Pensamento decolonial e desenvolvimento sustentável

Imagem: Christian Thöni
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Por ITALO EMMANOEL MESQUITA DE MOURA*

Uma visão crítica daquilo que está posto socialmente como “o padrão”, “o certo” e “o ideal”

O movimento decolonial tem como proposta dar outra visão para as relações sociais estabelecidas no período colonial, em que as grandes potências econômicas eram reconhecidas por sua capacidade de desbravar os oceanos para “descobrir” novas terras. O discurso do colonizador foi imposto, sendo o mais aceito e valorizado por representarem as burguesias financeiras mundiais que afirmam levar desenvolvimento para regiões desprovidas de uma estrutura, como aquelas das metrópoles, a partir da exploração dos recursos naturais. A perspectiva dos povos colonizados foi apagada (o que inclui sua cultura de forma geral, os rituais, religiões, idiomas, ensinamentos e etc) sob a justificação da difusão da fé católica.

Mesmo com o passar de muitos anos, a relação de poder entre colonizador e colonizado não mudou, mas se readaptou aos novos contextos. Para identificá-los é necessário ver além da opacidade da língua, nas informações que se recebe, para entender a posição-sujeito daquele locutor e suas condições de produção. Ao fazer isso, questiona-se o que é o mais aceito e abre um pequeno espaço para valorizar aquilo que por muito tempo foi propositalmente apagado e esquecido. Esse movimento representa uma mudança cultural sob o que está posto.

Na perspectiva ambiental, a readaptação das relações de colonização é mantida no reforço ao sentimento de extrema necessidade de acumular bens materiais, que chega até as pessoas através das redes sociais, grande mídia e a educação. No curso de engenharia de produção, normalmente, há apenas uma disciplina para tratar das ciências ambientais que pouco conversa com as outras disciplinas do curso.

Assim, em um momento, o estudante recebe uma visão de uso sustentável de recursos naturais com busca pela valorização dos aspectos sociais, enquanto em todas as outras é ensinado um conjunto de técnicas para se alcançar cada vez mais a maior eficiência da produção. O resultado é que as questões ambientais passam a ser tratadas apenas como um tópico que deve ser verificado no lançamento de um produto ou na gestão de uma empresa, sob pena de não haver aceitabilidade no mercado e, consequentemente, retorno financeiro.

Na música Ouro de Tolo, de Raul Seixas (1973)[i], o autor repete em várias estrofes que deveria estar contente por ter conseguido algumas conquistas profissionais e materiais (“ter emprego, ganhar quatro mil cruzeiros, ser artista, ter um Corcel 73 e morar em Ipanema”), mas que isto o deixou decepcionado. O mesmo ainda critica a arrogância humana com a aceitação passiva de um modelo de sucesso (que exige exploração desenfreada da natureza), mesmo diante da limitação que o homem tem (“Que só usa dez por cento/ De sua cabeça animal”).

Os valores da sociedade moderna baseados no consumo desenfreado repetem o padrão colonial de que se deve sacrificar todos os recursos naturais, todas as terras indígenas e todas as riquezas culturais em nome de algo maior que cada indivíduo. Assim, Raul aponta para a insignificância do modo de viver consumista, que traz um bem-estar que é inalcançável. O autor questiona conquistas como a propriedade privada e a chegada do homem à lua (“Porque longe das cercas/ Embandeiradas”) como coisas que não fazem sentido e não são relevantes para a real melhoria da sociedade.

Por outro lado, os povos originários não têm a mesma necessidade de acumular bens materiais e de possuir propriedades como os colonizadores. O pensamento decolonial ajuda a entender isso. Nestas comunidades indígenas o homem é entendido como parte indissociável da natureza, de forma que sua exploração seria uma forma de autodestruição. A conexão homem e natureza é forte o suficiente para que a relação de dependência mútua seja respeitada e repassada entre as gerações. Todo o discurso consumista e capitalista é repelido.

O pensamento decolonial traz uma visão crítica daquilo que está posto socialmente como “o padrão”, “o certo” e “o ideal”. É preciso apresentar nas escolas, produções acadêmicas e cinematográficas e nas políticas públicas os discursos que foram apagados, para que possamos questionar as desigualdades sociais e lutar por justiça ambiental. No desenvolver dos objetivos do desenvolvimento sustentável, quanto sociedade, não podemos aceitar que os aspectos econômicos dominem as decisões, em detrimento dos aspectos sociais e ambientais. Isto seria aceitar herdar a degradação ambiental do passado, contribuir com ela e transferir um fardo ainda maior para as próximas gerações.

Italo Emmanoel Mesquita de Moura, engenheiro de produção, é doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente na UFPI.

Nota


[i] https://www.youtube.com/watch?v=Kc9OO1VVGyU


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