O mundo mágico de Escher

M. C. Escher, Relatividade, 1953, litografia, 29,1 x 29,4 cm. The M.C. Escher Company B.V. Baarn, The Netherlands
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Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Comentários sobre a exposição no CCBB do artista gráfico holandês

O paradoxo de um espaço delimitado, restrito ou confinado e, ao mesmo tempo, multiplicado, o infinito não como o formalmente ilimitado, mas como adição contínua de figuras ou elementos discretos, é o paradoxo do espaço em Escher, que nos remete à experiência singular da vertigem unida à… claustrofobia.

foto: Marcelo Guimarães Lima

O Mundo Mágico de Escher foi uma exposição apresentada no espaço do Centro Cultural do Banco do Brasil, na região central da cidade de São Paulo (em 2011). Aqui apontamos brevemente algumas características da arte de Escher e observamos certa ressonância entre a poética do artista holandês e o espaço arquitetural e urbano em São Paulo.

Sabemos que a forma geométrica é sempre o resultado de operações sistematizadas, de transformações das figuras. Assim, a imagem em Escher, na sua geometriatransformativa, nos remete ao paradoxo das equivalências e da multiplicidade, a unidade do diverso e a diversidade do idêntico, das reversões, circularidades e continuidades espaçotemporais ali onde a experiência comum apenas vislumbra o discreto, o sentido ou a trajetória única e o descontínuo ou isolado, e vice-versa.

As artes gráficas são as artes das superfícies ou dos planos. Sobretudo em algumas das litografias de Escher, elas adquirem uma densidade e presença análogas às da pintura. As artes gráficas (gravura, litografia, água-forte, aquatinta, xilogravura e técnicas ou disciplinas complementares) são artes de planos superpostos que transfiguram as superfícies e as luzes em transparências resultantes do diálogo entre sombras e luz em tensões complementares e equilíbrios variados.

Dia e noite, 1938, xilogravura, 39,2 x 67,8 cm. The M.C. Escher Company B.V. Baarn, The Netherlands

Vistos na penumbra da sala de exposições do Centro Cultural do Banco do Brasil em São Paulo, estes cinzas e negros adquiriam uma espécie de vibração quase “musical”. A questão dos ritmos visuais é, sem dúvida, central em Escher, e se relaciona com as questões centrais da imagem e da representação.

Para o artista peculiar e “inatual” que foi o gravador holandês em seu tempo, a questão da obra de arte se distinguia das questões “puramente” ou focadamente estéticas para centrar-se na investigação estrutural e estruturante da imagem e da representação como portas de acesso, por tensões e contrastes, ao ser e à realidade.

Foi necessário ao criador Escher a tenacidade e, de certo modo, o isolamento e a constante reiteração de uma busca particular e balizada, com todos os seus eventuais percalços, para a produção, em seus melhores momentos, de uma visão poética original, isto é: uma estética própria, capaz de transfigurar processos representativos e questões formalizantes em obras de arte singulares portadoras de uma emoção única, por meio da qual o método e a medida podem se revelar como fundamentos da nossa relação sensível e senciente ao real e a nós mesmos.

São Paulo, a cidade – labirinto, é pano de fundo ideal para a visão em labirinto de Escher. O contexto espacial e arquitetônico do edifício do Centro Cultural do Banco do Brasil no centro de São Paulo, reformado em 1927, de formas “ecléticas” (ambíguas, amalgamadas, heterogêneas) entre o Neoclássico e a Art Nouveau, reafirmava, na aparência, na configuração do espaço, ritmos e estruturas visuais, proporções e percursos, esta afinidade encontrada entre o artista e a cidade, em uma espécie de inusitado, discreto mas efetivo diálogo entre a obra de arte e a arquitetura.

Castrovalva, 1930, litografia, 53,6 x 41,8 cm. The M.C. Escher Company B.V. Baarn, The Netherlands

A lógica da imaginação em Escher se apresenta e se desenvolve como disciplina do olhar, como uma espécie de pedagogia da visão por meio da qual aprendemos a intuir nas superfícies e nos espaços que nos são habituais outras dimensões, outros contrastes, outros percursos do real e da subjetividade.

Edifício do Centro Cultural do Banco do Brasil, na região central de São Paulo (2011). Foto: Marcelo Guimarães Lima

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.


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