löwy Alexandre de Lima Castro Tranjan Carlos Tautz Armando Boito Fernão Pessoa Ramos Luiz Carlos Bresser-Pereira Afrânio Catani Priscila Figueiredo Osvaldo Coggiola Eugênio Trivinho Vinício Carrilho Martinez Chico Alencar Eleutério F. S. Prado Michael Roberts Salem Nasser Daniel Afonso da Silva Paulo Capel Narvai Paulo Sérgio Pinheiro André Singer Ari Marcelo Solon Gerson Almeida Everaldo de Oliveira Andrade Daniel Costa Lincoln Secco Anderson Alves Esteves Marilena Chauí Francisco Fernandes Ladeira Bruno Fabricio Alcebino da Silva João Carlos Salles Rodrigo de Faria Liszt Vieira Luís Fernando Vitagliano Bruno Machado Daniel Brazil Lucas Fiaschetti Estevez José Micaelson Lacerda Morais Berenice Bento Samuel Kilsztajn Bernardo Ricupero Luiz Werneck Vianna Marcelo Guimarães Lima Paulo Fernandes Silveira Igor Felippe Santos Luiz Marques Annateresa Fabris Valério Arcary Renato Dagnino José Raimundo Trindade João Paulo Ayub Fonseca Alysson Leandro Mascaro Bento Prado Jr. Ladislau Dowbor Luciano Nascimento Flávio R. Kothe Mário Maestri José Luís Fiori Luiz Roberto Alves Marcos Aurélio da Silva Flávio Aguiar José Dirceu Ricardo Musse Leonardo Boff Heraldo Campos Luiz Eduardo Soares Ricardo Fabbrini Jean Marc Von Der Weid Marcos Silva Milton Pinheiro Eduardo Borges Jorge Luiz Souto Maior Caio Bugiato Denilson Cordeiro Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Bernardo Pericás Fernando Nogueira da Costa Remy José Fontana Slavoj Žižek Luiz Renato Martins Maria Rita Kehl Roberto Noritomi Henry Burnett Roberto Bueno Valerio Arcary Ronald León Núñez José Machado Moita Neto Tadeu Valadares João Carlos Loebens Alexandre Aragão de Albuquerque Atilio A. Boron Gabriel Cohn Leonardo Sacramento Gilberto Lopes Tarso Genro Tales Ab'Sáber Julian Rodrigues João Feres Júnior Airton Paschoa Ronald Rocha Andrew Korybko Sergio Amadeu da Silveira Érico Andrade Henri Acselrad Marjorie C. Marona João Lanari Bo Antônio Sales Rios Neto Jorge Branco Kátia Gerab Baggio Eugênio Bucci Anselm Jappe Celso Frederico Juarez Guimarães André Márcio Neves Soares João Adolfo Hansen

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada