A Bienal de Havana

Marcelo Guimarães Lima, Dark Fruit, acrílico sobre papel, 21.5x28cm, 2020
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

O boicote à atual Bienal de Havana se insere num contexto geral de ataques ao estado cubano e ao povo cubano, ataques comandados pelo estado norte-americano auxiliado por países associados

Digamos da maneira a mais simples e direta possível: a proposta que circula articuladamente nas redes de boicote à atual Bienal de Havana se insere, e não poderia deixar de se inserir, num contexto geral de ataques ao estado cubano e ao povo cubano, ataques comandados pelo estado norte-americano auxiliado por países associados e subordinados nos quais impera a ideologia e a prática neoliberal-totalitária do nosso presente histórico. Presente que se quer e se afirma como anti-histórico por excelência, ou seja, regressivo, impositivo, inquestionável.

E isso não obstante os “bem-intencionados” críticos, e eles existem (com ou sem aspas) mas que, infelizmente para eles e para suas melhores intenções, em determinadas situações não conseguem se distinguir dos expressamente mal-intencionados.

Seguindo a mesma lógica “universalista democrática” seria provavelmente necessário boicotar as bienais europeias e as mostras equivalentes nos EUA na medida em que se invocam razões político-culturais ou o “colaboracionismo implícito” de artistas que se recusam a denunciar explicitamente, pontualmente os males e mesmo os crimes políticos dos seus respectivos estados. Crimes como, por exemplo, invasões, guerras, genocídio, embargos comerciais, apropriação de recursos, censura implícita ou explícita, criminalização de estados e imposição unilateral de sanções várias contra estados e povos inteiros, etc.

Promover a democracia alhures e ao mesmo tempo, como assistimos nos dias de hoje, solapar o que resta de vida democrática nos países “paradigmáticos” da democracia liberal, EUA, França, Inglaterra, entre outros, talvez não seja a melhor estratégia de convencimento daqueles que aparentemente precisam ser convencidos. Julian Assange certamente nos teria algo a dizer a respeito da liberdade de informação e das ações à revelia das leis dos dirigentes políticos das democracias se pudéssemos consultá-lo.

Os exemplos recentes e não tão recentes de arbitrariedades que fazem do direito internacional mero palavrório destituído de sentido real abundam: o inflexível e interminável embargo “universal”, isto é, imposto universalmente e unilateralmente por um país, os EUA, contra Cuba, é um exemplo, entre outros, vários outros exemplos de ilegalidades e arbitrariedades exercidas em nome da democracia liberal e de seus “valores”. Arbitrariedades que não podem disfarçar, para quem quer ver a realidade como ela é, a lógica ou razão “inequívoca” do poder enquanto poder, isto é, da violência que para se exercer pode ao mesmo tempo invocar ideais nobres e ao final dispensar as próprias justificativas no desempenho do poder de fato.

Cuba com sua revolução demonstrou que a real independência, a autodeterminação nacional necessitava uma mudança de regime sociopolítico para se efetivar na América Latina. Perigosa lição, ainda atual ou mesmo mais atual que nunca em nossa época neoliberal. As vicissitudes da revolução cubana, o enfrentamento direto ao poder imperial e seus aliados internos e externos, expressaram de modo decisivo o poder da vontade popular. Cuba tem mostrado que nenhum estado ou regime, por mais “forte” ou impositivo, pode resistir a um embargo generalizado, tal como as sanções impostas ao pequeno país caribenho por tantas décadas, se não contar com decisivo apoio popular.

De modo semelhante, entender as contradições do processo revolucionário cubano, e elas existem como existem para todo e qualquer processo histórico que visa outro futuro para os povos, contradições nas quais se mesclam fatores internos e poderosos constrangimentos externos da conjuntura mundial, é tarefa crucial para as lutas progressistas em nosso tempo.

Mas principalmente, o futuro de Cuba e sua revolução é tarefa e decisão autônoma do povo cubano, povo que se sacrificou para construir uma sociedade mais igualitária e certamente não abandonará, malgrado todas as dificuldades, pressões e chantagens, o sonho e a luta. Pois, afinal das contas, a capitulação pura e simples, o abandono da luta revolucionária é, por trás da retórica liberal, a demanda de sempre dos adversários de sempre.

O povo cubano não pede nem necessita conselhos para cuidar de seus assuntos. Assim como os artistas de Cuba são os que devem decidir das iniciativas artísticas e culturais do país em benefício da sociedade cubana e certamente não necessitam conselhos ou ordens alheias.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • A Unicamp na hora da verdadecultura artista palestina 13/07/2024 Por FRANCISCO FOOT HARDMAN: No próximo dia 6 de agosto o Conselho Universitário da Unicamp terá de deliberar se susta as atuais relações com uma das instituições empenhadas no massacre em Gaza
  • 40 anos sem Michel Foucaultveneza 13/07/2024 Por VINÍCIUS DUTRA: O que ainda permanece admirável na forma de Foucault de refletir é sua perspicácia em contestar ideias intuitivamente aceitas pela tradição crítica de pensamento
  • A noite em que a Revolução Francesa morreuater 0406 01/07/2024 Por MARTÍN MARTINELLI: Prefácio do livro de Guadi Calvo
  • Hospitais federais do Rio de JaneiroPaulo Capel Narvai 11/07/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: A descentralização dos Hospitais federais do Rio não deve ser combatida nem saudada, ela é uma necessidade
  • O filósofo e o comediantefranklin de matos 08/07/2024 Por BENTO PRADO JR.: Prefácio do livro de Franklin de Matos – uma homenagem dos editores do site ao filósofo e professor da USP, falecido ontem
  • Episódios stalinistas no Brasilfotos antigas 14/07/2024 Por ANGELA MENDES DE ALMEIDA: Uma história costurada com inverdades, mas que, muito tempo depois, acabaram por sair à luz do dia
  • Nordeste — um novo cenáriovermelho ddddddddddd 10/07/2024 Por JOSÉ DIRCEU: O Nordeste passará a ser visto como exemplo para o Brasil, da mesma forma que escolas públicas do Ceará são referência em qualidade de ensino
  • A produção ensaística de Ailton Krenakcultura gotas transp 11/07/2024 Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES: Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Krenak esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza
  • Marxismo e política — modos de usarLuis Felipe Miguel 15/07/2024 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Introdução do autor ao livro recém-publicado
  • Julian Assange, Edward Snowden, Daniel Ellsbergwalnice 13/07/2024 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Só permanece desinformado sobre segredos e inconfidências quem de fato tiver muita preguiça

PESQUISAR

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES