A desinformação sionista

Imagem: Alexandros Chatzidimos
image_pdf

Por JULIAN MACFARLANE*

Que os sionistas não se importam com a vida humana fica bastante claro nas ações que se seguiram ao 7 de outubro

Em um artigo recente sobre o ataque de 7 de outubro em Israel e sobre o que se seguiu, tentei elucidar a narrativa apresentada ao público, utilizando uma espécie de análise forense dos acontecimentos e das histórias veiculadas pelos meios de comunicação. Preocupava-me que críticos e analistas eminentes estivessem sendo enganados tanto pela desinformação sionista quanto pela desinformação ocidental.

O que concluí naquela análise foi que o 7 de outubro não foi um ataque terrorista, mas sim um movimento militar estratégico, por parte de um povo ocupado, que exerceu o seu direito à resistência, para capitalizar vantagem, fazendo reféns da potência ocupante e, ao mesmo tempo, desmontando o mito da invulnerabilidade militar sionista.

Como na maioria dos movimentos militares, houve danos colaterais.

Com o passar do tempo, no entanto, ficou claro – a partir de fontes israelenses – que a maioria das vítimas civis foi produzida pela mão dos militares israelenses, inicialmente por unidades de helicópteros Apache, que rapidamente esgotaram a maior parte da sua munição, disparando indiscriminadamente. A eles seguiram-se forças terrestres de tanques e artilharia.

Que os sionistas não se importem com a vida humana fica bastante claro nas ações que se seguiram, de ataque indiscriminado a civis em Gaza, onde o número de mortos se aproxima agora dos 11.000 – talvez metade deles mulheres e crianças. “A culpa não é nossa”, dizem os israelenses, “a culpa é dos ‘terroristas’ que se escondem atrás de ‘escudos humanos’”.

Dos 240 reféns, os israelenses já mataram 60, talvez mais. Em breve não terão que se preocupar com eles, o que os removerá como problema de alguma mesa de negociação. Os sionistas israelenses estão praticando o que os nazistas chamavam de “Sippenhaft” (castigo coletivo), geralmente familiar. Assim, eles têm como alvo mulheres e crianças.

Jornalistas também não estão imunes. O jornalista palestino Mohammad Abu Hasira perdeu sua família quando as FDI atacaram sua casa. Da mesma forma, o chefe do escritório da Al Jazeera, Wael Dahdouh, perdeu a esposa, o filho, a filha, o neto e pelo menos outros oito parentes.

Se alguma vez alguém buscou uma prova da influência do nazismo alemão no sionismo, ei-la aqui. A noção de Sippenhaft remonta aos tempos pré-romanos, e era comum entre os povos germânicos, celtas e eslavos.

Ideologias baseadas em mitologias ancestrais, como o nazismo e o sionismo, muitas vezes tomam práticas antigas e as reinventam. Os nazistas fizeram isso com a Sippenhaft, que nos tempos antigos significava que se alguém fizesse algo ruim, como matar a outrem, a família do culpado teria que pagar um preço – normalmente monetário – caso o próprio culpado não pudesse arcar com ele. Isto refletia a natureza comunal das culturas tribais germânicas, mas, na maioria dos casos, não tinha qualquer intenção totalitária. A instituição visava prevenir rixas perturbadoras, como uma forma primitiva de justiça restaurativa.

A versão nazista, no entanto, visava deixar as pessoas com muito, muito medo de agir contra eles. Como a política nazista, a versão sionista não é codificada, mas usada seletivamente, das mais diversas formas, geralmente disfarçada de “autodefesa”. O propósito final, no entanto, é o mesmo que o dos nazistas: controle totalitário.

O terror tornou-se, progressivamente, para os nazistas, uma tentativa agonística de gestão social, à medida que o seu projeto começava a falhar em todas as frentes, fracasso após fracasso. O terror torna-se, assim, expressão de uma derrota.

Agora, quando os sionistas afundarem, os Estados Unidos podem eventualmente estar com eles, em um abraço de afogados.

*Julian Macfarlane é jornalista canadense.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em New Forensics/Substack.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES