O velho imperialismo

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Por CAIO BUGIATO*

O imperialismo permanece como estrutura ativa de dominação, agora exercido de forma aberta por um poder em declínio

1.

O século XX nos ensinou muitos aspectos e dinâmicas do fenômeno do imperialismo. Ensinou que os Estados capitalistas centrais – pioneiros no desenvolvimento do capitalismo – entraram em um estágio estrutural de formação de monopólios, os quais projetam seu poder econômico para o exterior. A concorrência e a busca do lucro movem o próprio aparelho do Estado em luta pela supremacia na política internacional, ora alinhado umbilicalmente, ora relativamente autônomo da burguesia.

O imperialismo é uma relação assimétrica de força, fundamentalmente entre o centro e a periferia do sistema mundial, que bloqueia o desenvolvimento independente e autônomo da maioria dos Estados no mundo – os “atrasados” na corrida do desenvolvimento capitalista.

O imperialismo é multidimensional (e interdimensional). Na dimensão econômica, os Estados centrais concentram tecnologia, finanças e produção de alto valor, enquanto os periféricos permanecem dependentes e especializados em atividades primárias. A troca desigual assegura a transferência contínua de valor da periferia para o centro. Na dimensão política, prevalece uma hierarquia em que Estados centrais exercem poder direto ou indireto sobre os periféricos.

Na dimensão militar-estratégica, a força militar das potências capitalistas garante a manutenção da hierarquia e do funcionamento do sistema mundial. Intervenções, guerras e bases militares funcionam como mecanismos de coerção e proteção do sistema. Na dimensão ideológica e cultural, o imperialismo se reforça pela difusão global de valores e padrões culturais do centro, como individualismo, consumismo e a ideologia liberal, legitimando a dominação como se fosse modernização universal.

Na dimensão social, reproduz-se uma polarização estrutural entre centro e periferia, também visível internamente nos Estados. Burguesias locais associadas ao capital externo antagonizam as classes populares e bloqueiam projetos autônomos de desenvolvimento, perpetuando uma divisão internacional do trabalho.

As relações de força também se dão entre os Estados imperialistas. Na primeira metade do século XX chegaram a uma condição de rivalidades interimperialistas que resultou em guerras mundiais. Contudo, após a Segunda Guerra, o sistema mundial passou por uma reorganização profunda, marcada pela ascensão dos Estados Unidos como potência capitalista central, pela subordinação relativa (satelitização) das potências europeias e pelo arrefecimento das rivalidades.

Constituiu-se uma nova hierarquia mundial, com os EUA no topo, seguidos por Estados capitalistas aliados que formam uma cadeia imperialista (imperialismo coletivo), enquanto os Estados periféricos permanecem em condição de dependência.

Portanto, há décadas o imperialismo estadunidense junto com seus asseclas assola a humanidade, entre outras medidas, com sanções, ingerências em busca de recursos econômicos e estratégicos, intervenções militares, promoção de mudanças de regime (regime change), anexações e colonização – medidas que por vezes são aplicadas em pacote. Vejamos, brevemente, em perspectiva histórica o imperialismo e a relação com a política externa atual do governo de Donald Trump.

2.

Ao longo do século XX, as sanções estadunidenses se consolidaram como um instrumento central de política externa, especialmente no contexto da Guerra Fria, combinando embargos comerciais, bloqueios financeiros, congelamento de ativos e restrições diplomáticas contra governos considerados hostis. Alguns casos que ilustram essa dinâmica são as medidas contra a China após 1949, contra o Vietnã após 1975 e contra o Irã após 1979.

Contudo, o exemplo mais duradouro é o embargo imposto à Cuba depois da revolução de 1959, que se transformou em um aparato abrangente de restrições comerciais e financeiras, posteriormente reforçado por legislação interna aos EUA, como a Lei Helms-Burton (1996), com efeitos extraterritoriais. No atual governo de Donald Trump, a estrutura central das sanções permanece: manutenção do embargo quase total, restrições financeiras rigorosas, limites a investimentos e vigilância sobre remessas e viagens, o que faz de Cuba um dos alvos mais persistentes da política de sanções estadunidenses.

No Brasil, autoridades também sofreram sanções por meio de lei interna, a Lei Magnitsky, por causa do julgamento e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, personagem neofascista e consequentemente aliado ao governo de Donald Trump.

A supremacia dos EUA na segunda metade do século XX lançou mão de intervenções nos países produtores de energia, especialmente no Oeste Asiático (Oriente Médio), dada sua centralidade para a economia mundial. O caso emblemático foi o golpe no Irã em 1953, após a nacionalização do petróleo, seguido por forte envolvimento estratégico na região, incluindo a Guerra do Golfo de 1991 para reverter a invasão do Kuwait pelo Iraque, e a invasão de 2003, amplamente debatida quanto ao papel das reservas iraquianas.

Além de petróleo e outras fontes de energia, o atual imperialismo estadunidense busca terras raras e minerais críticos. O governo de Donald Trump lançou em fevereiro o chamado Projeto Vault, um plano estratégico para criar um estoque nacional de terras raras e minerais críticos, o que inclui “parcerias” internacionais. Considerados o ouro do século XXI, as terras raras e minerais críticos são um grupo de elementos químicos, de alta importância econômica e estratégica, usados na produção de componentes para indústrias desde motores, passando por energia e telecomunicações até informática e militar.

A Argentina de Javier Milei já assinou um acordo com Washington para cooperação no fornecimento e no processamento de minerais críticos. No Brasil, apesar da cautela do governo Lula, a mineradora Serra Verde – atualmente a única produtora de terras raras no Brasil – firmou um acordo de financiamento no valor de US$ 565 milhões com o governo dos Estados Unidos.

Na dinâmica de operação do imperialismo, essas parcerias na América do Sul tendem a reproduzir o padrão de dependência: exportação de commodities e compra de produtos de alto valor agregado, envolvidos por pressão política que reduz a margem de manobra diplomática.

3.

Os Estados Unidos tiveram um longo histórico de intervenções militares diretas na América Latina, o que incluiu invasões e ocupações no Caribe e na América Central – como no Panamá em 1989 para derrubar Manuel Noriega – que refletiram uma dinâmica de influência direta sobre governos considerados hostis. Esse padrão também envolveu apoio a golpes, pressões contra governos e ações encobertas em países como Nicarágua durante a Revolução Sandinista.

Mais recentemente, no governo de Donald Trump, essa tradição intervencionista continua com a operação militar na Venezuela em 2026, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças especiais estadunidenses. Além de ser uma ruptura aberta com normas internacionais, é mais uma interferência militar direta na região, motivada por uma mistura de discurso antinarcóticos, combate a governos não alinhados e interesses geopolíticos por petróleo. Vale lembrar que historicamente os EUA sequestraram três presidentes: Manuel Noriega no Panamá, Saddam Hussein no Iraque e, agora, Nicolás Maduro na Venezuela.

A política de mudança de regime também integra o repertório da política externa dos Estados Unidos, articulando operações encobertas conduzidas pela CIA, apoio a golpes militares, intervenções diretas e diferentes formas de patrocínio destinadas a derrubar governos considerados hostis. Entre os casos emblemáticos estão o mencionado golpe no Irã, em 1953, que depôs Mohammad Mossadegh após a nacionalização do petróleo, bem como as ações na Guatemala, em 1954, e no Chile, em 1973.

Na atualidade tais medidas assumem formas mais híbridas, combinando sanções econômicas, lawfare, pressão diplomática e operações cibernéticas.

Os Estados Unidos expandiram significativamente seu território por meio de anexações. O caso mais marcante foi a tomada de cerca de metade do território do México após a Guerra Mexicano-Americana (1846–1848), formalizada pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, que resultou na incorporação de territórios que hoje incluem Califórnia, Arizona e Novo México.

Posteriormente, houve anexações como Porto Rico e Guam e a consolidação do Havaí como estado. No atual governo de Donald Trump há declarações políticas sobre a possibilidade de anexação da Groenlândia – território autônomo da Dinamarca – em uma lógica ligada ao desgelo do Ártico, a recursos minerais e a contenção de Estados não alinhados. Tal animosidade levou Estados europeus a enviarem tropas para o Ártico, reascendendo a possibilidade das rivalidades interimperialistas.

A cadeia imperialista incorporou o colonialismo e o caso mais emblemático disso é o apoio dos Estados Unidos a Israel: um dos pilares de sua política para o Oeste Asiático desde 1948, envolvendo assistência militar, cooperação estratégica e proteção diplomática em fóruns internacionais. O apoio é um grande patrocínio a um processo de colonização nos territórios da Palestina.

O atual governo de Donald Trump tem mantido forte alinhamento com Israel, com apoio militar contínuo e respaldo diplomático. A criação do Conselho de Paz é uma iniciativa voltada à construção de uma espécie de ONU paralela, desprovida formalmente de compromissos efetivos com soberania, legalidade internacional ou multilateralismo, e colocada sob a primazia decisória de Washington, tendo Israel como parceiro estratégico central.

A escolha de Gaza como ponto inaugural das atividades do conselho significa endossar o colonialismo e o genocídio israelense e fazer desse território um “laboratório” inicial para um novo arranjo regional e internacional. Na prática o tal conselho legitima a devastação em curso e transforma Gaza em base simbólica para uma reconfiguração das relações internacionais (marcadas pelo declínio da supremacia dos EUA) sob a égide do unilateralismo estadunidense aberto e direto.

Nessa análise breve e panorâmica procuramos argumentar que o imperialismo estadunidense tem um padrão de operação contínuo, mesmo no governo de Donald Trump. Mas, então, não haveria nada de novo? Sugerimos em outro texto [https://aterraeredonda.com.br/donald-trump-e-o-nazismo/] que o governo de Donald Trump é um governo neofascista e sua política externa se assemelha mais a Alemanha Nazista do que a Doutrina Monroe. Essa seria a novidade: um governo neofascista no Estado capitalista central da cadeia imperialista, em um contexto de perda de supremacia mundial.

Assim, o imperialismo está escancarado, sem o véu do liberalismo que cobria os governos estadunidenses anteriores, os mesmos que construíram as chamadas instituições multilaterais e intervinham em países em nome da democracia, direitos humanos, liberdades etc. Entre outras características do neofascismo, o que faz Donald Trump operar abertamente o imperialismo é seu caráter supremacista: inferioriza, dissimula e constrói caricaturas dos seus rivais e antagonistas – que seriam as faces da ameaça e da barbárie – para derrotá-los e/ou eliminá-los, em nome de valores supremos dentro do lema make America great again.

Entre o velho imperialismo e o novo fascismo de Donald Trump e o capitalismo dos EUA continuam sendo uma catástrofe para a humanidade.

*Caio Bugiato é professor de Ciência Política e Relações Internacionais na UFRRJ e no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da UFABC.

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