Surgimento dos bancos – história edificante

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

A primeira instituição bancária de grande escala surgiu não da comunidade mercantil, mas de cavaleiros religiosos conhecidos como Templários

Quando e onde foram criados os bancos? O ChatGPT responde: “não há um consenso sobre qual foi o primeiro banco da história. No entanto, há registros de instituições financeiras existentes há milhares de anos”.

Para tal resposta, ele trata os bancos apenas como fossem “cofres-fortes” ao informar os primeiros “bancos” conhecidos terem sido criados em templos na Mesopotâmia, por volta de 2.000 a.C. Esses templos recebiam depósitos de grãos e metais preciosos – e concediam empréstimos aos comerciantes da época.

Na China, por volta do século VII, surgiram as casas de câmbio para trocar as moedas de comerciantes das diferentes regiões do país. Com o transcorrer do tempo, essas casas teriam começado a oferecer serviços bancários, como depósitos e empréstimos.

No Ocidente, a abordagem eurocêntrica afirma os primeiros bancos medievais terem surgido na Itália a partir do século XII. Não há comprovação desses bancos, conhecidos como “bancos de depósito”, trabalharem com recursos de terceiros desconhecidos e configurarem uma rede capaz de multiplicar depósitos com contínuos empréstimos.

Daí o ChatGPT dá um salto de cinco séculos para afirmar os “bancos modernos” terem sido criados no século XVII, com o surgimento do Banco da Suécia (1668) e do Banco da Inglaterra (1694). Estes, posteriormente, quando passaram a priorizar a salvaguarda dos poucos bancos existentes contra “corridas bancárias”, isto é, saques massivos dos depósitos, se tornaram, de fato, Bancos Centrais.

Na verdade, conceitualmente, não há correlação causal entre as moedas-mercadorias ou cunhadas e o surgimento de bancos. Estes se definem por três funções básicas, interativas através dos subsistemas de pagamentos, gestão de dinheiro e financiamentos. Já moeda se torna efetivamente dinheiro quando cumpre as três funções interativas como meios de pagamentos, unidade de conta e reserva de valor.

Segundo o livro A história do dinheiro (1999) de de Jack Weatherford, a primeira instituição bancária de grande escala surgiu não da comunidade mercantil, mas de uma ordem estranha e aparentemente implausível de cavaleiros religiosos conhecidos como Templários. Fundada em Jerusalém por volta de 1118 pelos cruzados, a Ordem Militar dos Cavaleiros do Templo de Salomão dedicou sua vida ao serviço da Igreja e, especificamente, à tarefa de libertar os Lugares Santos apossados por infiéis.

Os Templários mais tarde se tornaram empreendedores, gerenciando a maior corporação bancária internacional por quase duzentos anos. Durante esse período, lançaram as bases do visto adiante como o banco moderno, embora a um preço muito elevado para eles. Seu sucesso financeiro levou não apenas à destruição da ordem, mas também ao tormento público, à tortura e à queima de seus líderes.

Embora recrutados entre os descendentes mais jovens da nobreza, não herdaram títulos ou riquezas. Os temidos guerreiros se dedicaram a uma vida de devoção à Igreja nas Cruzadas e na guarda dos fundos obtidos de fontes religiosas e seculares para seu financiamento. Os cavaleiros transferiam regularmente a contribuição de feudos, na Europa, onde conquistavam terras, para seu quartel-general em Jerusalém.

Constituíam a maneira segura para transportar as valiosas espécies monetárias por longas distâncias, inclusive através do Mediterrâneo. Afinal, eram os responsáveis pela segurança, tanto nas estradas, como nas rotas marítimas.

Possuindo alguns dos castelos mais inexpugnáveis do mundo e sendo uma das forças de combate mais sem medo da morte, na época, seus castelos eram o local ideal para depositar dinheiro e outros objetos de valor. No auge de suas operações de guarda, empregavam cerca de 7.000 pessoas e possuíam 870 castelos espalhados pela Europa e Mediterrâneo, da Inglaterra a Jerusalém.

Porém, em 1295, o rei Felipe IV da França arrancou o controle de suas finanças dos Templários e estabeleceu o Tesouro Real no Louvre. Além disso, começou uma campanha destinada a difamar e apoderar-se das vastas posses e do tesouro da Ordem.

Para resolver a sua constante necessidade de dinheiro, o monarca recorreu inicialmente à expropriação dos mercadores lombardos. Depois da tentativa de taxar o clero sem sucesso, ele se voltou contra os judeus, expulsando-os em julho de 1306, após confiscar suas propriedades. Mas nem mesmo toda essa riqueza conseguiu atender ao crescente aparato governamental de Felipe IV, ávido por poder absoluto.

A maior concentração de riqueza em toda a Europa estava nos arredores de Paris, em castelo bem fortificado, onde funcionava como o tesouro central da riqueza dos Templários. Para se apossar dessa riqueza, o rei teria de destruir a Ordem. Em 1307, ele colocou seus promotores para os denunciar, tal como os banqueiros são hoje: “os Templários devem ter feito algum pacto com o diabo para terem se enriquecido tanto”.

Submetidos à tortura insuportável, os altos funcionários da ordem assinaram confissões forjadas a priori. Nelas, forneciam detalhes vívidos de suas atividades como idólatras, profanadores de objetos sagrados, conspiradores aliados ao diabo e desviantes sexuais.

Cedendo à pressão da monarquia francesa, Clemente V abateu a ordem em uma bula papal, Vox in Excelso, emitida em 22 de março de 1312. O pontífice achou mais prudente sacrificar os cavaleiros de sua Igreja em vez de desafiar a vontade do monarca gaulês.

Ao abolir a ordem, o papa esperava manter algum grau de controle sobre a propriedade dos Templários, transferindo-a para outros grupos religiosos submissos a si. Foi frustrado nessa pretensão, apesar de entregar todos os cavaleiros para a morte em fogueiras no ano de 1314.

O triunfo completo do rei Felipe IV sobre os Cavaleiros Templários marcou uma clara ascensão de poder para um Estado nacional. Nenhuma potência toleraria mais um adversário financeiro internacional tão poderoso.

Nesta encruzilhada da história econômica da Europa, quando o poder financeiro da Igreja havia diminuído e o poder do Estado ainda não havia crescido o suficiente para substituí-lo, as famílias nas cidades-Estado do norte da Itália de Pisa, Florença, Veneza, Verona e Gênova começaram a oferecer os mesmos serviços prestados antes pelos Templários, embora em uma escala muito mais modesta no início. Deram origem a um novo grupo de instituições: bancos, no caso, fora do controle imediato da Igreja e do Estado, embora com laços estreitos com ambas as entidades.

Essas famílias de banqueiros italianos negociavam sem restrições com muçulmanos, tártaros, judeus e pagãos, bem como com cristãos ortodoxos e católicos. A rede bancária das famílias mercantes italianas se estendeu logo da Inglaterra ao Mar Cáspio, e financiou missões comerciais desde o Oriente Médio até a China.

O termo moderno “banco” vem da maneira como esses primeiros mercadores de dinheiro conduziam seus negócios. Significava “mesa” ou “bancada”, o suporte onde literalmente formava a base de suas operações nas feiras.

O banco foi além de ser apenas uma instituição de empréstimo, porque os banqueiros não lidavam tanto com ouro e prata, mas com pequenas folhas de papel (“letras de câmbio”), onde escrituravam os depósitos. Elas representavam ouro e prata.

Na prática, os banqueiros passaram a emprestar aos ricos, enquanto os penhoristas continuaram a emprestar aos mais pobres. Enquanto não diversificaram o risco com o varejo massivo, os banqueiros ficaram sujeitos a “calotes reais” ou “riscos soberanos”…

Juntas, as famílias de banqueiros da Itália financiaram a monarquia inglesa sob Eduardo I e Eduardo II, em campanhas de conquista no País de Gales e na Escócia. Ao apoiar a monarquia inglesa, os bancos familiares italianos ganharam mais dinheiro além do recebido em juros sobre esses empréstimos de alto risco. Com o monarca inglês como devedor, eles tinham acesso especial aos mercados ingleses e esse relacionamento deu-lhes até o monopólio na comercialização de ovelhas inglesas no continente.

Os banqueiros italianos prosperaram, mas, como os Templários, faliram como resultado de seu próprio sucesso e de suas negociações com o governo. Algumas das principais famílias de banqueiros italianos apoiaram Eduardo III no início da Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França. Porém, em 1343, o monarca inglês deixou de pagar seus empréstimos. Seu “calote real” levou à falência das principais famílias florentinas banqueiras e de muitos de seus depositantes.

Todo o sistema monetário baseado em letras de câmbio dependia, em última análise, da honestidade e da boa fé dos participantes, mas quando um governo estava sobrecarregado com suas dívidas, tinha o poder de ignorá-las, destruindo o sistema. “As fortunas bancárias dos italianos foram diluídas como castelos de areia pelo efeito da maré alta”, conta Weatherford (1999). Pior, para selar o destino da banca florentina, a Peste Negra varreu o norte da Itália e devastou a região até 1348. Intervalo, não o fim.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).


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